A Global HIV Vaccine Entreprise apresenta estratégia para os próximos cinco anos

O Director-executivo da Global HIV Vaccine Entreprise, o Dr. Alan Bernstein, também apelou ao envolvimento de jovens cientistas no campo da investigação de uma vacina para o VIH.
O plano, disponível para download no site da Global HIV Vaccine Enterprise destaca duas prioridades-chave: melhor integração das mais recentes informações da ciência básica e dos ensaios clínicos em curso nos novos estudos de vacinas, e um melhor uso da informação de estudos pré-clínicos e de outras áreas de investigação científica.
O Aidsmap.com falou com o Dr. Alan Bernstein, fotografia acima, sobre algumas das prioridades no campo das vacinas para o VIH.
Depois do insucesso das vacinas para o VIH baseadas em adenovírus desenvolvidas pela farmacêutica Merck em 2008, houve um debate alargado sobre o futuro da investigação de uma vacina para o VIH, tendo algumas pessoas declarado que seria um beco sem saída e outros apelado a uma abordagem de se voltar ao básico para investigar a forma como o VIH interage com o sistema imunitário.
Mas a Global HIV Vaccine Enterprise afirma que também é necessário mais ciência de laboratório e mais ensaios em humanos se queremos responder às principais questões que ainda se colocam aos investigadores da vacina.
Um exemplo do tipo de questões que necessitam de resposta é: que alterações do sistema imunitário, depois da vacinação, se correlacionam com a protecção do VIH? São estas alterações indicadoras de um mecanismo, através do qual o sistema se protege contra a infecção pelo VIH, que serão exploradas no desenvolvimento de futuras vacinas?
O ensaio tailandês, com um regime de duas vacinas que reduz o risco de infecção pelo VIH em 31%, ainda está a ser analisado para determinar o que pode ser aprendido sobre os correlatos de protecção, com laboratórios em todo o mundo a investigar actualmente amostras cedidas pelos responsáveis do ensaio.
O Dr. Bernstein tem esperança que, em breve, esteja em investigação candidatos a vacinas que possam ser potenciais candidatos naturais às vacinas testadas no ensaio tailandês, no STEP e no Phambili. Porém, os ensaios clínicos em maior escala têm de ser iniciados rapidamente.
“Precisamos de passar de um estudo de fase 2b de sete em sete anos para algo como um todo os anos, para que tenhamos oportunidade de incorporar as descobertas no desenho dos estudos.”
A Global HIV Vaccine Enterprise chama a este processo de “integração da investigação científica recursiva no desenvolvimento do produto.”
Isto significa a incorporação rápida de nova informação dos estudos em curso ou dos seus insucessos no desenho de novos estudos e ensaios clínicos que já estejam a decorrer. Também significa partilhar dados rapidamente e testar, mais cedo, uma maior variedade de abordagens da vacina em ensaios clínicos de eficácia em humanos.
“Os ensaios clínicos são caros – os de fase III custam, pelo menos, 120 milhões de dólares durante a sua duração. [Iniciar um todos os anos] implica pelo menos um aumento de fundos cinquenta vezes superior. Assim sendo, se houver um avanço importante como o do ensaio Tailandês, podemos vir a necessitar de mais de 50% de aumento do financiamento.”
Todavia, o Dr. Bernstein não revelou quanto dinheiro será necessário para que a Global HIV Vaccine Enterprise realize o seu plano.
A necessidade de bastantes ensaios de eficácia também implica um maior investimento de infra-estrutura. Os ensaios de vacinas podem precisar de recrutar milhares de pessoas para provar eficácia no futuro, especialmente se o alargamento do tratamento tiver um grande efeito na transmissão, ao mesmo tempo que outras intervenções preventivas vão também reduzindo a incidência do VIH.
“São necessárias parcerias entre os países desenvolvidos e os em desenvolvimento. O custo de criar capacidade para ensaios clínicos é um gota no oceano quando comparado com o custo dos fármacos.”
