Entre 1999 e 2006, um terço dos doentes incluídos no estudo encontrava-se hospitalizado, taxa que não sofreu alterações com o tempo.
Contudo, os investigadores constataram uma alteração das causas de hospitalização, tendo verificado, por exemplo, um aumento dos internamentos por doenças do fígado e da pele. Também constataram que a manutenção de uma contagem de células CD4 acima das 350/mm3 estava associada com uma significativa redução do risco de hospitalização.
Pouco depois de, no final da década de 1990, a terapêutica ARV eficaz se ter tornado disponível, muitos estudos constaram um declínio das taxas de internamento e mortalidade das pessoas com VIH.
Menos bem conhecida é a situação que diz respeito aos internamentos na era actual dos modernos tratamentos.
Porém, existe alguma evidência que sugere que as taxas de hospitalização se têm mantido estáveis ou mesmo sofrido algum aumento, possivelmente em resultado do envelhecimento dos doentes, das co-infecções e dos efeitos colaterais dos medicamentos.
Uma melhor compreensão dos tipos e causas das admissões hospitalares das pessoas com VIH pode constituir um contributo para o planeamento de intervenções que possam beneficiar esta população, no contexto da planificação geral dos serviços de saúde.
Foi, assim, com este objectivo que um grupo de investigadores do HIV Natural History Study das forças militares dos EUA foi monitorizar os tipos de hospitalização e os factores de risco de hospitalização para 2 429 doentes, entre 1999 e 2007, período que foi dividido em 3 segmentos, correspondentes a 3 padrões diferentes do tratamento e cuidados na área do VIH: 1999-2001; 2002-2004; 2005-2007. Refira-se que se definiu “hospitalização” como toda a admissão no hospital por um período igual ou superior a 24 horas.
Em termos gerais, os doentes apresentavam uma média de idades de 37 anos, e encontravam-se a viver com o VIH desde há 7 anos, em média. De todos os indivíduos do grupo, 62% tomavam medicação ARV, encontrando-se a duração média do tratamento nos 4 anos.
A contagem média dos CD4s na altura em que esse tratamento havia sido iniciado tinha sido de 350 células/mm3, tendo o valor médio dessa contagem sido de 544 células/mm3 ao longo do período do estudo. No que se refere à carga viral, 52% dos participantes tinham uma carga viral de 400 cópias/ml.
Um terço dos participantes desta coorte foi hospitalizado pelo menos uma vez (822 doentes), tendo sido de 1 770 o número total de hospitalizações.
A duração média da hospitalização foi de seis dias, valor que não se alterou de forma significativa durante o estudo.
Não se verificaram, igualmente, alterações na taxa global de hospitalizações ao longo dos oito anos do estudo (137 por 1000 pessoas-ano).
As doenças gastro-intestinais constituíram a causa mais frequente de internamento (24 por 1 000 pessoas-anos), seguidas das infecções bacterianas (18 por 1000 pessoas-ano), doenças respiratórias (16 por 1000) e doenças cardiovasculares (12 por 1000).
Verificou-se, porém, um aumento de 50% nas taxas de internamento por cancro, aumento este no limiar do significativo (p = 0.06). As hospitalizações por doença cardiovascular, por seu lado, aumentaram 24% (p = 0.06), ao contrário daquelas por doença neurológica, que caíram 25% (p = 0.05).
No que diz respeito aos internamentos por doenças definidoras de SIDA, eles ocorreram à taxa de 10 por 1000 pessoas-ano, valor que não sofreu alterações com o passar do tempo.
As infecções constituíram a maior causa isolada de hospitalização (49 por 1 000 pessoas-ano), valor que também não se alterou durante o tempo sobre o qual o estudo incidiu.
O risco de hospitalização devido a co-infecção por hepatite, cirrose ou outras formas de doença hepática aumentou 71%. Embora o número total de infecções tivesse reduzido, os investigadores constataram um aumento de 300% nas admissões por MRSA (Infecção por estafilococos resistente à meticilina) e um aumento de 50% nos internamentos por infecções cutâneas em geral.
A realização de cirurgias também se tornou progressivamente mais importante, tendo sido responsável por 22 hospitalizações por 1000 pessoas-ano.
Em seguida, os investigadores foram avaliar a proporção de hospitalizações devidas a doenças ou condições específicas.
As doenças relacionadas com SIDA foram responsáveis por 8% das admissões, valor que não se alterou com o tempo.
A proporção de hospitalizações relacionadas com MRSA aumentou de 0.3% para 3%. Também as cirurgias viram a sua proporção aumentar, neste caso de 13% para 20%.
A análise das características dos doentes admitidos nos hospitais mostrou que a sua idade média era de 41 anos, idade esta que aumentou de forma constante ao longo do período em apreço (39-41 anos, p < 0.001). A percentagem de doentes hospitalizados com hepatite C aumentou de 8 para 14% (p < 0.01).
A contagem de CD4s na altura do internamento também aumentou, de uma média de 409 para uma de 466 células/mm3.
Quanto ao uso de tratamentos ARV por parte dos doentes internados, manteve-se estável ao longo desse período, rondando os 70%.
Finalmente, os investigadores foram analisar os factores associados com a hospitalização.
Assim, cada aumento de 50 células/mm3 na contagem de CD4s mais baixa de sempre mostrou-se associado com uma redução de 8% no risco de hospitalização (p < 0.01).
Por seu lado, os doentes com uma contagem actual de CD4s superior a 350 células também apresentavam uma redução significativa do risco de admissão hospitalar – p < 0.01. Já naqueles com uma contagem actual inferior a 350 células, o uso de ARVs mostrou reduzir o risco de internamento (p = 0.02).
A co-infecção com hepatite C, por seu turno, aumentou o risco de hospitalização em 46% (p = 0.02). Também responsável por um maior risco de internamento se mostrou o factor “duração da infecção VIH” (p = 0.05).
Foi depois levada a cabo uma análise separada com o objectivo de analisar os factores associados com hospitalização por causa infecciosa. Uma vez mais, um maior nadir de CD4s (p < 0.01), uma contagem actual superior a 350 células (p < 0.01), ou o uso de tratamento ARV para valores de CD4s inferiores a 350 (p < 0.01), mostraram-se protectores.
Refira-se para finalizar que quanto maior fosse a idade, maior era o risco de internamento por cirurgia (p < 0.01).
“As hospitalizações continuam a ocorrer a taxas elevadas entre as pessoas infectadas pelo VIH e… estas taxas não se alteraram na era mais recente da HAART”, comentam os investigadores. Que acrescentam que as causas dessas hospitalizações se têm vindo a diversificar, sendo agora as doenças (co-morbilidades) não relacionadas com SIDA as responsáveis pelo maior número de admissões.
As contagens de CD4s superiores a 350 células mostraram reduzir o risco de hospitalização, facto que levou os investigadores a escrever: “estes dados sugerem que a HAART utilizada de acordo com as guidelines terapêuticas parece proteger contra um maior número de internamentos devidos a causas não relacionadas com SIDA”.
Referência
Descubra mais sobre Blog Soropositivio Arquivo HIV
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
