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Luta por dignidade e respeito263 visualizações desde a publicação original em 14/07/2010. Tempo estimado de leitura acumulado: 1 dias, 2 horas, 18 minutos.

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JORNAL DE BRASILIA – DF | PROSTITUIÇÃO

AIDS | CAMISINHA | DOENÇAS SEXUALMENTE TRANSMISSIVEIS | CONTRACEPTIVOS

14/07/2010

Ana Paula Leitão, especial para o Jornal de Brasília

Em fevereiro de 1992, adolescentes e prostitutas, que viviam em cativeiro de várias partes do Brasil, chegam ao aeroporto de Belém, no Pará. As meninas e mulheres eram obrigadas a servir sexual-mente mais de dois mil garimpeiros que trabalhavam nos arredores da pequena vila de Cuiú-Cuiú. Qualquer tentativa de fuga tinha punição severa. Por vezes, o preço da “rebeldia” era a própria vida.

Após sete meses seguindo a rota do tráfico de crianças e adolescentes, o repórter Gilberto Dimenstein publicou uma série de reportagens na Folha de S.Paulo e conseguiu libertar as meninas e mulheres da exploração. A líder do movimento de prostitutas no Pará, Lurdes Barreto, acompanhou a chegada das meninas escravas no aeroporto de Belém. “Para mim, foi um momento histórico. Fiquei acompanhando elas lá, dia e noite, levei as que estavam com hepatite, com HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis, como a malária. Eu acompanhei, foi muito triste”.

Prostituta, Lurdes foi uma das principais fontes de Dimenstein, que traçou a rota do tráfico de crianças e adolescentes no centronorte do País. Na época, ela já conhecia Cuiú-Cuiú, de onde havia fugido após perceber as marcas da violência em mulheres que trabalhavam no local. “Tive que fugir três dias por dentro do garimpo de Cuiú-Cuiú para chegar até a cidade e virembora. Eu vi mulheres dentro do garimpo com ponta de peito queimada, a ponta de orelha cortada, porque os donos da casa não queriam que elas saíssem de lá”.

Sofrimento estimulou a militância

Lurdes Barreto viveu amores, histórias e desilusões dentro da prostituição. A mulher loira, de 67 anos, nasceu no município de Catolé do Rocha, na Paraíba. Ela aprendeu as lições da vida dentro da zona, onde foi acolhida quando ainda era menina. No olhar, uma expressão da amargura de quem foi estuprada e abandonada aos 13 anos.

O agressor foi o próprio tio, que violentou a menina em uma feira e, depois, a deixou em uma praça pública de Recife. Ensanguentada e toda mordida, Lurdes foi expulsa de casa pelo pai, que a culpou pela violência sexual. Hoje, a mulher luta para que não se repita com outras crianças a história de desrespeito e violência que sofreu. “Fui expulsa de casa porque meu pai quis me matar, porque achava que eu era responsável. Por isso, que eu tenho uma luta eterna contra a violência sexual e o abuso sexual de crianças e adolescentes, porque eu vivi na pele”.

Assim que foi expulsa de casa, Lurdes encontrou na zona de prostituição de Recife uma família e uma escola de vida. Acolhida pelas cafetinas mais antigas, recebeu tratamento médico e iniciou a carreira de prostituta. “Eu cheguei aqui, peguei as polacas, as francesas, as inglesas, as mulheres belíssimas, cheias de muitas joias, bonitas, que me orientavam a ser a puta que sou hoje”.

“TUDO O QUE APRENDI FOI NA ZONA”

Depois de sair de casa, Lurdes não teve mais notícias da família. Mas ela conta que não sente mágoas da mãe por ter permitido que o pai a expulsasse de casa. Segundo Lurdes, a própria mãe também era vítima de violência doméstica. “Minha mãe era uma mulher submissa, violentada também, apanhava muito. Mesmo tendo uma família de classe média, eu não tive família. Eu tive apenas um pai machista, preconceituoso, violento, que batia nas mulheres, que só eram para trabalhar, não podiam estudar. Tudo o que eu aprendi foi na zona de prostituição”.

Após anos trabalhando como prostituta no Nordeste, Lurdes resolveu se arriscar em uma nova aventura e viajou ao Estado do Pará. O primeiro programa foi com o governador do estado e, em seguida, com outras figuras políticas e com empresários importantes da época.

A paraibana foi a primeira prostituta a entrar no garimpo de Serra Pelada, onde recebia o pagamento em gramas de ouro. Nos garimpos, chegou a pegar malária mais de dez vezes. Como na época não havia CAMISINHA nem PÍLULA anticoncepcional, acabou fazendo 22 abortos. Lurdes ressalta ainda que conheceu muitas cafetinas cruéis, que exigiam que ela trabalhasse enquanto tivesse cliente na zona. Por causa da excessiva carga de trabalho, a militante chegou a fazer greve com as companheiras de trabalho.

Mãe de quatro filhos, Lurdes deu uma educação conservadora e tradicional. Durante 30 anos, participou ativamente da Pastoral da Mulher Marginalizada, da Igreja Católica, que reunia profissionais do sexo para tentar tirá-las da prostituição. Aos poucos, o grupo começou a ter voz e resolveu se separar da religião para defender seus direitos. Em 1º de maio de 1990, Lurdes fundou o Grupo de Mulheres Prostitutas da Área Central de Belém (Gempac). “Indicamos esta data por acreditar que a gente está junto com os trabalhadores, na luta para que eles ganhem bem para nos pagarem bem”.

MARCO

O padre Bruno Secci, idealizador do Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua, também estava no aeroporto de Belém no dia em que as meninas de Cuiú-Cuiú chegaram. Segundo ele, o momento significou muito para o combate da exploração sexual de crianças e adolescentes no País, já que permitiu que a sociedade encarasse de frente a questão. “Foi um momento assim muito marcante. De uma certa forma, foi um momento emblemático de todo um trabalho que depois foi sendo continuado”.

Para o padre, a ajuda das prostitutas foi muito importante para denunciar a exploração sexual de crianças e adolescentes no Pará, já que elas conseguiam entrar na zona e ter contato com as meninas exploradas mais facilmente. “Eu chegar lá e fazer a abordagem com essas meninas não levaria a nada. As prostitutas nos deram uma ajuda significativa”, admite o pároco.

De acordo com ele, hoje as pessoas estão mais conscientes da exploração sexual que atinge tantos meninos e meninas no Brasil. Apesar disso, o padre garante que o abuso e a exploração sexual de crianças e adolescentes ainda existe de maneira brutal. “Existe de uma forma muito mais grave do que se pode imaginar, tanto o abuso sexual no meio doméstico como a exploração sexual em suas diversas formas, no meio urbano e rural”

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