“Não gosto das dicotomias das discussões tratamento ou prevenção, curto prazo ou longo prazo. Se aprendemos alguma coisa sobre esta epidemia, é que é necessária uma abordagem multifacetada a longo prazo. Se não implementarmos o que sabemos funcionar, nunca controlaremos esta doença.”
“Usar eficientemente as estruturas de ensaios clínicos, independentemente da modalidade ou do financiador, será um aspecto crítico. Antes de solicitarmos mais recursos, temos de estar certos que estamos a usar os recursos existentes na sua máxima eficácia.”
A Global HIV Vaccine Enterprise também pretende mobilizar novos recursos financeiros e capacidade de investigação.
“Alguns países estão a fazer muito pouco no que diz respeito à investigação de uma vacina para o VIH,” disse o Dr. Bernstein, apesar de não querer mencionar nomes. (a Rússia é uma das ausências, e a investigação de vacinas em alguns países asiáticos ainda está subdesenvolvida, quando comparada com a sua dimensão científica e dos sectores tecnológicos).
“Estou muito satisfeito com a criação de mega-iniciativas científicas por parte da China, umas das quais é da vacina para o VIH, e que se está a unir à Global HIV Vaccine Enterprise. A Europa está num momento de grande reorganização da programação científica, por isso espero que no futuro decorram discussões construtivas com a União Europeia sobre como avançar neste campo.”
Como resposta às percepções, fora do campo do VIH, de que a vacina para esta infecção é impossível, o Dr. Bernstein afirma: “É tão provável que exista uma vacina para o VIH, como fármacos para o Alzheimer ou alguns cancros. Existem razões sólidas para acreditarmos que podemos alcançar a vacina.”
Mas o desenvolvimento de uma vacina bem sucedida dependerá muito provavelmente das equipas de investigação. O Dr. Bernstein crê que o campo do VIH precisa de cientistas jovens que tenham a ambição de fazer carreira nesta área.
“Pasteur disse que tudo o que um cientista quer é fazer uma grande descoberta, para ser reconhecido pelos seus pares e benefício humano. Não consigo lembrar-me de uma área melhor que o da vacina para o VIH [para cumprir essa vontade]. Tornou-se evidente que, dada a dificuldade em desenvolver uma vacina, iremos precisar de grandes cientistas. Para os jovens cientistas é uma oportunidade impar.”
A vasta maioria dos vencedores do Prémio Nobel na área das ciências naturais fez o trabalho que os conduziu ao prémio antes dos 40, conforme realça o Dr. Bernstein.
“Os jovens têm energia, ingenuidade para serem grandes cientistas e abertura a novas ideias. Watson tinha 32 anos quando estava a fazer o trabalho mais importante na biologia, a descoberta da dupla hélice do ADN. Crick e ele queriam vencer um cientista com mais idade, Linus Pauling.”
A HIV Vaccine Enterprise também quer catalisar o interesse para a resolução de alguns problemas inerentes ao desenvolvimento de uma vacina para o VIH, alcançando outros campos tais como a biologia e a genômica.
“Confiamos no sistema imunitário para fazer o nosso trabalho [quando desenvolvemos uma vacina]. Quando funciona é fantástico, mas quando não funciona é necessário descobrir o que se passa. Existe um conjunto complexo de interacções e precisamos de um conhecimento biológico e aprofundado dessa complexidade.”
Existe também a necessidade de usar a computação e os novos desenvolvimentos na teoria de redes, para compreender a relação entre milhares de fragmentos de informação derivada do estudo de respostas à vacina e das interacções entre o VIH e o sistema imunitário.
As novas tecnologias precisam também de ser exploradas na investigação de uma vacina.
“Existe uma boa razão para se acreditar que a imunidade das mucosas é fulcral na transmissão do VIH, mas como monitorizamos o que se passa na mucosa sem as pouco práticas e invasivas amostras de tecido? Existe uma forma não-invasiva de olhar para a superfície da mucosa de forma a saber o que se passa na fase inicial da infecção? Houve uma revolução na tecnologia de imagiologia e devíamos estar a falar com os [peritos].”
Keith Alcorn
Tradução
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