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O Globo |
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Dia / Mês/Ano: |
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O País |
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10/FEVEREIRO/08 |
CORPO A CORPO
NICANOR RODRIGUES DA SILVA PINTO
Durante 11 anos, o médico Nicanor Rodrigues da Silva Pinto, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), pesquisou as condições de saúde dos índios do AltoXingu, em Mato Grosso.
Na outra ponta de seus estudos está o modelo de gestão descentralizada do SUS (Sistema Único de Saúde). Para Nicanor, a pior doença infecciosa do Brasil é a malária, mas há um mal ainda maior: a exclusão.
Tatiana Farah O GLOBO: O DataSUS mostra em seus últimos registros que, em 2005, ocorreram cerca de 49 mil mortes "sem atendimento médico". A maioria dessas mortes foi registrada como ocorridas em domicílio.
NICANOR R.S. PINTO: Muita gente não tem acesso nem a moradia, nem a comida, nem a serviço de saúde. Muitos municípios no Brasil não chegam a ter médicos. Para ter acesso a médico, você tem de viajar ou pegar canoa, no caso da Região Amazônica. Mesmo no interior de São Paulo, tem município sem um serviço mínimo de saúde. Tem um agente de saúde, uma pequena farmacinha, uma geladeira com vacina, mas não tem médico. Às vezes, a situação de exclusão é tão grande que a pessoa não teve acesso ao meio de transporte ágil para chegar ao serviço de saúde. Tem uma porcentagem do Brasil que é excluído de praticamente tudo da vida moderna.
Qual a pior doença do Brasil?
NICANOR: Para mim é a malária, que tem combate difícil e um índice de mortalidade alto. Mas o pior mal do país é a exclusão.
As políticas assistenciais têm ajudado a medicina preventiva e a saúde pública?
NICANOR: Na situação de desgraceira como estávamos, se a assistência chega ao povo que realmente precisa, ajuda. Mas tem de saber quais os passos seguintes, que não são da esfera da saúde, mas que têm a ver com a geração de emprego naquelas regiões para aquele pessoal ter uma sustentação no tempo.
É o momento de dar esses passos?
NICANOR: Precisa evoluir para isso. Haver um desdobramento em outras políticas, não sei se paralelas, concomitantes. Para que as pessoas tenham autonomia. Muitas vezes as pessoas vêm ocupar as grandes cidades pressionadas pela falta de terra e de condições de sustentação nessas regiões. E nas grandes cidades é mais fácil para o poder público fornecer o abastecimento de água, mas não o saneamento básico. Isso expõe a população da periferia de novo aos riscos das doenças da pobreza.
O senhor também estuda a gestão da saúde pública. Em sua opinião, por que as pessoas chegaram a se vacinar até três vezes contra a febre amarela, correndo riscos graves com os efeitos adversos da vacina?
NICANOR: Falta comunicação e diálogo dentro do próprio sistema, entre o ministério, estados e municípios. Muitas vezes há diferenças e disputas. Também há problemas de comunicação entre a população e os órgãos de saúde, entre estes e a imprensa. Com isso, as informações divergentes ou com ênfase em diferentes pontos acabam gerando neurose coletiva.
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