Samu Sergipe resgata sergipano indigente no Rio de Janeiro
- Por Conceição Soares
Noite fria em Campos de Goytacazes, interior do Rio de Janeiro. O dia era 6 de novembro de 2009. Dali a instantes, exatamente a 1 hora da madrugada, A. W. S., 34 anos, sergipano e portador do vírus HIV, estaria empreendendo uma viagem de 18 horas com destino à terra natal, depois de passar três meses internado no Hospital Geral Ferreira Machado, uma unidade pública referência no tratamento de doenças infecto-parasitárias para a região Norte/Noroeste do Estado.
Na área de acesso de ambulâncias do hospital, uma viatura do Samu 192 Sergipe chamava a atenção de médicos, enfermeiros, assistentes sociais e pacientes, enquanto aguardava a chegada do doente que estava sendo preparado para a viagem pelos profissionais de saúde do Ferreira Machado e do próprio Samu. Dotada de colchão especial e com suporte de equipamentos e medicamentos, a viatura iniciou o traslado do paciente, que estava acompanhado por um técnico de enfermagem do Samu 192 Sergipe e pelo irmão, José Rodrigues Guedes (nome fictício).
Naquele momento, A. W. S. resgatava a cidadania sergipana. Embora portador de um quadro clínico muito grave, o paciente estava consciente de que voltava para casa, de que retornava para o seio de sua família. “Enquanto contemplava a cena de despedida, eu o vi nos dando adeus. Foi um momento de muita emoção, que reafirmou a nossa certeza do quanto a família é importante na recuperação de um paciente”, declarou a assistente social do Hospital Ferreira Machado, Íris Henriette Cruz de Azevedo Morigueti.
Foi a mesma certeza que moveu o secretário de Estado da Saúde, Rogério Carvalho, no momento em que autorizou a ida do Samu 192 Sergipe ao Rio de Janeiro para resgatar o paciente sergipano. A. W. S. está gravemente doente, atingido pela fase quatro da Aids e portador de outras infecções associadas, também graves.
“O que mais nos emocionou foi constatar a importância que a Secretaria de Saúde de Sergipe deu ao caso. A gente costuma ver as pessoas se sensibilizarem quando as situações envolvem crianças, mas dificilmente isso ocorre quando se trata de um adulto, ainda mais quando se é portador de um mal que é cercado de tanto preconceito, de tantos estigmas. Esta postura de Sergipe nos emocionou a todos do hospital”, reforçou a assistente social.
O esforço do resgate
Tão logo o secretário Rogério Carvalho autorizou o translado do paciente, a Superintendência do Samu 192 Sergipe iniciou os preparativos para a empreitada. “A princípio solicitamos um relatório médico do Hospital Ferreira Machado, porque precisávamos estar cientes do real quadro clínico do paciente. Assim que recebemos o documento, começamos a montar a estratégia de resgate e a elaboração da rota”, conta o superintende do Samu, José Edvaldo Santos.
O passo seguinte foi solicitar a ajuda das coordenações estaduais dos Samus que se localizavam na rota da viagem. A ideia era que os Estados do Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia e Sergipe se revezassem no transporte do paciente. A proposta não foi aceita por nenhum dos coordenadores, que argumentaram estar sobrecarregados e, portanto, sem disponibilidade de viaturas para o serviço proposto.
O Samu 192 Sergipe ainda tentou outro tipo de apoio logístico junto aos Estados vizinhos: que a viatura pudesse ser abastecida nas unidades de Samu das cidades por onde passaria. O pleito também foi negado. “Resolvemos arcar com toda a despesa e mais uma vez apelamos aos Estados vizinhos, mas desta vez para solicitar suporte médico para o paciente, caso houvesse necessidade. O pedido foi aceito”, relatou Edvaldo Santos.
Ao meio-dia do último dia quatro, uma Unidade de Suporte Básico do Samu 192 Sergipe iniciava a viagem de 22 horas com destino a Campos de Goytacazes, com dois condutores e um técnico de enfermagem, que portava um celular institucional para promover a regulação médica do paciente na viagem de volta.
