Há Vida Com HIV

veja! Há vida com HIV

Contagem de CD4 abaixo de 500 Ou Carga Viral detectável E COVID-19

Tenha certeza, minha leitora inteligente, meu leitor barrigudo, HIV/AIDS são morbidades. E, associadas ao COVID-19, são comorbidades. Não aceite eufemismos

Bem, antes de seguir com o texto, preciso estabelecer um aspecto disso, algo que tem me incomodado mais do que, em tese, seria “lícito” me incomodar. Porque, conforme subentendi, para este indivíduo, a infecção por HIV, ou a AIDS, não constituem “morbidades”.

Talvez ele tenha razão, mas, para me convencer disso, ele terá de me explicar o que matou quase quarenta milhões de pessoas em quase quarenta anos, tendo em vista que, segundo ele. HIV/AIDS nada têm de mórbidos.

Contagem de CD4 abaixo de 500 é sempre um problema. Uma destas revistas estúpidas escreveu, 15 anos atrás que, a contagem de CD4 abaixo de 500 era “o começo do fim”. Bem, vi gente com contagens de CD4 abaixo de dez que, hoje, são membros ativos e produtivos desta sociedade em que 1/3 das pessoas ditas “normais” se recusariam a trabalhar ao lado de “uma pessoa assim”.

Assim como Diabos? E tem patetas que dizem: Morte social não existe.

Contagem de CD4 abaixo de 500
O que não falta é idiota banalizando a AIDS assim. Note, no entanto, que, pela fala dele, fica bem claro que, na época, o demente não tinha HIV

Contagem de CD4 abaixo de 500 ou carga viral detectável aumenta o risco de COVID-19 grave.

Tenho visto a chamada de uma matéria, que não li para não passar nervoso, onde a pessoa diz que ter HIV e COVID não é “algo assim”, que o perigo são as comorbidades.

Bem, antes de seguir com o texto, preciso estabelecer um aspecto disso, algo que tem me incomodado mais do que, em tese, seria “lícito” me incomodar. Porque, conforme subentendi, para este indivíduo, a infecção por HIV, ou a AIDS, não constituem “morbidades”.

Talvez ele tenha razão, mas, para me convencer disso, ele terá de me explicar o que matou quase quarenta milhões de pessoas em quase quarenta anos, tendo em vista que, segundo ele. HIV/AIDS nada têm de mórbidos.

Gente, eu poderia fazer a lista dos túmulos diante dos quais me ajoelhei e chorei por perder, não para a morte, mas para estas “não-morbidades”  ao longo de anos de chumbo, em minha vida para, mais tarde, ver o cinismo de uma pessoa pedindo desculpas por não ter conhecimento de tanto sofrimento. No dia infeliz em que vi aquele video eu quebrei a tela de um monitor, por socar a tela exatamente onde via aquela pessoa me dizendo aquilo e, plus ultra, sendo aplaudida.

Pesquisa De Cura De HIV Com Novas Abordagens

Veja, eu não sou uma pessoa muito complicada. Basta usar o cérebro, pensar e me entender. Veja a heresia que direi aqui. A palavra “aidético” não me incomoda. Sabem porquê? Pois palavra nenhuma pode ter um peso maior do que aquele que se atribui a ela.

Você me dá o nome de aidético?

Ótimo, pois sou o aidético que tem mantido, quase que sem ajuda, este “blog”, por vinte e um anos que é, em alguns casos, mais do que a vida inteira de muitas pessoas que, bem agora, me leem e me detestam (pick a number).

Indo além, um jornalista, muito meu amigo, Laete Braga, que já deixou este mundo, Laerte Braga, definiu a sociedade da década de 2011 a 2020 como a sociedade do espetáculo. Basta pensar em “pau-de-selfie”. Não discordei dele, mas respondi assim para ele:

 

— “Amigo, também é a sociedade do eufemismo”! Esta mania de procurar palavras “menos desagradáveis” para dizer as mesmas coisas, ou mesmo negar que certas coisas são problemas, tende a conduzir exatamente a estes problemas. Alguns exemplos:

 

 

Doenças Sexualmente Transmissíves i Infecções Eufemicamente Transmissíveis

 

Publiquei no Instagram algo e falei em “Doenças Sexualmente Transmissíveis”. Recebi um “nossa, é IST, infecções sexualmente transmissíveis” que se diz agora. Era, digamos assim, uma bola alta que há muito esperava e rebati de voleio. Vamos lá

 

Chato (pediculose pubiana) é Infecção? É uma infestação e parasitose. Bem, se você fizer uma curta viagem, duas ou três horas, a partir de São Paulo, você certamente encontrará a pessoa que ouviu nem sequer  falar em doenças sexualmente transmissíveis.

