HIV/AIDS em 2026: os números da epidemia no mundo e o alerta no Brasil
Publicado em 3 de outubro de 2026 (há 22 dias)Atualizado em 3 de outubro de 2026 (há 22 dias) Comece Bem o Seu Sábado? Os Números do HIV/AIDS no Mundo Não Permitem Conforto A ciência avançou...
Comece Bem o Seu Sábado? Os Números do HIV/AIDS no Mundo Não Permitem Conforto
A ciência avançou enormemente. O tratamento mudou a história. Mas o HIV continua infectando mais de um milhão de pessoas por ano — e sinais de alerta aparecem também no BrasilPor Cláudio Souza — Soropositivo.Org Há dias em que eu gostaria de abrir o Soropositivo.Org e dizer simplesmente: Comece bem o seu sábado. Está tudo melhor. Se não é a cotovia que anuncia o dia é o rouxinol que anuncia o sol! A verdade é que o mar não está para peixe e, sinceramente… Não posso. Posso dizer que muita coisa melhorou. E melhorou de verdade. Quem viveu os primeiros anos da epidemia sabe que afirmar que hoje milhões de pessoas vivem durante décadas com HIV, trabalham, amam, envelhecem, criam filhos e fazem planos não é pouca coisa. Eu recebi um diagnóstico de HIV em 1994. Naquela época, o futuro que colocaram diante de mim era medido em meses. Hoje estou aqui. Isso precisa ser dito. Mas outra coisa também precisa ser dita: o HIV não foi embora. E uma epidemia não deixa de existir porque aprendemos a tratar melhor aqueles que conseguem chegar ao diagnóstico e ao tratamento.
41 milhões de pessoas vivem com HIV no mundo
Os números mais recentes da UNAIDS são referentes a 2025. Naquele ano, aproximadamente 41 milhões de pessoas viviam com HIV no planeta. Cerca de 1,2 milhão de pessoas adquiriram HIV durante o ano. E aproximadamente 570 mil pessoas morreram de doenças relacionadas à AIDS. UNAIDS Leia novamente o segundo número. 1,2 milhão de novas infecções em um único ano. Isso significa, numa conta simples, pouco mais de 3.200 novas infecções por dia. Mais de 130 por hora. Enquanto escrevo este texto, pessoas continuam adquirindo HIV em todos os continentes. A situação mundial melhorou muito quando comparada aos piores anos da epidemia. Desde 2010, as novas infecções diminuíram aproximadamente 42%, e as mortes relacionadas à AIDS caíram dramaticamente. UNAIDS Mas uma queda não é a mesma coisa que o fim de uma epidemia. E os sinais mais recentes não permitem complacência.O mundo deveria estar muito mais adiante
Em julho de 2026, durante a Conferência Internacional de AIDS realizada no Rio de Janeiro, a UNAIDS publicou um alerta especialmente duro. O organismo afirmou que a resposta mundial ao HIV está extremamente frágil e que cortes de financiamento, redução de programas de prevenção e enfraquecimento dos serviços comunitários podem permitir uma nova expansão da epidemia. Em 2025, as novas infecções aumentaram em três regiões do mundo e em 21 países. Cerca de 9 milhões das 41 milhões de pessoas vivendo com HIV não estavam recebendo tratamento antirretroviral. E quase metade das crianças vivendo com HIV não tinha acesso ao tratamento de que necessitava. UNAIDS Isso não é uma previsão apocalíptica de um blogueiro preocupado. É o alerta da própria UNAIDS.
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E aqueles números de 2023?
O infográfico que acompanha este texto logo acima mostra os números consolidados da epidemia em 2023, quando a UNAIDS estimava:- 39,9 milhões de pessoas vivendo com HIV;
- 1,3 milhão de novas infecções;
- 630 mil mortes relacionadas à AIDS.