Se a ida gastou um tempo de 22 horas, o retorno teria que ser feito em menor tempo. Reduzir o tempo da viagem exigia que não houvesse paradas demoradas, apenas as necessárias para alimentação da equipe. Com dois condutores em sistema de revezamento, A. W. S. chegava a Aracaju 18 horas depois de iniciado o seu retorno a Sergipe, mais precisamente às 19 horas da sexta-feira, 6 de novembro.
Todo este esforço foi recompensado. “O paciente sergipano estava em condições de sofrimento muito grande, com um quadro clínico grave, sem emprego e sem família. Restava-nos devolver-lhe a cidadania. Este foi o objetivo da Secretaria de Estado da Saúde e do Samu”, declarou Edvaldo Santos.
Mas porque não trazer o paciente a Sergipe por via aérea, o que demandaria menos tempo e menor esforço? O quadro clínico do paciente não permitiria, devido ao comprometimento do pulmão. “Para uma viagem aérea, o paciente teria que ser entubado e isso representaria um retrocesso no seu tratamento, uma vez que ele já havia superado essa fase”, informou Edvaldo Santos. Além disso, o tubo causaria grande desconforto ao paciente, o que foi desaconselhado por médicos do Hospital Ferreira Machado.
A história de A.W.S.
O cidadão A. W. S. deixou Sergipe há sete anos, pouco tempo depois de ter se separado da esposa Marília Silva (nome fictício) e os dois filhos ainda crianças. Decidiu seguir para o município carioca de Campos de Goytacazes, com a esperança de trabalhar em plataformas de petróleo. A família não sabe explicar o exato momento em que as coisas começaram a desandar para A. W. S.. Perdeu o emprego, a moradia e passou a habitar na rua, em barracos. Vez por outra telefonava para os filhos, sempre em ocasiões especiais, como datas de aniversário. As últimas ligações foram feitas a cobrar, segundo informou a ex-sobra, Célia Nanci da Cunha (nome real).
“A última vez que ele telefonou foi em fevereiro deste ano, mas falou muito pouco”, disse ela, informando que tomou conhecimento da situação de indigência do ex-genro quando recebeu um telefonema do Hospital Ferreira Machado. “Nos disseram que ele estava muito doente e que por diversas vezes quase tinha ido a óbito”, confessou, emocionada, a ex-sogra.
Diversos contatos foram mantidos pelos familiares com a unidade hospitalar. Um dos irmãos viajou ao município carioca para conferir de perto o quadro clínico de A. W. S., surpreendendo-se logo depois com os sinais de melhora que o paciente apresentou ao se dar conta da presença do irmão.
“Foi esta melhora que nos inspirou a orientar a família sobre a necessidade de ele continuar com o tratamento perto da família”, disse a assistente social, ao confessar que a princípio não acreditou, assim como os demais profissionais do hospital, que o Samu Sergipe iria resgatá-lo. “Para nós isso pareceu algo impossível, mas representou a conclusão do nosso trabalho com o paciente”, enfatizou Íris Morigueti.
Duas semanas depois do foto consumado, ou seja, feita a transferência do paciente para Sergipe, a assistente social ainda se emociona quando fala sobre o assunto. “Nós não temos este serviço no hospital. Então, quando vimos aquela ambulância, que veio de longe para resgatar um paciente que apresentava um quadro clínico em fase terminal, aquilo nos emocionou muito. Até então ninguém acreditava que isso seria possível”, concluiu Íris Morigueti, citando Charles Chapplin: “O improvável não é impossível para Deus”.
O paciente A. W. S. está internado no Hospital Universitário, onde recebe todos os cuidados necessários ao seu restabelecimento. Desde que está em Sergipe vem apresentando uma leve melhora segundo informações de familiares e, embora tenha sofrido perda neurológica, tem momentos de lucidez e por vezes se alimenta sozinho.
FAX AJU |
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24/NOVEMBRO/09 |
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