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Jornal do Commercio – PE |
Editoria: | Pág. |
Dia / Mês/Ano: |
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Artigo |
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23/NOVEMBRO/07 |
23/11/2007
Amaury Medeiros
amamed@hotmail.com
Li o excelente e oportuno artigo escrito por Marcílio José Bezerra Cunha, professor universitário e consultor de lógica, publicado recentemente no Jornal do Commercio, setor Opinião. Dá-nos as boas novas de que a Transnordestina começa a sair do papel (já era tempo…) e que Pernambuco voltará a usar a malha ferroviária. Que Deus te ouça, prezado Marcílio, e que estejamos às vésperas de notícias alvissareiras com o descortinar de novos horizontes econômicos para Pernambuco e todo o Nordeste. Que se aumentem as bitolas dos trilhos, que se encham os vagões de toneladas e mais toneladas de soja, ou de quaisquer que sejam os produtos cultivados ou extraídos. Que festejem os portos de Suape e Pecém. Nada mais justo. É grande motivo de regozijo.
Hora já se foi de também pensarmos e exigirmos os trens de passageiros. Que não nos mova tão apenas o bucolismo e a conforto das viagens. Faz bem ao espírito só imaginarmos no cruzar de trem esse imenso Brasil apreciando o descortinar de belas paisagens. Do céu azul que nos cobre num imenso abraço, desprendem-se os raios solares que aquecem e iluminam caminhos. "Não mais será a Maria Fumaça levando do nosso chão, fardos de branco algodão" (tudo passa, tudo passa…) no dizer do poeta. Seriam vagões mais luxuosos e seguros, deslizando suavemente – do tipo dos Pullman de antigamente – cortando veredas num ritmo mais acelerado. Venha comigo e refestele-se na poltrona do carro restaurante. O cheiro forte do café recém-passado entrando pelas narinas e saindo pelas janelas. Uma garçonete de lábios carnudos, de falar manso e gestos educados, servindo o café da manhã. Pão quentinho, papa de aveia, ovos estrelados. Uma xícara de café fumegante nos aguça o apetite.
Um apito estridente rompe o silêncio da reflexão matinal. Vêm-nos à memória as cenas da infância: o rio correndo na voz cantante de suas águas, montanhas de peitos empinados que se oferecem ao longe, crianças descalças e quase desnudas que se perdem no verdejar das campinas, cavalos fugindo em galope aligeirado e pássaros coloridos que nos espreitam de relance dos galhos das árvores.
Ponho de lado os pratos já servidos e, cotovelo esquerdo repousado na mesa e queixo apoiado na mão espalmada, abro o jornal e leio as últimas noticias. O futebol pernambucano na mesma situação de sempre: os que estão de cima lutando para não descer e o que se encontra mais abaixo tentando escapar da terceirona. Quando o Nordeste conseguirá independência esportiva e econômica? Que venham outros Suapes, outras ferrovias. Que entrelacem todo o corpo nordestino, para que possamos sonhar com um processo de ressurgência. Vejo as páginas política e policial na ligeireza contumaz da folhagem fria e trêmula que se desprende na aragem malsã. As notícias internacionais pouco mudam: bombas que explodem em locais inusitados matando inocentes, petróleo que atinge preços estratosféricos, o dólar baixando e a gasolina nada de baixar, Aids grassando na África – inacreditável que ainda tem gente contra o uso da camisinha! – e a rica cultura mesopotâmica jogada no Rio Eufrates, com sangue e lágrimas.
Ao virar a última página sinto um golpe em meu egoístico conforto ferroviário: enquanto me refestelo nesse confortável assento, a manchete me perturba: "Cresce o número de mortes em rodovias." Detalhe: da 0h quinta à meia-noite de domingo, 104 pessoas morrem em acidentes nas estradas federais de todo o País. O número é 13% maior que o registrado no último feriado prolongado de outubro.
Fecho o jornal e, pensativo, interrogo-me: existe coisa mais importante que a própria vida? Quantas mortes poderiam ter sido evitadas ao longo dos decênios – e quantas seriam num amanhã que se prenuncia tenebroso – se dispuséssemos de eficiente malha ferroviária para passageiros? Se não temos recursos para tanto, por que não entregamos o empreendimento às empresas privadas de comprovada competência?
PS – Agradeço ao Alberto Oliveira pelo belo poema sobre o Trem de Ferro, da coleção Os silenciados.
Amaury Medeiros, médico, é membro da Academia Pernambucana de Letras.
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