O Brasil: não é correto dizer simplesmente que “está tudo pior” — mas há sinais que exigem atenção
Ouvi recentemente, de longe, uma reportagem na televisão dizendo que a AIDS estaria “voltando” ou “recuperando terreno” no Brasil. Fui procurar os dados. Eles exigem uma explicação mais cuidadosa. O Boletim Epidemiológico HIV e Aids 2025, do Ministério da Saúde, informa que em 2024 foram notificados 39.216 casos de infecção pelo HIV no Brasil, correspondendo a uma taxa nacional de 18,4 casos por 100 mil habitantes. Serviços e Informações do Brasil Entre 2020 — ano profundamente afetado pela pandemia de covid-19 e pela redução de diagnósticos — e 2024, houve aumento de 19% no número de casos de HIV registrados. O próprio Ministério da Saúde interpreta parte desse movimento como retomada da detecção depois da interrupção e redução dos serviços durante a pandemia. Portanto, seria irresponsável transformar automaticamente todo esse aumento em “aumento real da transmissão”. Mas também seria irresponsável ignorá-lo. Serviços e Informações do BrasilA AIDS também não desapareceu do Brasil
Em 2024, a taxa nacional de detecção de AIDS foi de 17,4 casos por 100 mil habitantes. Entre 2023 e 2024, essa taxa aumentou em dez unidades da Federação. Mato Grosso do Sul apresentou aumento de 16,2%; Ceará, 12,1%; e Amapá, 9,2%. Em algumas regiões, especialmente no Norte, as taxas permanecem muito elevadas. Serviços e Informações do Brasil Ao mesmo tempo, há uma informação importante que não deve ser escondida: a mortalidade caiu. Entre 2022 e 2024, por exemplo, o número de mortes por AIDS diminuiu entre homens e mulheres. Tratamento funciona. Diagnóstico funciona. Chegar às pessoas antes que adoeçam funciona. Serviços e Informações do Brasil E é exatamente aí que entra uma coisa que vivi durante algum tempo nas ruas.Quando eu trabalhava com o Barong
Durante um período fiz trabalho voluntário com o Barong, em ações de testagem. Nós abordávamos as pessoas que passavam. Havia aquela van maravilhosa, impossível de não notar, inclusive com uma espécie de boneco inflável que lembrava uma camisinha sendo usada. Eu me aproximava e dizia mais ou menos assim:Com licença, boa tarde. Eu trabalho com o Barong e estamos realizando testagem voluntária para HIV, sífilis e hepatites virais.Eu explicava que eram doenças sérias. Quase todo mundo concordava imediatamente. Então explicava que, quanto mais cedo uma pessoa soubesse, melhor. No caso da sífilis, porque há cura. No caso do HIV, porque diagnóstico precoce e tratamento adequado mudam completamente o prognóstico. E então eu fazia uma coisa que não estava escrita em nenhum folheto. Contava um pouco da minha história. Eu dizia que fui uma das pessoas que descobriu tarde. Descobri na marra. Uma meningite viral acabou levando ao diagnóstico. E, tentando diminuir a distância entre mim e aquela pessoa que talvez estivesse pensando em fugir dali, eu dizia: Eu quase fui para a vala. Não era figura de linguagem.
Eu também dizia que o tratamento hoje era muito mais simples do que aquele que eu conheci no começo da epidemia.
Essa afirmação é uma meia verdade.
Os tratamentos atuais são, em geral, incomparavelmente melhores do que os esquemas que tivemos no início da terapia antirretroviral.
Mas não são água com açúcar.
Medicamento é medicamento.
Há efeitos adversos, interações, pessoas que precisam mudar de esquema, pessoas que convivem com outras doenças e pessoas que enfrentam dificuldades enormes para manter adesão ao tratamento.
Por isso nunca gostei da ideia de transformar prevenção numa frase do tipo:
“Se pegar, é só tomar um comprimido.”
Não.
Prevenir continua sendo melhor.
Os 45 minutos
Havia ainda um inimigo muito concreto naquela abordagem.
O relógio.
Quando eu explicava que todo o processo poderia levar cerca de 45 minutos, muita gente recuava.
E eu compreendia.
Quarenta e cinco minutos é bastante tempo para quem está no meio de um dia de trabalho, indo buscar filho, fazendo compras ou simplesmente tentando chegar a algum lugar.
Mas houve um dia em que fiquei mais tempo conversando com a equipe.
E aquele dia nunca saiu da minha cabeça.
Segundo o que me foi informado naquele momento, 43 pessoas tinham sido testadas.
Dezesseis apresentaram resultado para sífilis.
Uma apresentou resultado positivo para HIV.
