Insuficiência pancreática exócrina: quando comer já não significa nutrir o corpo
O que acontece quando o pâncreas deixa de fornecer enzimas, por que o tratamento pode ser contínuo e quanto custa manter o corpo capaz de aproveitar os alimentos
- Um órgão com duas profissões
- O corpo começa a dar sinais
- A insuficiência pancreática exócrina pode ameaçar a vida?
- O tratamento não é um comprimido eventual
- O preço real do Creon não está na caixa: está na repetição
- E existe tratamento pelo SUS?
- E quando é preciso recorrer à Justiça?
- E onde entra o Questran?
- Um detalhe que exige atenção
- Comer precisa voltar a significar nutrir
Há palavras que parecem construídas para afastar o leitor comum.
Endócrino. Exócrino. Enzimas. Má absorção. Insuficiência pancreática exócrina.
A pessoa lê tudo isso e pensa:
— Não é comigo.
Até que passa a ser.
Até que o intestino muda. A comida deixa de ser apenas comida e começa a provocar medo. O corpo emagrece, incha, fermenta, dói e evacua mal. Então aparece um resultado baixo de elastase fecal e alguém finalmente considera que o pâncreas talvez não esteja cumprindo uma parte fundamental de seu trabalho.
Um órgão com duas profissões
O pâncreas trabalha em duas frentes.
Na função endócrina, produz hormônios, como insulina e glucagon, que são liberados no sangue e participam do controle da glicose.
Na função exócrina, produz enzimas digestivas e as envia por ductos até o intestino delgado. Essas enzimas ajudam a decompor gorduras, proteínas e carboidratos para que seus nutrientes possam ser absorvidos.
Quando o pâncreas não produz enzimas suficientes, quando elas não chegam adequadamente ao intestino ou quando não conseguem misturar-se à comida, surge a insuficiência pancreática exócrina, também chamada IPE.
A pessoa pode comer. Pode até comer bem. Mas parte do alimento atravessa o aparelho digestivo sem ser devidamente transformada em energia, vitaminas, músculos, ossos e manutenção do próprio organismo.
É possível estar alimentado e, ao mesmo tempo, progressivamente desnutrido.
O corpo começa a dar sinais
A insuficiência pancreática exócrina pode causar diarreia persistente, gases em excesso, distensão e dor abdominal, fezes volumosas, oleosas ou difíceis de limpar, odor muito intenso, perda de peso e deficiência das vitaminas A, D, E e K.
Também pode contribuir para perda de massa muscular e problemas ósseos relacionados à má absorção de nutrientes.
O problema, portanto, não é apenas o incômodo intestinal.
A má digestão leva à má absorção.
E a má absorção prolongada pode levar à desnutrição.
A insuficiência pancreática exócrina pode ameaçar a vida?
Aqui precisamos falar sem espalhar pânico e sem esconder a gravidade.
Nem toda pessoa com IPE está diante de uma ameaça imediata de morte.
Seria falso escrever isso.
Mas também seria falso tratá-la como uma simples desarrumação intestinal.
Quando grave, prolongada ou inadequadamente tratada, a insuficiência pancreática exócrina pode provocar desnutrição importante, perda de peso, deficiência de vitaminas, perda de massa muscular, alterações ósseas e outras complicações capazes de comprometer seriamente a saúde.
Portanto, a formulação honesta é:
A IPE não é necessariamente uma sentença de morte, mas, quando não reconhecida ou não tratada adequadamente, pode evoluir para complicações graves e participar de um processo capaz de ameaçar a sobrevivência.
O risco de uma pessoa específica depende de vários elementos: causa da IPE, estado nutricional, peso, massa muscular, vitaminas, outras doenças e resposta ao tratamento.
Um texto geral não substitui essa avaliação.
O tratamento não é um comprimido eventual
O principal tratamento é a terapia de reposição de enzimas pancreáticas, conhecida pela sigla PERT.
A pancreatina fornece enzimas que substituem, em parte, aquilo que o pâncreas não está entregando em quantidade suficiente.
Essas cápsulas precisam acompanhar refeições e lanches conforme a prescrição, porque sua função é encontrar a comida no aparelho digestivo e ajudar a decompô-la.
Em muitas situações, principalmente quando existe dano pancreático permanente, a reposição pode ser prolongada ou contínua.
Não é uma caixa comprada durante uma crise e esquecida depois.
O tratamento acompanha o ato cotidiano de comer.
E é justamente aí que um medicamento aparentemente acessível pode transformar-se num custo pesado.
O preço real do Creon não está na caixa: está na repetição
Quando pensamos no preço de um medicamento crônico, olhar apenas para o valor de uma embalagem pode produzir uma ilusão.
A pergunta verdadeira é:
Quantas caixas são necessárias por mês?
Se uma pessoa necessita, por exemplo, de cinco cápsulas diariamente e a embalagem contém 30, são necessárias aproximadamente:
- 150 cápsulas por mês;
- cinco caixas por mês;
- 60 caixas por ano.
Não é a cápsula isolada que destrói o orçamento.
É a multiplicação diária, mensal e anual.
É o tratamento que volta à mesa junto com cada prato.
Esses números são apenas uma demonstração matemática baseada em cinco cápsulas diárias, não uma sugestão de dose. A quantidade necessária precisa ser definida pelo médico de acordo com a apresentação do medicamento, a alimentação e a necessidade clínica.
