Baixa prevalência de doença renal avançada nos doentes infectados pelo VIH na Europa

De acordo com um artigo publicado na edição online do Journal of Acquired Immune Deficiency Syndromes, a prevalência de doença renal avançada nas pessoas seropositivas para o VIH na Europa é baixa.
Assim, apenas 0.5% dos doentes apresentavam lesão renal irreversível a necessitar de diálise ou transplante. A maioria dos doentes era jovem, de raça negra. No que se refere aos doentes em diálise, apenas um terço eram considerados candidatos a transplante renal. O motivo mais frequente de exclusão era o controlo insuficiente da infecção pelo VIH.

Desde a introdução da terapêutica anti-retroviral eficaz, em meados da década de 90, o prognóstico dos doentes com VIH na Europa tem melhorado de forma marcada. De facto, o prognóstico de muitos doentes é agora considerado normal. Contudo, as doenças avançadas de determinados órgãos, como o fígado ou o rim, têm vindo a configurar-se como causa cada vez mais importante de morbilidade grave e mortalidade.

No que toca concretamente à doença renal, a informação sobre doença renal avançada nas pessoas com VIH na Europa é actualmente escassa.

Assim, com o objectivo de procurar colmatar esta falha, um grupo de investigadores do EuroSIDA levou a cabo um estudo transversal de modo a determinar a prevalência e características da doença renal avançada e terminal entre os doentes com VIH na Europa, tendo para tal recolhido informação em 41 centros clínicos, que forneceram dados relativos a 62 306 doentes.

A prevalência global de doença renal avançada foi de apenas 0.46% (N=122). A maioria destes doentes (76%) encontrava-se a fazer diálise. Verificaram-se, contudo, diferenças de umas regiões para as outras, sendo que, por exemplo, a prevalência era mais elevada na Europa do norte (0.8%) do que na Europa de leste (0.13%), diferença que os investigadores referem poder ser atribuída a factores como a disponibilidade de diálise, factores de risco diferentes, “ou ser uma consequência das diferenças na sobrevivência e no acesso aos cuidados na área do VIH”.

Os doentes tinham uma idade média de 47 anos e eram maioritariamente (73%) negros. A duração média da infecção pelo VIH era de onze anos, sendo que um terço das pessoas havia já recebido o diagnóstico de SIDA.

Contudo, o controlo actual da infecção pelo VIH era bom. Quase todas as pessoas (94%) encontravam-se a fazer tratamento ARV, 88% apresentava uma carga viral inferior a 500 cópias/ml e a contagem média de células CD4 era de 341/mm3.

Verificava-se, por outro lado, uma prevalência elevada de outras patologias graves, sendo que 23 pessoas apresentavam co-infecção pelo vírus da hepatite C, 13 co-infecção pelo vírus da hepatite B, e duas as duas co-infecções em simultâneo.

A nefropatia associada ao VIH era a causa mais comum de doença renal grave, encontrando-se presente em 46% dos doentes. A prevalência desta patologia era significativamente mais elevada nos doentes negros do que nos brancos (67% vs. 22%, p  = 0.003).

A hemodiálise foi utilizada em 109 doentes (93%), sendo que destes, a maioria (75%) se encontrava a receber eritropoetina para o tratamento de anemia. Do total de doentes em diálise, trinta (34%) encontravam-se em lista de espera para transplante de rim.

Contudo, 58 doentes foram excluídos de uma eventual candidatura a transplante. Os motivos por trás desta exclusão prenderam-se em 22% dos casos com um deficiente controlo da infecção pelo VIH (traduzido por uma baixa contagem de células CD4 ou uma carga viral detectável), e em 21% com a presença de doença cardiovascular ou diabetes. Finalmente, em dois outros casos, o motivo da exclusão prendia-se com o facto de o transplante estar contra-indicado devido à infecção pelo VIH. Os investigadores sublinham que já não é assim. As guidelines internacionais, como as da British HIV Association apresentam como critérios de transplante uma contagem de células CD4 superior a 200/mm3 e uma carga viral indetectável.

Entretanto, um total de 26 doentes tinha feito um transplante renal, em 30% dos quais (8 casos) tinha havido rejeição. Para 25 desses 26 doentes, havia informação disponível referente à sobrevivência. Encontravam-se todos vivos, com uma duração média da sobrevivência pós-transplante a rondar 2.4 anos.
“Este é o primeiro estudo transversal multinacional realizado em doentes seropositivos com doença renal avançada na Europa. A prevalência global (…)foi baixa”, concluem os investigadores.

Referência

Trullas JC at al. Dialysis and renal transplantation in HIV-infected patients: a European study. J Acquir Immune Defic Syndr, online publication, August 31, 2010 (o link para o abstract e o texto podem ser encontrados aqui).

Michael Carter

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