De acordo com um estudo nos EUA apresentado na 17a Conferência sobre Retrovírus e Infecções Oportunistas (CROI), na semana passada em São Francisco, o vírus da hepatite C (VHC) pode ainda ser transmissível através de seringas muito após o seu primeiro uso. Seringas maiores e uma temperatura ambiente mais fria foram associadas a uma maior sobrevivência, até dois meses.

Enquanto as medidas de redução de riscos, tais como os programas de troca de seringas, reduziram dramaticamente as novas infecções pelo VIH entre UDIs, estas tiveram um impacto menor na hepatite C. Além disso, a transmissão do VHC ocorre com uma frequência dez vezes superior à transmissão de VIH através de uma picada acidental com uma agulha infectada.
Elijah Paintsil e colegas de Escola de Yale de Medicina em Connecticut desenharam um estudo para testar a hipótese que de que esta grande probabilidade de infecção possa ser devida à sobrevivência mais longa do VHC.
Os investigadores desenvolveram um novo teste de laboratório para avaliar a viabilidade do VHC em seringas com sangue residual. Uma vez que o VHC é retirado directamente de indivíduos infectados e não pode ser cultivado em laboratório, foi utilizado um genótipo 2a especial do vírus, que pode sobreviver em culturas de células.
Os investigadores prepararam primeiro as seringas ao encherem-nas com sangue infectado pelo VHC. Observaram então dois tipos de seringas e volumes de sangue: uma seringa de insulina de baixo volume com uma agulha permanentemente atarraxada, cheia com 2 µL de sangue, e uma seringa de maior volume, com uma agulha descartável, cheia de 32 µL de sangue. Os indivíduos que injectam hormonas -por exemplo, indivíduos transgéneros ou culturistas – geralmente utilizam seringas maiores.
Algumas das seringas foram testadas imediatamente e outras foram armazenadas por períodos abrangendo dois meses. As seringas foram armazenadas em três temperaturas diferentes: 4ºC (semelhante a um frigorífico normal), 22ºC (temperatura normal num clima temperado) e 37ºC (temperatura corporal ou clima muito quente). As seringas foram então esvaziadas e o vírus recuperado foi testado para detectar a infecciosidade em culturas celulares.
Os investigadores concluíram que as culturas celulares demonstraram níveis variados de infecciosidade do VHC. Observando a proporção de seringas que continham o vírus em estado infeccioso nas seringas de baixo volume, a probabilidade de se encontrar o vírus infeccioso desceu rapidamente a 37ºC, e nenhuma continha o vírus ainda viável após um dia de armazenamento.
A 22ºC um terço das seringas ainda continha o vírus em estado infeccioso no primeiro dia, mas ao fim de três dias nenhuma. A 4ºC, o VHC em estado viável encontrou-se em dois terços das seringas ao fim do primeiro dia, em cerca de um quarto ao terceiro dia e em cerca de 5% ao sétimo dia.
O padrão não foi tão consistente nas seringas de maior volume. Na temperatura mais baixa, quase todas as seringas continham VHC em estado viável ao sétimo dia, cerca de metade tinha ainda o vírus ao fim de 35 dias, e uma pequena proporção tinham ao 63º dia (nove semanas).
O número de seringas contendo o vírus em estado infeccioso inicialmente diminuiu mais rapidamente nas duas temperaturas mais elevadas, mas depois estabilizou. À temperatura ambiente, cerca de 70% continha ainda a forma viável do VHC e cerca de 40% ainda continha o vírus ao 35º dia. A 37ºC, a proporção era pouco superior a 50% ao sétimo dia e apenas ligeiramente inferior ao 35º dia. Mais uma vez, uma pequena proporção ainda continha VHC viável após 63 dias.
Voltando à quantidade de VHC viável, nas seringas pequenas, a quantidade de vírus nas seringas, demonstrou uma taxa bi-fásica de deterioração, com um declínio inicialmente rápido seguido de uma descida mais lenta. Mais uma vez, a quantidade do vírus variou de acordo com a temperatura. O VHC infeccioso desceu para um nível indetectável entre os dias dois e três a 37ºC, e no terceiro dia a 22ºC; No entanto, a 4ºC, uma pequena quantidade permaneceu até ao sétimo dia.
Nas seringas de maior volume, os níveis viáveis do vírus desceram até ao sétimo dia sob as duas temperaturas mais elevadas e cerca de duas vezes mais a 4ºC. Os níveis então permaneceram baixos mas estáveis durante o resto do tempo do estudo a todas as temperaturas.
Os investigadores concluíram que a sobrevivência do VHC infeccioso depende do tipo e tamanho da seringa, sendo que as seringas de agulhas descartáveis e de grandes volumes tinham mais probabilidade de transmitir o vírus. Além disso, as temperaturas baixas preservaram o VHC viável em seringas de baixo volume mais do que as de grande volume.
Comparando com o VIH, concluíram que o VHC e o VIH em seringas de pequeno volume demonstram uma evolução temporal semelhante, mas o VHC parece sobreviver mais tempo do que o VIH em seringas de volumes maiores.
Discursando numa conferência de imprensa, o Dr. Paintsil afirmou que estas conclusões têm implicações para os esforços de redução de riscos, sugerindo que é provavelmente aconselhável que os programas de trocas de seringas forneçam seringas de insulina em vez das outras maiores. No entanto, ele enfatizou, “o cerne da questão é não reutilizar seringas”, e os programas devem fornecer em número suficiente de modo a que os utilizadores não tenham de as partilhar.
Em resposta a uma questão, afirmou que devem ser feitos mais estudos para determinar se a transmissão do VHC através do consumo de drogas injectáveis varia entre climas quentes e frios, ou entre o verão e o inverno.
Referência
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