E existe tratamento pelo SUS?
Aqui existe uma questão importante.
A pancreatina passou por avaliação da Conitec, e seu uso no SUS foi ampliado para pacientes com insuficiência pancreática exócrina dentro das condições previstas no protocolo clínico.
Isso muda bastante a discussão.
Em vez de simplesmente dizer:
“O SUS não fornece.”
é preciso perguntar:
O paciente se enquadra no protocolo?
O médico realizou a solicitação adequadamente?
O medicamento está disponível naquele momento?
Existe diferença entre o princípio ativo fornecido pelo SUS e a marca comercial prescrita?
No caso do Creon, por exemplo, há uma diferença fundamental entre dizer Creon e dizer pancreatina.
Creon é uma marca comercial.
Pancreatina é o princípio ativo utilizado na reposição enzimática.
O SUS pode disponibilizar pancreatina sem necessariamente estar obrigado a entregar especificamente determinada marca comercial.
E quando é preciso recorrer à Justiça?
Existe uma ideia bastante difundida de que juízes não podem determinar o fornecimento de medicamentos que não façam parte das listas do SUS.
A realidade jurídica é mais complicada.
Decisões do Supremo Tribunal Federal estabeleceram critérios rigorosos para o fornecimento judicial de medicamentos registrados na Anvisa que não tenham sido incorporados ao SUS.
Em determinadas circunstâncias, o fornecimento continua sendo possível, mas o paciente pode ser obrigado a demonstrar uma série de coisas: necessidade clínica, ausência de alternativa adequada, evidência científica, negativa administrativa e incapacidade financeira, entre outros requisitos.
A crítica legítima está aí.
Uma pessoa doente, frequentemente já fragilizada física e financeiramente, pode ser obrigada a atravessar uma pequena tese médica, administrativa, científica e jurídica para conseguir aquilo que seu médico considera necessário.
Quanto mais vulnerável o paciente, maior pode parecer o labirinto que ele precisa atravessar.
Esse é o contrassenso.
Mas devemos descrevê-lo corretamente.
Uma denúncia baseada numa regra que não existe enfraquece justamente a denúncia verdadeira.
E onde entra o Questran?
O Questran contém colestiramina.
Ele não substitui a pancreatina e não fornece enzimas pancreáticas.
São medicamentos destinados a mecanismos diferentes.
A colestiramina liga-se aos ácidos biliares dentro do intestino.
Em algumas pessoas, uma quantidade excessiva de ácidos biliares chegando ao cólon pode provocar diarreia aquosa. Ao ligar-se a esses ácidos, a colestiramina pode ajudar a reduzir essa diarreia.
Portanto:
Pancreatina: ajuda a digerir o alimento quando faltam enzimas pancreáticas.
Colestiramina: pode ajudar a controlar diarreia provocada por ácidos biliares mal absorvidos.
Uma mesma pessoa pode apresentar mais de um mecanismo contribuindo para a diarreia.
Isso não significa que toda pessoa com insuficiência pancreática exócrina precise de colestiramina.
Não precisa.
Ela deve ser utilizada quando existe indicação para aquele mecanismo específico.
Um detalhe que exige atenção
A colestiramina pode interferir na absorção de alguns medicamentos e também das vitaminas lipossolúveis A, D, E e K.
Isso merece atenção especial porque a própria insuficiência pancreática exócrina já pode prejudicar a absorção dessas vitaminas.
Existe aí quase uma ironia biológica:
uma doença pode dificultar a absorção de vitaminas, e um medicamento utilizado para controlar outro mecanismo intestinal também pode interferir nessa absorção.
Isso não significa que a colestiramina seja ruim.
Significa que precisa ser utilizada pela razão correta, na dose adequada e com acompanhamento.
Quando existem vários medicamentos sendo utilizados simultaneamente (polifarmácia), o horário de cada um também precisa ser organizado com o médico ou farmacêutico.
Comer precisa voltar a significar nutrir
A insuficiência pancreática exócrina mostra que o corpo não vive apenas daquilo que colocamos no prato.
Ele vive daquilo que consegue:
digerir, absorver e transformar em si mesmo.
O alimento precisa virar sangue.
Precisa virar músculo.
Precisa virar osso.
Precisa virar energia.
Precisa virar defesa.
Precisa virar corpo.
Quando faltam enzimas pancreáticas, parte dessa transformação pode ser interrompida.
A pessoa pode continuar comendo e, ainda assim, perder peso, força e nutrientes.
Por isso, diarreia crônica, fezes gordurosas, emagrecimento, gases intensos e sinais de má absorção não devem ser tratados como frescura, nervosismo ou inconveniente menor.
Às vezes, a pessoa está literalmente:
comendo sem conseguir aproveitar aquilo que come.
E tratamento contínuo não deveria significar condenação financeira contínua.
O direito à saúde não pode existir apenas no papel, escondido atrás de protocolos que ninguém explica, formulários que ninguém encontra e balcões que mandam o paciente voltar no mês seguinte.
O corpo já impõe trabalho suficiente.
O sistema não precisa acrescentar fome burocrática à fome celular.
Relacionado
Descubra mais sobre Blog Soropositivo Arquivo HIV
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

