Cerca de 2% da população mundial sofrem com o vitiligo, um mal marcado pela ausência de pigmentação em partes da pele. Consequências psicológicas e sociais atormentam os atingidos
Paloma Oliveto
Começou com uma pequena mancha no joelho. O suficiente para deixar a dona de casa Sílvia Colen, 36 anos, em desespero. Desde que os filhos eram bebês, ela olhava minuciosamente a pele dos dois, à procura de um distúrbio que já conhecia bem: o vitiligo. “Como tinha casos na família, sempre me preocupei. Quando o Kevyn tinha 9 anos, apareceram as manchas do tamanho de uma maçã pequena. Depois, passaram para a barriga e o cotovelo”, relata.
Embora não seja uma doença, já que não provoca males à saúde, o vitiligo tem várias consequências psicológicas e sociais. Há um grande preconceito em torno do problema, coisa que o pequeno Kevyn sentiu intensamente na escola. “Tinha gente que nem queria chegar perto dele. Vitiligo não pega, mas as pessoas são muito ignorantes e criança fala o que quer. Dei sorte porque ele não teve no rosto”, conta Sílvia. Por causa dos comentários dos coleguinhas, Kevyn parou de usar short. Fazia educação física de calças. “Procurei um psicólogo e pedi orientação. Ele me ensinou que não tem como tapar a boca dos outros, mas fazer a criança entender a realidade”, explica a mãe do menino.
Assim como Kevyn, 2% da população mundial sofre com esse tipo de dermatite, que continua sendo um mistério para os médicos. “Não se sabe o motivo exato. Pode ser que tenha alguma associação com doenças como diabetes e tireoidite de Hashimoto”, diz o dermatologista Ricardo Fenelon. O médico Cesar Cuono, especialista da Sociedade Brasileira de Dermatologia, explica que o vitiligo é um mal autoimune – o próprio organismo impede a produção de pigmentação por parte dos melanócitos – e de características genéticas. “A pessoa já tem a predisposição nos genes, mas não necessariamente vai desenvolver o vitiligo. Assim como, de um dia para o outro, as manchas podem começar a aparecer”, diz.
O médico esclarece que, embora não se saiba por que a dermatite se manifesta, traumas físicos e emocionais agem como gatilho, desencadeando o aparecimento das manchas, que, na realidade, não possuem cor e parecem brancas por causa do contraste com a pigmentação do restante da pele. A alteração também está ligada a fatores psicológicos. “Um trauma emocional pode desencadear ou piorar o estágio”, diz o dermatologista Roberto Azambuja, do Hospital Universitário da UnB.
Para Sílvia Colen, foi o estresse que provocou o aparecimento das manchas em Kevyn. “Na época, eu perdi o emprego e tivemos uma queda no padrão de vida. Acho que ele ficou afetado com isso”, diz. Da mesma forma, o otimismo do menino, acredita a mãe, foi determinante na melhora. Depois de oito meses de tratamento, quando as manchas se restringiram ao joelho, Kevyn, hoje com 12 anos, voltou a apresentar os sintomas. Um dia, viu um apresentador de televisão falar sobre cura pela fé e resolveu rezar. “Naquela inocência de criança, ele teve certeza que ia sarar. A partir daí, as manchas diminuíram de novo e hoje ele até já usa bermuda”, comemora Sílvia.
Tratamento
Como o vitiligo é uma alteração que se manifesta de formas diferentes em cada pessoa, não existe um único tratamento nem se pode esperar deles 100% de melhora. De acordo com Roberto Azambuja, todos os métodos disponíveis hoje em dia são altamente eficazes. “Não existe um tratamento melhor, o que vai variar é a receptividade do organismo ao método”, diz.
O dermatologista Cesar Cuono conta que, geralmente, o vitiligo é tratado com corticoides, que combatem o processo inflamatório. Porém, ressalta que, em grandes doses, eles podem provocar alterações cardíacas, aumento da pressão arterial, erupções e estrias. “Hoje, no lugar da cortisona, podemos usar imunossupressores anti-inflamatórios, desenvolvidos inicialmente para dermatites atópicas”, diz. Já Ricardo Fenelon aposta também em aplicação de raios ultravioletas B de banda estreita, que estimulam a pigmentação da pele e diminuem o bloqueio à produção dos melanócitos.
