Vários países já aceitam a utilização controlada e comercializam medicamentos com princípio ativo; uso, no entanto, depende de prescrição médica
Elisaldo Carlini, Diretor do Cebrid
Os efeitos do consumo da maconha (Cannabis sativa) são conhecidos. Agora, uma proposta tem causado tanta polêmica como a liberação da droga: o uso medicinal. Países como Estados Unidos, Canadá, França, Itália, Holanda, entre outros, já prescrevem a erva para aliviar sintomas de doenças graves, como AIDS e esclerose múltipla.
No Brasil a discussão está avançada. Em maio foi realizado o Simpósio Internacional: Por uma Agência Brasileira da Cannabis Medicinal?, organizado pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), em São Paulo.
Elisaldo Carlini, professor titular de psicofarmacologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e diretor do Cebrid, ressalta que pesquisas indicaram que não há contraindicações para a utilização da Canabis sativa para tratamento de doenças. Mas faz uma ressalva: “”Legalização, permitir o livre comércio para uso recreativo, não é pauta discutida agora.””
Em quais casos o uso medicinal da maconha é recomendado?
Um deles é no alívio de náusea e vômito, causados pela quimioterapia do câncer. Este é o primeiro caso aprovado na Alemanha, Inglaterra, França, Holanda, Itália, Espanha e Estados Unidos. O segundo uso é em casos de doença depauperantes. A pessoa não consegue comer, geralmente em estados terminais, como na AIDS. O terceiro uso aprovado é para dores miopáticas (nas fibras musculares) e neuropáticas. Não é uma dor reativa, como de uma queimadura. São dores com espasmos musculares, a pessoa sofre muito para se movimentar, como na esclerose múltipla.
De que maneira a droga pode ser administrada?
Em vários países o uso medicinal é do THC (tetrahidrocarbinol, princípio ativo da maconha), produzido por um laboratório americano. É chamado Marinol e é vendido nos Estados Unidos e exportado. Um produto que acabou de ser licenciado se chama Sativex. É um extrato de maconha, de duas cepas diferentes. Uma delas tem mais THC e a outra tem mais canabidiol (componente da planta). Este extrato é administrado pela boca, como naquelas bombinhas para asma e é vendido no Reino Unido e exportado para mais de 20 países.
Outra opção é o cultivo da própria planta sob condições adequadas e com controle de qualidade, feito pelo Ministério da Saúde da Holanda. Se chama Bedrocan e é vendida nas farmácias, com receita médica. Pode ser fumada ou inalada. No Canadá, o Nabilone, um canabinóide sintético, é vendido em forma de cápsulas gelatinosas sob o nome de Cezamet.
Os críticos dizem que para essas doenças existem alternativas. Qual a vantagem da maconha sobre os outros medicamentos?
Não há remédio 100% eficente. Sempre é importante ter outras opções. A maconha, para uso médico, tem provocado poucos efeitos adversos e às vezes é vantajosa em relação a outros medicamentos.
Há quanto tempo é feito o uso médico da maconha?
No século 19 a maconha era considerada uma divindade da neurologia para dores de fundo neurológico. Mas há registros de uso medicinal da maconha há 5 mil anos. Só pegando o momento que a medicina adquiriu a atual forma, que foi a partir do século 19, a maconha foi muitíssimo utilizada em toda a Europa. Tenho um livro de 1888, que era meu avô, que se formou em medicina em 1901, que contém uma receita médica da maconha para tratar asma.
Não há efeitos colaterais?
Não há descrições acentuadas sobre isso. Uma ONG americana muito séria solicitou ao FDA (órgão que libera uso de medicamentos nos Estados Unidos) que informasse durante cinco anos todos os casos de morte regitrados por decorrência do uso terapêutico da maconha, comparando com 17 medicamentos aprovados nos Estados Unidos. O FDA informou que não encontrou nenhum caso de morte com a maconha. Das 17 drogas aprovadas e recomendadas, houve mais de 10 mil mortes nesses cinco anos.
A própria ONU (Organização das Nações Unidas) tem uma declaração dizendo que se um Estado quiser plantar maconha para fins médicos, precisa ter uma licença do Ministério da Saúde do país. Há uma lei que determina que se houver interesse médico de se plantar maconha no Brasil, o Ministério pode conceder uma licença, desde que sejam obedecidos todos os controles necessários para um plantio dessa ordem.
O uso medicinal deve ocorrer de acordo com prescrição médica, para não haver abuso. O médico tem que prescrever em dose correta e tem que fazer um diagnóstico para saber se o tratamento com maconha é apropriado para a doença específica.
O Brasil está pronto para a aprovação do uso desse tipo de medicamento?
O problema da violência tem mais a ver com o tráfico do que com a própria droga. Não há prova científica de que a maconha induza à violência. Existe no Brasil duas correntes. Uma diz que a maconha é “”erva do diabo”” e não reconhece os argumentos que eu falei, sendo que há centenas de livros científicos publicados no mundo inteiro. É uma briga mais ideológica, emocional, do que científica.
Outra, que está cada vez mais ganhando espaço, é a visão de que o Ministério da Saúde precisa aprovar a maconha para uso médico. Falar em uso recreativo é confundir as coisas. Legalização, permitir o livre comércio, não é pauta discutida agora. Tudo que abordei é sobre o uso medicinal.
Qual foi o resultado do simpósio realizado em maio em São Paulo para discutir o uso medicinal da maconha?
Estiveram mais de 100 pessoas presentes, inclusive do Ministério da Saúde, do Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas, de várias sociedades científicas. Por unanimidade assinaram a carta compromisso de que o Brasil tem que permitir o uso medicinal. O Ministério da Saúde deve então tomar providências para iniciar a parte burocrática.
Érika Gonçalves
Reportagem Local
FOLHA DE LONDRINA – PR | OPINIÃO
Apresentação de Slides por Karine Souza
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