, Karla Correia BRASÍLIA. Filho de um ex-deputado federal, integrante do movimento estudantil nos tempos de faculdade, o médico Sebastião Afonso Macedo Viana Neves demorou a ceder aos apelos do mundo político que o cercou desde criança. O pai, Wildy Viana das Neves, foi fundador da União Democrática Nacional (UDN) no Acre, três vezes deputado estadual e vereador mais votado na história de Rio Branco. O irmão, Jorge Viana, era prefeito da capital acreana quando o infectologista formado pela Universidade Federal do Pará aceitou sua sina política e transformou-se no candidato Tião Viana pela primeira vez na vida, aos 33 anos. Foi depois de muita insistência da família que Tião aceitou concorrer ao governo do Acre pelo PT em 1994, mesmo sem nenhuma chance de vitória. De fato, não venceu, mas amealhou 23% dos votos do Estado, o que atraiu as atenções do partido para o novato, que quatro anos depois, em 1998, se elegeu senador ao lado do irmão, eleito governador do Acre. – Era o senador mais jovem do país, com apenas 37 anos – lembra o amigo Aníbal Diniz, suplente de Tião Viana. Com 53% dos votos do Estado, o petista era mencionado por adversários como um “candidato acidental”, mas o rótulo durou pouco. O fato de ter derrotado o peemedebista Flaviano Melo, candidato à reeleição e integrante de uma das famílias mais influentes do Acre, deu cacife político a Tião Viana, que até então nunca havia ocupado nenhum outro cargo eletivo. – E começou logo pelo Senado, uma Casa de velhas raposas, políticos astutos e experimentados. Parecia um menino naquele meio – ri Aníbal. Além da juventude, os hábitos do senador chamavam a atenção no plenário da Casa. Era cena comum ver Tião Viana debruçado sobre livros técnicos de medicina em sua bancada, durante as sessões do Senado, e foi assim que o parlamentar conseguiu completar em 2003 o doutorado em Medicina Tropical na Universidade de Brasília (UnB). Mesmo galgando posições no partido e na Casa, o senador nunca abandonou a dedicação à medicina, e a profissão acabou se transformando em um combustível para o carisma político de Viana. – Ele é aquele político que aperta a mão, lembra o nome das pessoas, olha no olho, escuta todas as reclamações do povo direitinho e sabe como usar isso – aponta um amigo da família que preferiu não se identificar. – Não é bom de palanque, é genial no corpo-a-corpo. No palanque, quem manda é o Jorge, que fala para as multidões e chega a distribuir autógrafos. Mas é o Tião, o médico, quem abraça o eleitor. Torcedor do Fluminense, católico fervoroso, daqueles que não perdem uma missa dominical, esteja onde estiver, casado com a arquiteta Marlúcia Cândida e pai de três filhos, Tião Viana tem um currículo profissional na área de Saúde que poucos no circuito político conhecem. É apontado como o descobridor do primeiro caso de hepatite G na Amazônia, doença que chega a atingir 10% da população do Acre, e autor de vasta bibliografia sobre o assunto. O interesse em doenças infecto-contagiosas aumentou depois que o irmão Wildy Viana das Neves Filho, o Wildinho, foi diagnosticado como portador de HIV, no fim da década de 80. Recém-formado, Tião Viana mudou sua residência médica para o Instituto Emílio Ribas, em São Paulo, o único que, na época, contava com especialização em AIDS. Tião Viana acompanhou o caso até a morte do irmão, e o assunto é, até hoje, difícil para a família. Em uma das raras menções públicas ao fato, o governador Jorge Viana chegou a chorar em uma cerimônia da Universidade Federal do Acre, em 2001, ao se lembrar da história. De profissão, a saúde virou bandeira para o senador que faz questão de manter a fama de homem simples e a disciplina espartana. Ao assumir a presidência do Senado interinamente, no início da semana passada, pegou de surpresa os funcionários da Casa. Chegou às 8h no trabalho, junto com o pessoal da faxina. No dia seguinte, chegou ainda mais cedo. Às 7h15 já estava no gabinete, lendo jornais. Diante da surpresa geral, não hesitou um minuto em capitalizar o hábito. – Acordo com os passarinhos, sempre fui assim, sempre tive essa disciplina – explicou o senador aos jornalistas. Logo depois, modesto, fez questão de deixar claro que não será candidato à sucessão do presidente afastado, Renan Calheiros.
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