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Agência de Notícias da Aids |
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28/NOVEMBRO/07 |
27/11/2007 – 10h
A edição do jornal O Globo traz nesta terça-feira (27) uma série de reportagens sobre as novas infecções pelo HIV em adolescentes, com perfis de alguns jovens cariocas que nasceram com a infecção pelo vírus da Aids ou por meio do ato sexual. A publicação conta também que “a experiência de grupos de apoio a portadores do HIV revela empiricamente uma realidade sobre a qual não há dados oficiais: cresce assustadoramente o número de infecções de adolescentes e jovens por via sexual”. Em grupos como o Arco-íris e o Pela Vidda, por exemplo, os aconselhadores têm recebido cada vez menos jovens que tiveram transmissão vertical (de pai para filho) e mais vítimas de transmissão horizontal (sexual), segundo a reportagem. A matéria lembra também que a exposição na mídia, de forma “sensacionalista”, do cantor Cazuza marcou o imaginário popular sobre a doença. Confira o texto na íntegra.
Jovens em risco
A experiência de grupos de apoio a portadores do HIV revela empiricamente uma realidade sobre a qual não há dados oficiais: cresce assustadoramente o número de infecções de adolescentes e jovens por via sexual. O Ministério da Saúde só dispõe de número de casos de Aids, e não de contaminações. Mas, em grupos como o ArcoIacute;ris e o Pela Vidda, por exemplo, os aconselhadores têm recebido cada vez menos jovens que tiveram transmissão vertical (de pai para filho) e mais vítimas de transmissão horizontal (sexual).
— É a maioria dos casos que temos atendido. O dado triste é que muitos sequer nos procuram, por vergonha ou medo. O aumento da contaminação horizontal poderia ser atribuído ao relaxamento no cuidado — lamenta Leila Francia, do Pela Vidda de Niterói.
O jovem Roberto, de 24 anos, sofre ao tentar imaginar como se contaminou. Ele garante que sempre usou camisinha. Mesmo assim, em julho de 2006, teve início um declínio rápido na saúde. — Como sempre me cuidei, não pensei em HIV. Tive uma pneumonia forte, fiz um tratamento incompleto e, três meses depois, tive tuberculose. Perdi 25 quilos — conta o rapaz, que, depois de começar a tomar os medicamentos antiHIV, já voltou aos 63 quilos habituais.
A família de Roberto, morador da Zona Sul do Rio, o apoiou bastante. A irmã, com quem ele passava às vezes meses sem falar direito, foi a que mais sentiu o choque.
— Ela me liga todos os dias — ri. — Aliás, é engraçado, eles não me criticam, mas me consideram doente, redobramse em cuidados. Já os ouvi cochichando coisas entre si, não é agradável. Agora, se houve algo bom nisso tudo, foi que, além de aprender a me cuidar e a ter uma vida regrada, sem beber ou dormir pouco como antes, estou mais unido a eles.
O sexo, ele conta, é mais raro depois da descoberta. — Acho que estou ainda muito assustado, é recente. Sempre tive uma vida sexual ativa, mas agora prefiro me masturbar a me expor a perigos.
Ainda me revolto e me deprimo quando penso no meu destino. Mas tenho esperança de ter uma família, uma carreira, uma vida longa — diz o rapaz, que cursa publicidade.
Sem tantos sonhos, e assustadoramente pragmática, é Manoela, de 17 anos, que se contaminou numa das primeiras relações sexuais que manteve. Ela engravidou e, moradora de uma região pobre de São Gonçalo, não foi submetida a todos os exames pré-natais indicados. Só teve o diagnóstico de HIV aos quatro dias de vida da filha, que, um ano e sete meses depois, milagrosamente não apresenta sinais de contaminação, apesar de ter sido amamentada.
— Não usamos camisinha. Como me arrependo! Eu não conhecia nada sobre HIV, fiquei muito assustada. Depois fui me acostumando. Ainda não tomo remédio e gostaria de adiar esse momento, por causa dos efeitos colaterais.
Para o futuro, ela deseja apenas uma casa, uma família e mais filhos. Mas repete sempre que não sabe o quanto viverá. Manoela já teve outro namorado desde que descobriu ter o HIV. E não contou para ele: — Não tive coragem. Só fizemos sexo com camisinha. u não sei o que a vida me reserva. Procuro viver o hoje, não sei o que será do meu futuro. Nem sei se terei um.
Sobrevivendo ao HIV
"Sou vítima da doença como milhões de outras pessoas, inclusive meus pais biológicos. Ninguém tem culpa"
Alessandro Soler » asoler@oglobo.com.br
A fase mais explosiva da epidemia de Aids, que assombrou o mundo entre o fim dos anos 80 e a primeira metade da década seguinte, deixou herança. Uma geração de filhos de portadores do HIV infectada naquela época, quando ainda eram desconhecidos medicamentos e práticas capazes de evitar a transmissão de mãe para filho, hoje tenta levar uma vida normal. Em meio a planos e sonhos de longo prazo — algo impensável antes do surgimento das drogas anti-retrovirais, em 1995 —, eles enfrentam o preconceito da sociedade, os transtornos inerentes ao tratamento e, muitas vezes, a cíclica debilidade física.
Esses jovens portadores não viveram a barra pesada da luta do cantor e compositor Cazuza pela vida, até sucumbir em julho de 1990. A exploração midiática sensacionalista da doença do cantor, ícone entre tantas personalidades mortas em decorrência da Aids, deixou marcas no imaginário popular que ainda perduram.
Um dos episódios mais emblemáticos de então foi a publicação de uma foto dele extremamente magro e abatido na capa de uma revista. Nos dizeres da publicação, o cantor agonizava “em praça pública”.
Para quem não viveu ou não se lembra de nada daquilo, ocultar o rosto nesta reportagem da Megazine, 17 anos depois, parece estranho. — Não sou criminosa, não faz sentido eu me esconder.
Sou uma vítima dessa doença como milhões de outras pessoas, inclusive meus pais biológicos. Ninguém tem culpa. É preciso acabar com essa porcaria de discriminação — aborreceu-se Júlia(*), 15 anos, ao não ter autorização da mãe adotiva para mostrar o rosto.
A fim de evitar a exposição dos demais jovens portadores do HIV que aparecem na reportagem — dois deles menores, os outros três com idades entre 19 e 24 anos —, a Megazine optou por não mostrar o rosto de ninguém. Para a psicóloga Leila Chagas Francia, coordenadora de reuniões de adolescentes e jovens adultos no Grupo Pela Vidda de Niterói, por mais que essa geração tenha coragem, o preconceito da sociedade ainda é grande: — As pessoas não perdoam.
Já fragilizados diante de uma doença sem cura, os portadores são humilhados e discriminados. As histórias que ouvimos nas reuniões são desanimadoras. A quatro dias do Dia Mundial de Luta Contra a Aids, o Ministério da Saúde se prepara para lançar sua tradicional campanha, tendo este ano como foco os jovens. Embora, desde o início da década, a faixa etária na qual se verificam mais casos de Aids seja a de 40 a 49 anos , é provavelmente na juventude que a maioria contrai o HIV.
— Há estimativas de que, em média, 50% das pessoas permanecerão assintomáticas por pelo menos dez anos. Por isso, a geração jovem livre de Aids é alvo da atual campanha.
Livrando-os do vírus queremos evitar mais casos de Aids daqui a muitos anos — afirma Ma
riângela Sim
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