Para ele é “doença venérea”, ligada, sim, à nossa “boa Vênus”, deusa do amor, em algumas culturas. A mensagem precisa chegar e, por favor, el não pode, de forma alguma, chegar criptografada ou academizada. O acadamês exclui; e exclui, em geral, quem mais necessita da mensagem clara e esclarecedora.

Se você falar em verrugas genitais, ou HPV, é bem provável que a pessoa entre sem saber e saia sem entender. Tive, eu mesmo, com 15 anos (comecei cedo e bem mal) uma crise destas de HPV e, quando pedi explicações ao pai de um amigo ele disse:

Doença Ruim

— “Isso é doença ruim”! Você tem de ir ao médico.   —— “Doença Ruim”.

Esta introdução, bem mal-azada, se justifica por causa desta coisa de comorbidades e COVID.

HIV/AIDS, de certa forma, a depender da contagem de células CD4, ou da carga viral, a depender da pessoa estar, ou não, se ela sabe, ou não, que porta HIV ou até mesmo que é um caso de AIDS, associada a uma infecção por COVID-19 é uma situação de risco de vida. Não! O risco é de morte. E foi bem por isso que, mais de duas da manhã, ao encontrar o texto que segue abaixo, decidi-me, apesar da atrocidade das dores que a polineuropatia me provocam, traduzir e publicar, pois a mensagem, leitores amigos e aqueles outros, adocicados, precisa chegar. E precisa chegar clara e rápida.

Mormente tudo isso, quero reiterar uma coisa:

 

Contagem de CD4 abaixo de 500
Já esteve pior. Agora, está bem melhor! Quase inútil, dói tanto que pensei em amputar. Seria uma grande covardia, né?

Sim, há vida com HIV. Mas isso não é normal. Ter HIV, ou AIDS, significa estar doente, ou você não precisaria tomar antirretrovirais. Eu os tomo, apesar de star encarcerado em um corpo que, de uns tempos para cá decidiu-se por me torturar, porque amo Mara, amo minha vida, amo este mundo e, creio, ainda posso fazer algo por ele.

E aqui estou, com minhas mãos e pés em frangalhos, sem conseguir encontrar um só centímetro quadrado de meu corpo que não doa. Mas, se é assim que deus deseja, que assim seja. Mesmo porque, em minha mocidade, abusei, descaradamente, da fragilidade de muitos corações femininos.

 

 

 

 

Sic Transit Gloria Mundum

 

Um estudo nos EUA descobriu que pessoas com HIV que tinham contagens de CD4 abaixo de 500, ou carga viral detectável, tinham um risco muito maior de hospitalização com COVID-19 em comparação com pessoas com contagens de CD4 mais altas ou carga viral suprimida.

O grande estudo, realizado por pesquisadores da Escola de Saúde Pública Bloomberg da Universidade Johns Hopkins, atualiza as descobertas apresentadas na Conferência sobre Retrovírus e Infecções Oportunistas em março de 2021. Recolheu dados sobre um grupo maior de pessoas com VIH do que a análise anterior durante um período mais longo e analisou o risco de resultados COVID-19 graves pela carga viral do VIH e contagem de CD4.

Os resultados foram disponibilizados como uma pré-impressão e ainda não foram revisados ​​por pares.

 

A população do estudo consistia em 1.446.913 adultos com diagnóstico de SARS-CoV-2 confirmado em laboratório entre 1º de janeiro de 2020 e 21 de maio de 2021 em hospitais nos Estados Unidos que participam do National COVID Cohort Collaborative Consortium. A maioria dos sites participantes são grandes centros médicos acadêmicos.

