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O Globo |
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27/NOVEMBRO/07 |
A experiência de grupos de apoio a portadores do HIV revela empiricamente uma realidade sobre a qual não há dados oficiais: cresce assustadoramente o número de infecções de adolescentes e jovens por via sexual. O Ministério da Saúde só dispõe de número de casos de Aids, e não de contaminações. Mas, em grupos como o ArcoIacute;ris e o Pela Vidda, por exemplo, os aconselhadores têm recebido cada vez menos jovens que tiveram transmissão vertical (de pai para filho) e mais vítimas de transmissão horizontal (sexual).
— É a maioria dos casos que temos atendido. O dado triste é que muitos sequer nos procuram, por vergonha ou medo. O aumento da contaminação horizontal poderia ser atribuído ao relaxamento no cuidado — lamenta Leila Francia, do Pela Vidda de Niterói.
O jovem Roberto, de 24 anos, sofre ao tentar imaginar como se contaminou. Ele garante que sempre usou camisinha. Mesmo assim, em julho de 2006, teve início um declínio rápido na saúde. — Como sempre me cuidei, não pensei em HIV. Tive uma pneumonia forte, fiz um tratamento incompleto e, três meses depois, tive tuberculose. Perdi 25 quilos — conta o rapaz, que, depois de começar a tomar os medicamentos antiHIV, já voltou aos 63 quilos habituais.
A família de Roberto, morador da Zona Sul do Rio, o apoiou bastante. A irmã, com quem ele passava às vezes meses sem falar direito, foi a que mais sentiu o choque.
— Ela me liga todos os dias — ri. — Aliás, é engraçado, eles não me criticam, mas me consideram doente, redobramse em cuidados. Já os ouvi cochichando coisas entre si, não é agradável. Agora, se houve algo bom nisso tudo, foi que, além de aprender a me cuidar e a ter uma vida regrada, sem beber ou dormir pouco como antes, estou mais unido a eles.
O sexo, ele conta, é mais raro depois da descoberta. — Acho que estou ainda muito assustado, é recente. Sempre tive uma vida sexual ativa, mas agora prefiro me masturbar a me expor a perigos.
Ainda me revolto e me deprimo quando penso no meu destino. Mas tenho esperança de ter uma família, uma carreira, uma vida longa — diz o rapaz, que cursa publicidade.
Sem tantos sonhos, e assustadoramente pragmática, é Manoela, de 17 anos, que se contaminou numa das primeiras relações sexuais que manteve. Ela engravidou e, moradora de uma região pobre de São Gonçalo, não foi submetida a todos os exames pré-natais indicados. Só teve o diagnóstico de HIV aos quatro dias de vida da filha, que, um ano e sete meses depois, milagrosamente não apresenta sinais de contaminação, apesar de ter sido amamentada.
— Não usamos camisinha. Como me arrependo! Eu não conhecia nada sobre HIV, fiquei muito assustada. Depois fui me acostumando. Ainda não tomo remédio e gostaria de adiar esse momento, por causa dos efeitos colaterais.
Para o futuro, ela deseja apenas uma casa, uma família e mais filhos. Mas repete sempre que não sabe o quanto viverá. Manoela já teve outro namorado desde que descobriu ter o HIV. E não contou para ele: — Não tive coragem. Só fizemos sexo com camisinha. u não sei o que a vida me reserva. Procuro viver o hoje, não sei o que será do meu futuro. Nem sei se terei um.
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