Ação para reduzir os danos

JORNAL DE BRASILIA – DF | CIDADES

DOENÇAS SEXUALMENTE TRANSMISSIVEIS

11/07/2010

Programa distribui seringas, protetores labiais e cachimbos para usuários

Da Redação

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) revelam que 70% dos viciados em drogas não conseguem abandonar o vício. Baseada nisso, há dez anos a Secretaria de Saúde do Distrito Federal fundou o Programa de Redução de Danos, que, entre suas ações, desenvolve um trabalho considerado polêmico por alguns brasilienses. Para evitar o contágio de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTS) são distribuídos gratuitamente seringas, cachimbos e protetores labiais para usuários de drogas.

O programa, porém, tem sido alvo de intensos debates. O questionamento é se, realmente, a ação diminui os danos sociais ou se incentiva o consumo de drogas. A estudante Ana Clara Medeiros Araújo, de 20 anos, se mostra dividida. “Por um lado, acho que a ação é válida para os usuários e para a sociedade, porque usuários também se relacionam com outras pessoas. Então, de fato, evita a transmissão de DSTS“, opina a estudante. “Mas tenho que admitir que a ideia de que parte dos meus impostos é destinada à compra de seringas, cachimbos e protetores labiais para usuários de drogas não me agrada”, confessa.

Preocupada com a interpretação do programa, a psicóloga que co-ordena as ações, Aline de Melo Soares, explica que reduzir danos é reconhecer o uso. “O uso de drogas pelo homem se confunde com a história da humanidade. Há registros da prática desde cinco mil anos. É ingenuidade pensar que vamos conseguir livrar 100% dos usuários do vício”, argumenta. “A cada grupo de dez usuários, apenas três abandonam o vício. Quatro dos outros sete não conseguem, e três simplesmente não querem parar. Mas nem por isso a saúde pública deve marginalizá-los. Temos que mostrar que eles têm direito à saúde como qualquer outra pessoa”, justifica.

2,5 mil assistidos

Mensalmente, a equipe de redutores de danos do DF, formada por 11 pessoas que têm acesso aos grupos de usuários de drogas espalhados pela região, visitam 45 áreas, que eles chamam de campos, e fazem contato com cerca de 2,5 mil usuários. Eles distribuem o material, dão conselhos sobre pontos para injetar a droga de modo a evitar overdose e também dicas para evitar os efeitos colaterais, como a garganta seca para fumantes de merla e crack. Além disso, os redutores de danos distribuem panfletos e incentivam os usuários a procurarem ajuda para abandonar o vício.

Para a professora de Psicologia, especialista em dependência química da Universidade de Brasília, Josenir Alves de Oliveira, a prática de distribuir material para que o usuário se drogue com menos riscos faz com que o viciado se sinta mais acolhido. “Para a população, o programa pode parecer um absurdo, mas é uma forma de resgatar os usuários, e, eventual- mente, alguns são resgatados”, afirma a psicóloga. “Orientá-los dessa maneira e mostrar que o governo se importa com a saúde deles desperta nos usuários o interesse em cuidar da própria saúde”, argumenta.

Já a pedagoga Ridette de Melo acredita que o trabalho teria melhores resultados se fosse realizado em parceria com a Secretaria da Educação. “Mudar a realidade de usuários de drogas não envolve apenas a área de saúde, mas também o âmbito educacional”, opina a pedagoga.

“Mostrar para os usuários que eles podem ter uma vida diferente quando incentivados a estudar é um estímulo para que consigam largar o vício. Assim, eles podem colocar no cenário de seus futuros não a imagem de uma vida marcada pela destruição causada pelas drogas, mas sim a visão de um futuro digno com uma carreira que permita praticar seus conhecimentos e talentos”, afirma Ridette.

ENQUETE

Entregar material descartável para usuários de drogas incentiva o consumo ou diminui danos?

“É um problema que não pode ser ignorado. Acho que a prática incentiva o consumo, mas também evita a transmissão. Se não ajuda, previne outro problema”

Larissa Gomes, 20 anos, estudante

“É uma boa ação. Usuários de drogas também têm direito à saúde, e essa prática diminui danos tanto para eles quanto para a sociedade”

Clóvis do Nascimento e Santos, 46 anos, comerciante

“Há uma contradição. A droga não é legal, mas o governo dá material para que eles se droguem com segurança.Que crédito têm as normas então?”

Maria Aparecida Ferreira, 23 anos, estagiária

“A verba deveria ser utilizada em métodos mais eficazes. A prática incentiva o consumo, deixa o material mais acessível. Se é assim, por que não construir vias só pra bêbados?”

Leandro Ambrósio, 32 anos, biólogo

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