Dessa população, 8.270 viviam com HIV, 11.392 haviam sido submetidos a transplante de órgão sólido e 267 eram pessoas com HIV que realizaram transplante de órgão sólido.

Pessoas vivendo com HIV com diagnóstico de COVID-19 tinham uma idade mediana de 50 anos, 72,5% eram do sexo masculino, 43% eram brancos, dos quais 8% eram hispânicos, 33% eram negros e 23% eram de outras etnias. Onze por cento tinham três ou mais comorbidades e 12% tinham duas comorbidades.

Os dados de contagem de CD4 no ano anterior estavam disponíveis para 3.574 pessoas com HIV (43%). Destes, 61% tinham uma contagem de CD4 acima de 500, 16% entre 350 e 500 e 22% abaixo de 350. Dados de carga viral no ano anterior estavam disponíveis para 1.407 (17%). Destes, dois terços (67,5%) apresentavam carga viral abaixo de 50 cópias / ml, 20% entre 50 e 1.000 cópias / ml e 11% acima de 1.000 cópias / ml.

A Mulher, como sempre, maior vítima do sistema

Pessoas que se submeteram a transplantes de órgãos sólidos eram mais velhas (idade média de 57 anos), menos probabilidade de serem homens (40% eram mulheres), mais frequentemente eram brancos não hispânicos (48%) e tinham uma carga maior de comorbidades (44% tinham três ou mais, 21% tinham dois) em comparação com pessoas sem HIV ou história de transplante (p <0,01).

Pessoas sem HIV ou história de transplante com COVID-19 eram ligeiramente mais propensas a serem mulheres (55%), eram mais jovens do que outros grupos (idade média de 47 anos), mais frequentemente Brancos não hispânicos (53%), menos frequentemente Negros não -hispânico (13,5%) e menos probabilidade de ter múltiplas comorbidades (4,5% tinham três ou mais, 4% tinham duas).

Pouco mais de dois terços (68%) da população do estudo teve COVID-19 leve ou infecção assintomática diagnosticada por teste de PCR. Um montante de mais de três por cento (3,4%) foi avaliado em um departamento de emergência, mas não internados no hospital, 26% da população do estudo foi internada no hospital sem a necessidade de ventilação mecânica, 0,9% foram hospitalizados, necessitaram de ventilação mecânica e sobreviveram, e 1,7 % morreu de COVID-19. Pode parecer pouco, mas não foi você, ou alguém que você ama, que perdeu a vida.

Vulnerabilidade e Fragilidade de Soropositivos

Pessoas com HIV eram significativamente mais propensas a visitar um departamento de emergência para serem avaliadas quanto aos sintomas de COVID-19 (odds ratio 1,28, IC de 95% 1,27-1,29), de serem hospitalizadas precisando de ventilação (OR 1,43, IC de 95% 1,43-1,43) e morrer de COVID-19 (OR 1,20, IC95% 1,19-1,20), mas eram menos prováveis ​​do que pessoas sem distúrbios imunossupressores serem admitidos no hospital sem necessidade de ventilação (OR 0,81, IC 95% 0,78-0,86). Essas diferenças permaneceram significativas após o ajuste para fatores sociodemográficos e carga de comorbidades.

Os riscos de resultados graves foram maiores para pessoas que se submeteram a transplantes de órgãos sólidos. Pessoas que se submeteram a transplantes de órgãos sólidos tinham duas vezes mais chances de serem admitidas no hospital sem necessidade de ventilação (OR 2,00, IC 95% 1,93-2,08), cinco vezes mais chances de serem hospitalizadas e precisarem de ventilação mecânica (OR 4,82, 95% CI 4,78-4,86) e quase três vezes e meia mais probabilidade de morrer de COVID-19 (OR 3,38, 95% CI 3,35-3,41) em comparação com pessoas sem distúrbios imunossupressores.

Necessidade de Ventilação Mecânica: 400% Maior

O risco de COVID-19 grave exigindo ventilação mecânica foi quatro vezes maior em pessoas com HIV que se submeteram a transplantes de órgãos sólidos (aOR 4,02, IC de 95% 4,02-4,02) em comparação com aqueles com distúrbios imunossupressores, mas o pequeno tamanho da amostra para isso grupo de pacientes significa que as estimativas de risco podem ser imprecisas.