Fenelon recomenda, para evitar aumentos nas manchas e disseminação do vitiligo, que, na dúvida, o médico opte sempre pelo tratamento. Isso porque, nos estágios iniciais, a alteração pode ser confundida com outros tipos de manchas, atrapalhando o diagnóstico. “Além disso, é preciso proteger muito a pele com filtro solar e roupas”, diz.
Segundo o dermatologista Gilvan Alves, uma das técnicas mais modernas e que têm apresentado bons resultados é o laser Eximer. “São necessárias mais ou menos 12 sessões e, depois de três ou quatro meses, a pessoa pode fazer novamente para melhorar o aspecto. A máquina tende a pigmentar novamente a área.” Ele diz que não há contraindicações, e que o laser pode ser usado em qualquer parte do corpo.
Vitiligo não pega, mas as pessoas são muito ignorantes e criança fala o que quer. Dei sorte porque ele não teve no rosto”
Sílvia Colen, mãe de Kevyn
Desafio à autoestima
Embora não cause dores físicas, o vitiligo impinge grande sofrimento às pessoas. De acordo com um estudo publicado pelos dermatologistas Lucas Nogueira, Pedro Zancanaro e Roberto Azambuja, 75% dos pacientes costumam se autodepreciar e 80% queixam-se de passarem por emoções desagradáveis, como medo de que as manchas se espalhem (71%), vergonha (57%), insegurança (55%), tristeza (55%) e inibição (53%). Para chegar a essas conclusões, os médicos acompanharam 100 pacientes com diversas formas da doença e aplicaram um questionário.
“O vitiligo afeta o paciente de maneira arrasadora e atinge também os familiares. A manifestação mais clara é o comparecimento de toda a família à consulta, quando se trata de vitiligo numa criança, o que mostra que os pais estão particularmente ansiosos”, diz o estudo. “Apesar disso, os médicos, em geral, não dão atenção ao aspecto mais grave do vitiligo, atendo-se a procedimentos terapêuticos, quando não desestimulando o paciente de tratar-se com a afirmação de que é ‘apenas’ estético”, alerta.
“Certamente, doenças como a psoríase, a AIDS, o diabetes e o vitiligo representam um desafio à autoestima de qualquer indivíduo, mas, entre elas, o vitiligo é, sem sombra de dúvida, a mais misteriosa para todos os que lidam com ela”, dizem os médicos. O dermatologista do Hospital Universitário de Brasília Roberto Azambuja, um dos autores do estudo, diz que o próprio paciente se discrimina. “Dependendo da localização (das manchas), ele evita ir a certos lugares onde estará mais exposto. Se a pessoa estiver muito afetada emocionalmente ou tiver um estilo de vida ansioso, é absolutamente necessário fazer terapia”, diz.
Sofrimento
A mesma opinião tem a psicóloga Anita Del Grande, 24 anos, de São Paulo. Ela entende bem do assunto, já que, desde a adolescência, sofre de vitiligo. As manchas começaram a aparecer ao redor das unhas. Hoje, estão nas axilas, mãos, virilha e rosto. Anita conta que sofreu muito. “As pessoas que desconhecem o assunto costumam ser bastante preconceituosas. Muitas olham com cara de desprezo, outras se afastam como se fosse uma doença contagiosa. Os sentimentos são diversos”, diz.
Há um ano, decidiu parar de sofrer. “Eu resolvi ser feliz e me aceitar como sou. Não me acho inferior às outras pessoas, sou apenas diferente. Sei que, em muitos casos, as pessoas não sabem lidar com a diferença, pois ela assusta, mas já não sofro porque tem alguém me olhando e se perguntando por que eu tenho tantas manchas”, conta. Para quem sofre do problema, ela enumera os conselhos: “Jamais podemos deixar de ser feliz por medo, vergonha, sentimento de inferioridade. Nós somos pessoas normais e merecemos ir à academia, ao clube, à praia. Jamais devemos deixar de fazer algo que nos agrada. O vitiligo não é empecilho para nada nesta vida”. (PO)
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14/Setembro/09 |
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