Hepatite C é ligada a número de parceiros

FOLHA DE S. PAULO – SP | SAÚDE

AIDS | HEPATITE

24/06/2010

Estudo observou atitudes comuns entre infectados; jovens que fazem sexo com muitas pessoas são grupo de risco

Pesquisa da USP associa transmissão do vírus a “conexões”; doença atinge cerca de 2% da população brasileira

SABINE RIGHETTI

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Uma pesquisa da USP sugere que homens jovens e promíscuos são as vítimas preferenciais da HEPATITE C, doença incurável cujos mecanismos de transmissão não são bem conhecidos.

Analisando 591 portadores do vírus em São Paulo, os pesquisadores verificaram que a transmissão do vírus está diretamente relacionada às “conexões” que uma pessoa estabelece.

A análise das conexões por meio do número de parceiros sexuais não é a toa: “O sexo é um bom indicador de como são formadas as estruturas sociais”, explica Paolo Zanotto, virologista do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e coautor do estudo.

Entre os pacientes com “alta conectividade” (que tiveram mais de 50 parceiros sexuais), 60% têm o subtipo 1a da doença e a maioria está na faixa etária de 30 anos.

Já entre os de “baixa conectividade” (menos de 5 parceiros sexuais), 40% têm o subtipo 1b da HEPATITE C e foram contaminados por transfusão de sangue.

“Menos de um terço dos pacientes infectados pelos subtipos 1a e 3a da doença são usuários de drogas injetáveis. Claramente o vírus está sendo transmitido por outras vias”, diz Camila Malta Romano, pesquisadora do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo da USP e coordenadora do estudo.

Para a especialista, as pessoas mais jovens e os homens, que têm mais parceiros sexuais do que as mulheres, estão no grupo de risco. “Não existe confirmação de que a relação heterossexual possa transmitir HEPATITE C. Mas observamos uma maior incidência de um subtipo do vírus entre pessoas com mais parceiros”, diz Romano.

Os cientistas também notaram que o subtipo 1a do vírus, mais comum nos grupos considerados “mais conectados”, é o que mais tem crescido em número de casos.

O estudo não pretendia avaliar a dinâmica da transmissão do vírus, mas acabou fazendo um mapeamento ao observar alguns comportamentos comuns em indivíduos contaminados.

O trabalho é inédito no mundo e os primeiros resultados foram publicados hoje no periódico científico de acesso livre PLoS ONE, da Public Library of Science.

CONEXÕES

Zanotto, responsável por um trabalho maior que envolveu quatro vírus –HIV, HCV (da HEPATITE C), RSV (vírus respiratório) e hantavírus (transmitido por roedores)- explica que a análise comportamental foi uma espécie de braço do trabalho.

A ideia de conexões usada pelo especialista tem a ver com a teoria do físico Albert-laszlo Barabasi, que no livro “Linked -a Nova Ciência dos Networks”, lançado no Brasil em 2009, analisa o impacto das conexões das pessoas em vários aspectos da vida -até na medicina e na saúde.

“Queremos, agora, entender as conexões dos portadores do vírus HCV”, afirma Zanotto, da USP.

O vírus da HEPATITE C, descoberto em 1989, atingia inicialmente pessoas que recebiam transfusão de sangue.

Depois da implantação das políticas de controle da transmissão por transfusão, as causas da doença passaram a ser um ponto de interrogação para cerca de 40% dos casos.

Estima-se que 190 milhões de pessoas no mundo tenham HEPATITE C. No Brasil, aproximadamente 2% da população está contaminada. Ainda não há vacina.

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