Quero deixar uma coisa muito clara: isso é uma lembrança de uma ação específica de testagem da qual participei.
Não é amostra populacional.
Não é estudo científico.
Não serve para calcular prevalência da cidade.
O fato é que Santos é uma cidade portuária e não dá para saber que idioma estranho (estranhíssimo) em que confabulavam dois cras no banco ao lado do meu enquanto tomava café na padaria e, neste caso, ouvir a conversa dos outros continua a ser un gesto deseducado e, como nãoo entendia nada, parei de prestar atenção. Mas este homes viajam o mundo e se alguns deles tem uma família em cada porto, ou pelo menos uma amante em ada prostibulo de cada portro, fica difícil avaliar que DST/IST ou doença venérea circulam pela cidade neste dia, neste momento em que digito com meus indicadores, tomo um café (mais um) e fumo, ainda o mesmo cigarro.
Mas, para quem estava ali olhando pessoas entrarem e saírem daquela van, aquilo tinha rosto.
- Tinha idade.
- Tinha história.
- E ficou comigo.
Santos e a sífilis: minha impressão encontrou números
Durante muito tempo tive a sensação de que havia algo acontecendo com a sífilis em Santos. Minha assistente, Nyx, encontrou números para mim e, falando sério, não tem graça! Eu costumava descrever aquilo de maneira bastante pouco epidemiológica: parecia fogo correndo por baixo da tundra. Fui rechecar os números. E a situação merece atenção. O Boletim Epidemiológico de Santos informa que a taxa de detecção de sífilis adquirida no município permaneceu acima das taxas do Estado de São Paulo e do Brasil durante todo o período analisado, de 2016 a 2024. Prefeitura de Santos Em 2016, a taxa de Santos era de 170,7 casos por 100 mil habitantes. No ano de 2023, chegou a 298,9 por 100 mil. E no ano de 2024, alcançou 327,8 casos por 100 mil habitantes. Os dados são da Prefeitura de Santos Entre homens de 20 a 29 anos, a taxa municipal chegou em 2024 a impressionantes 755,1 casos por 100 mil habitantes. Prefeitura de SantosTecnicamente, eu não chamaria isso de “surto” sem investigação epidemiológica específica. O próprio boletim municipal lembra que surto tem definição própria e que comparações devem ser feitas por taxas, não apenas por números absolutos. Prefeitura de Santos. E apesar do Pondré ter me insultado ao dizer que um blogueiro escreve um texto por R$ 50,00 (eu nunca escrevi ou publiquei um texto pago em 26 anos) isso mne dá a medida do valor que ele dá ao meu trabalho, que ele nem sabe que eu faço, nem em que condiçoes. E não sou eu que estou num palanque eletrônico disparando asnices para todos os lados ciente de que não receberá resposta. Me ficou uma dúvida. É Pondré ou Pangaaré? Porque se ele estima meu trabalho por uma nota minguada de R$ 50,00 e só a colesteramina que eu tomo custa em torno de R$ 500,00 por mês, qual é o tamanho do saco (…) de moedas pelo qual ele se vende? As trinta moedas de Judas viraram um cemitétio com o nome pouco loquaz de “Campo de Sangue”. E aí Pangaré?Mas certamente também não chamaria de situação tranquila.
E há um retrato mais recente
Na campanha Fique Sabendo 2025, em Santos, foram realizados: 516 testes para HIV — nove positivos. 467 testes para sífilis — cinquenta positivos. Prefeitura de Santos Novamente: isso não significa que 10% da população de Santos tenha sífilis. As pessoas que procuram uma campanha de testagem não constituem uma amostra aleatória da população. Mas cinquenta resultados positivos em 467 testes são cinquenta pessoas que precisavam saber. E que agora podem tratar.
