Para psiquiatra do Rio, profissionais têm de assumir responsabilidade com dependentes na luta contra as drogas

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Luciana Nunes Leal, RIO

 

Entrevista

 

Jorge Antonio Jaber Filho: diretor científico da Associação Brasileira de Alcoolismo e Drogas

 

 

Quem é:

 

Jorge Jaber

 

 

Diretor-geral da Clínica Jorge Jaber, do Rio, que tem consultório no Leblon e unidade de atendimento comunitário na Barra

 

Psiquiatra com experiência de tratamento a dependentes químicos de baixa e alta renda

 

Pós-graduado em Dependência Química pela Harvard Medical School e integrante do Colégio Internacional de Neuropsiquiatria

 

 

 

 

 

Quando Jorge Antonio Jaber Filho optou por psiquiatria, no 3º ano de Medicina, no início dos anos 70, não se ouvia falar em crack no Brasil, muito menos no Rio de Janeiro. Trinta e cinco anos depois, o consumo dessa droga se espalha sem controle pelo País. Há oito dias, o assassinato da estudante Bárbara Calazans, de 18 anos, estrangulada pelo amigo Bruno Melo, de 26, dependente de crack, abriu os olhos de quem não conhecia, ou não queria ver, outro fenômeno: o crack é cada vez mais usado na classe média.

 

 

Estudioso de dependência química e responsável pelo tratamento de dependentes de todas as classes sociais, Jorge Jaber, de 57 anos, viu explodir o número de pacientes usuários de crack que recebe em sua clínica particular, nos últimos quatro anos. Na câmara comunitária, onde atende jovens pobres, há crianças de 10 anos dependentes das pedras feitas de cocaína misturadas a uma série de substâncias tóxicas e impuras. “É uma aberração”, diz o diretor científico da Associação Brasileira de Alcoolismo e Drogas (Abrad).

 

 

Jaber é precursor da internação involuntária no País. “O médico tem de assumir sua responsabilidade.”

 

 

Um dos temas discutidos na última semana foi a internação involuntária dos dependentes. Por que o senhor é defensor do recurso?

 

 

É preciso muito cuidado ao afirmar que não existe internação involuntária. É possível internar e a internação involuntária é feita com muito mais frequência do que se imagina.

 

 

Mesmo na rede pública?

 

 

Na rede pública, nós temos uma dificuldade grande. A política nacional antidrogas visa à repressão ao uso e à prevenção. As ações de prevenção estão voltadas para redução de danos, o que se aplica muito ao dependente de droga injetável, para evitar que a pessoa adquira HIV. Então é muito difícil conseguir internar uma pessoa dependente química na rede pública.

 

 

E na rede particular, o que fazer se o dependente químico resiste à internação?

 

 

A família pode viabilizar pelo caminho médico-judicial. A internação do paciente deve ser um ato médico. Qualquer doente, em qualquer situação, o médico tem de assumir a responsabilidade. É preciso que esteja com um sintoma grave. Não posso pegar um dependente químico que está bebendo ali na esquina ou fumando um baseado na praia e simplesmente interná-lo.

 

 

Como é o procedimento para a internação involuntária?

 

 

O paciente chega com algum descontrole e eu tenho de atestar que ele precisa ser internado. Produzo o documento, um relatório – geralmente o advogado da família é quem solicita. Ele leva a um juiz. E percebi que há uma variação entre os advogados: alguns conhecem bem, outros se enrolam, porque a internação involuntária é um assunto novo.

 

 

Os internados contra a vontade tendem a aceitar com o tempo?

 

 

Em outras doenças, você interna e ele fica internado. O dependente químico fica de três a cinco dias, oito a dez dias no caso do crack. Ele come muito, dorme muito, não presta a menor atenção no tratamento ainda. Ele chega e diz “quero ir embora”.

 

 

Acha que está curado?

 

 

E passou dois, três anos arrasado. Aí acha que está legal. Alguém diz: “Mas você vai recair”. Ele diz: “Não, que nada! Agora vou parar, doutor, juro que eu vou parar!” Eu digo: “mas você não está treinado ainda.” O paciente tem de se submeter ao tratamento, não tem jeito. Tive pacientes facínoras, bandidos, que davam medo na gente, e mudaram. Internados involuntariamente que depois pediram para ser voluntários.

 

 

Em quanto tempo a pessoa fica dependente do crack?

 

 

Em uma semana. É impressionante. Dependência física caracterizada, primeiro, pela necessidade de aumentar a quantidade da substância para atingir o mesmo objetivo. Chama-se tolerância. Segundo, pela necessidade de usar a substância para cessar o mal estar. Chama-se abstinência.

 

 

Por que o crack provoca esse efeito tão devastador?

 

 

Crack é cocaína, em uma apresentação mais deteriorada. Tem mais restos de outras moléculas e outros alcaloides. Além disso, é fumado, não é cheirado. Traqueia, brônquio e pulmão são tecidos nobres. E são agredidos por uma droga de pior composição, mais tóxica que a cocaína.

 

 

O crack provoca surto a ponto de o usuário perder a noção do que faz? O que é surtar?

 

 

É surgimento de um processo psicótico. A pessoa vê imagens, ouve vozes, às vezes as vozes mandam matar. O comportamento é estabelecido por uma cadeia de neurônios. Por isso, há uma forte evidência de que as religiões atuem, porque começam a treinar uma nova memória, de que algo grandioso pode acontecer e mudar minha vida.

 

 

Que caminho o senhor vê para reduzir o consumo do crack?

 

 

Repressão. Não sou especialista, mas tenho lido revistas científicas que demonstram que há uma eficiência na repressão à venda do produto. Também é fundamental um processo educacional de prevenção maciça.

 

 

O senhor é a favor da descriminação das drogas?

 

 

Sou favorável à descriminação. Acho um absurdo o usuário e dependente ir preso. Mas, neste momento, sou radicalmente contra a liberação. Não temos um sistema de saúde preparado para a enormidade de doentes que surgirão.

O ESTADO DE S.PAULO-SP 

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METROPOLE

 

02/NOVEMBRO/09


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Claudio Souza DJ, Bloqueiro e Escritor
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