Antes de examinar as fontes específicas de estigmatização e discriminação relacionadas ao HIV e à AIDS, é importante enfatizar que as reações negativas despertadas pelo HIV e AIDS não são de forma alguma exclusivas. Precisamente por ser este o caso, devem ser examinadas em perspectiva histórica, se quisermos entender como e porque surgiram (ver, por exemplo, Fee & Fox, 1989). Em epidemias anteriores, o contágio real ou suposto da doença muitas vezes resultou no isolamento e exclusão das pessoas que eram infectadas (Volinn, 1989; Gilmore & Somerville, 1994) e as doenças sexualmente transmissíveis são notórias por despertar tais respostas e reações socialmente divisoras (Brandt, 1987; Garrara, 1994; Gilmore & Somerville, 1994; Goldin, 1994).
Desde o início da epidemia de HIV e AIDS mobilizou-se uma série de metáforas poderosas em torno da doença que servem para reforçar e legitimar a estigmatização. Elas incluem a AIDS vista como morte (por exemplo, por meio de imagens como a Grande Ceifeira); AIDS como horror (fazendo com que os infectados sejam endiabrados e temidos); AIDS como punição (por exemplo, por comportamento imoral); AIDS como crime (por exemplo, em relação a vítimas inocentes e culpadas); AIDS como guerra (por exemplo, em relação a um vírus que precisa ser combatido); e, talvez mais do que tudo, AIDS como o Outro (no qual a AIDS é vista como algo que aflige os que estão à parte) (ver Malcolm et ai., 1998; UNAIDS, 2000). De fato, como argumenta Paula Treichler em uma análise que se tornaria clássica, o HIV/AIDS poderia muito bem ser descrito como uma “epidemia de significação” (Treichler, 1988) na qual o uso da linguagem nunca é simplesmente neutro, e serve aos interesses de poder de diversas maneiras
ALGUMA METÁFORAS DA AIDS
AIDS
- Como morte
- Como horror
- Como punição
- Como crime
- Como guerra
- Como o Outro
- Como vergonha
Junto com a crença disseminada de que a AIDS é algo vergonhoso (Omangi, 1997), tais metáforas e manobras lingüísticas construíram uma série de explicações “prontas” (embora altamente inexatas) que fornecem bases poderosas para reações estigmatizantes e discriminatórias. Como argumentou o escritor e ativista da luta contra a AIDS no Brasil, Herbert Daniel, ao analisar a história da epidemia no seu país, devido a tais práticas culturais e lingüísticas, particularmente pelo modo como são veiculadas pela mídia e mais tarde integradas à cultura popular, as pessoas são estimuladas a formar imagens altamente complexas e frequentemente imprecisas nos seus entendimentos sobre a epidemia sem ter tido qualquer contato real ou direto com ela (ver Daniel & Parker, 1991). Essas mesmas imagens também permitem que algumas pessoas neguem que possam, pessoalmente, estar infectadas pelo HIV ou contaminadas pela AIDS (ver Malcolm et ai., 1998; UNAIDS, 2000). Entretanto, o que é especialmente importante enfatizar, no presente contexto, é o fato de que o estigma relacionado ao HIV e à AIDS raramente opera exclusivamente em relação ao HIV e à AIDS. Pelo contrário, em praticamente todo país e cultura, a estigmatização, a discriminação e a negação operam, também, em relação a uma série de formas preexistentes e/ou independentes de estigmatização e exclusão, reforçando o seu impacto e os seus efeitos, e ligando-os a reações novas e emergentes em resposta às condições específicas da infecção do HIV e AIDS. Para começar a entender as formas e contextos específicos nos quais a estigmatização e a discriminação ao HIV e à AIDS funcionam, é sempre necessário, portanto, começar por desvendar a triste história da estigmatização e discriminação que existia anteriormente, e independentemente, à AIDS.
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