O paradoxo da epidemia de HIV em 2026
Nunca tivemos tanta ciência. Temos testes rápidos. Temos profilaxia pós-exposição — PEP¹. Temos profilaxia pré-exposição — PrEP². Temos tratamentos muito mais eficazes e toleráveis do que aqueles disponíveis quando fui diagnosticado. Sabemos que uma pessoa vivendo com HIV, em tratamento e mantendo carga viral indetectável, não transmite HIV por via sexual — I=I³. Temos medicamentos de longa duração que seriam ficção científica quando eu estava na Casa de Apoio Brenda Lee. E, ainda assim: 1,2 milhão de pessoas adquiriram HIV em 2025. E ainda assim 570 mil morreram de doenças relacionadas à AIDS. Eu chamei a calculadora aqui e, vale dizez, foram 1561 pessoas que perderam a vida assim. E isso dá, em média, 65 pessoas por hora, o que dá mais do que uma por minuto e, durante as quatro horas em que trabalharei até terminar isso aqui terão sido 260 pessoas. Isso me entristece. porque eu não sei, e jamais saberei, que são ou quem eram, mas há um provérbio hebraico que diz que o homem que salva uma vida, salva um mundo. Estes são 260 mundos perdidos. Dentre eles terão existido professores, médicos, advogados, motoristas de aplicativo, profissionais do sexo (e eu anda escreverei sobre elas porque devo isso a Fátima. A puta, não a santa. Porque foi ela que interrompeu inha úultima ronda, um texto do livro memórias de um homem da noite E a UNAIDS adverte que décadas de conquistas podem ser perdidas se prevenção, testagem, tratamento e financiamento forem enfraquecidos. UNAIDS Esse é o paradoxo. Não estamos perdendo por falta de conhecimento científico. Estamos perdendo pessoas porque o conhecimento, a prevenção, os testes e o tratamento ainda não chegam a todos da mesma maneira.Se você nunca fez um teste, talvez este sábado seja um bom dia para pensar nisso
Não estou dizendo que todo mundo precisa abandonar o café da manhã neste instante e correr para uma unidade de saúde. Estou dizendo outra coisa. Se você é sexualmente ativo e nunca fez um teste de HIV, sífilis e hepatites virais, pergunte-se por quê. Se houve uma exposição recente ao HIV, lembre que existe PEP e que ela precisa ser iniciada o mais rapidamente possível, dentro do prazo recomendado. Se você vive situações frequentes de possível exposição, converse sobre PrEP. Se você vive com HIV, mantenha acompanhamento e tratamento. E se você conhece alguém que evita o teste por medo, talvez possa fazer o que tentei fazer durante algum tempo diante daquela van do Barong: diminuir a distância. Não julgar. Explicar. E ficar por perto. Porque uma coisa eu aprendi naquela estrada longa que começou para mim em 1994: a verdade pode assustar. Mas quase sempre é melhor conhecê-la cedo.Notas
1 — PEP: profilaxia pós-exposição ao HIV. Uso de medicamentos antirretrovirais após uma possível exposição ao vírus, dentro de prazo definido pelos protocolos de saúde. 2 — PrEP: profilaxia pré-exposição ao HIV. Estratégia preventiva em que pessoas sem HIV utilizam medicamentos para reduzir significativamente a possibilidade de adquirir o vírus. 3 — I=I: Indetectável = Intransmissível. Pessoas vivendo com HIV que mantêm carga viral indetectável graças ao tratamento não transmitem o HIV por via sexual.Fontes principais
UNAIDS — dados globais de HIV de 2025, publicados em 2026. UNAIDS Ministério da Saúde — Boletim Epidemiológico HIV e Aids 2025. Serviços e Informações do Brasil Prefeitura de Santos — 7º Boletim Epidemiológico de Santos, com série histórica de sífilis até 2024. Prefeitura de Santos Prefeitura de Santos — resultados da campanha Fique Sabendo 2025. Prefeitura de SantosSe você gosta deste trabalho, se ele te ajudou de alguma forma, deixe um comentário abaixo — eu leio todos e sempre respondo, mesmo que demore um pouco.
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- Comece Bem o Seu Sábado? Os Números do HIV/AIDS no Mundo Não Permitem Conforto
- 41 milhões de pessoas vivem com HIV no mundo
- O mundo deveria estar muito mais adiante
- E aqueles números de 2023?
- O Brasil: não é correto dizer simplesmente que “está tudo pior” — mas há sinais que exigem atenção
- A AIDS também não desapareceu do Brasil
- Quando eu trabalhava com o Barong
- Os 45 minutos
- Santos e a sífilis: minha impressão encontrou números
- E há um retrato mais recente
- O paradoxo da epidemia de HIV em 2026
- Se você nunca fez um teste, talvez este sábado seja um bom dia para pensar nisso
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