Em pessoas que vivem com HIV, o risco de resultados graves foi maior naquelas com contagens de CD4 abaixo de 500 e em pessoas com cargas virais detectáveis. Depois de ajustar para fatores sociodemográficos, tabagismo e comorbidades, pessoas com HIV com contagens de CD4 entre 350 e 500 tinham quase três vezes mais probabilidade de serem admitidas no hospital do que pessoas com contagens de CD4 acima de 500 (odds ‘ratio ajustada 2,9, IC 95% 1,5- 5,6). Pessoas com contagens de CD4 abaixo de 350 tinham seis vezes mais probabilidade de serem admitidas no hospital (aOR 3.2-11.1) em comparação com pessoas com contagens de CD4 acima de 500.

Supressão Viral é Necessidade Absoluta

Comparando os resultados de acordo com o estado de supressão viral em pessoas com contagens de CD4 acima de 500, o estudo descobriu que mesmo com uma contagem de CD4 elevada, as pessoas com carga viral acima de 50 cópias / ml tinham três vezes mais probabilidade de serem internadas no hospital em comparação com pessoas com carga viral abaixo de 50 cópias / ml após ajuste para fatores sociodemográficos e comorbidades (aOR 3.1, 95 % CI 1,6-6,2).

Essas descobertas de uma grande amostra de pessoas vivendo com HIV nos Estados Unidos adicionam peso às descobertas de um grande estudo internacional conduzido pela Organização Mundial de Saúde, apresentado no mês passado na Conferência da Sociedade Internacional de AIDS sobre a Ciência do HIV.

Riscos Maiores de Desfechos Graves (eufemismo?)

Esse estudo descobriu que as pessoas com HIV estavam em maior risco de desfechos COVID-19 graves, mas o estudo não incluiu dados sobre o impacto da contagem de CD4 ou carga viral no risco. O estudo da OMS também não conseguiu encontrar uma associação significativa entre o HIV e um risco aumentado de morte devido aos resultados do COVID-19 fora da região africana da OMS, ao contrário deste estudo dos EUA.

Pesquisadores espanhóis também identificaram um risco aumentado de desfechos COVID-19 graves em pessoas com contagens de CD4 abaixo de 500 em pesquisa também apresentada no IAS 2021 no mês passado.

“Nossos resultados pedem uma ação urgente para administrar a vacina SARS-CoV-2 para PVHA nos Estados Unidos e na população global, especialmente visando aqueles indivíduos com infecção por HIV mal controlada e aqueles que vivem em regiões geográficas onde a absorção da vacina pelo público em geral foi inferior ”, concluem os autores do estudo nos Estados Unidos.

Eles dizem que as pessoas com HIV que são especialmente vulneráveis ​​ao COVID-19 podem precisar de esforços especiais para envolvê-las novamente nos cuidados com o HIV e garantir a vacinação.

Substâncias

 

O uso de substâncias, saúde mental precária e habitação instável podem afetar a capacidade das pessoas com HIV de se envolverem nos cuidados com o HIV, dizem os autores, e os programas concebidos para envolver as pessoas nos cuidados com o HIV podem ser essenciais para garantir que as pessoas que podem ser especialmente vulneráveis ​​aos pobres Os resultados do COVID-19 estão envolvidos no tratamento do HIV e vacinados contra o COVID-19.

Traduzido por Cláudio Souza, em 14 de agosto de 2000, do original escrito por Keith Alcorn em 11 de agosto de 2021, publicado no AIDSMAP neste link: CD4 count below 500 or detectable viral load raise the risk of severe COVID-19 for people with HIV

COVID-19 e pessoas com HIV. O que fazer – Orientações da OMS e CDC

Referências

Sun J et al. Gravidade da doença COVID-19 entre pessoas com infecção por HIV ou transplante de órgão sólido nos Estados Unidos: um estudo de coorte observacional, multicêntrico e representativo nacional. Med Rxiv https://doi.org/10.1101/2021.07.26.21261028

Sou HIV Positivo. E Agora?

 

 

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