O sobe e desce da cidadania nas favelas

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Dona Marta vota pela primeira vez sob a UPP, enquanto Rocinha tem nova versão do curral de Claudinho

Pedro Motta Gueiros

Morador do Dono Marta, em Botafogo, há 30 anos, Estevão Aguiar depende da liberdade de expressão para viver. Dono de uma banca de jornal na subida do morro, sob a proteção de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) desde dezembro de 2008, o cearense vê reflexos da política de segurança no exercício da cidadania na comunidade. Entre cartazes de candidatos que montavam um retrato da pluralidade desejada pela democracia, Estevão pedia o mesmo benefício para todo o Estado do Rio. A cerca de cinco quilômetros dali, seu desejo ainda estava aprisionado pela nova versão do curral eleitoral da Rocinha, onde “bicho solto” é sinônimo de bandido e eleitores tinham vans à disposição para votar em São Conrado.

favelas

Há quatro meses, com a morte do vereador Claudinho da Academia, denunciado pelo Ministério Público por uso de violência e coação de eleitores, houve uma aparente abertura da favela, que já está fechada com um novo líder político. Na camisa da legião de cabos eleitorais que coloria a Rocinha de amarelo ontem, o nome do candidato a deputado estadual André Lazaroni (PMDB) aparecia ao lado de uma imagem de Claudinho e de uma frase do eterno amigo. Segundo a União Pró-Melhoramento dos Moradores da Rocinha, cerca de 20 candidatos participaram da campanha no morro, que foi acompanhada pela imprensa internacional.

Ter acesso à favela ainda é diferente de ser bem recebido.

– Jogador de futebol só quer dinheiro. Depois de eleito, vai chutar seu traseiro – dizia a assistente social Niura Antunes a um correligionário que distribuía santinhos do tetracampeão Bebeto.

Traficantes, um deles com fuzil, circulam de moto Enquanto defendia a legitimidade da opção pela continuidade da política de Claudinho e dos governos federal e estadual, Niura foi perguntada por uma moradora, que reclamava de dores nas pernas, sobre o transporte de graça para os eleitores.

Nas seções eleitorais do bairro, as portas das vans eram abertas para embarque e desembarque por pessoas com a camisa amarela da campanha. Apesar de monocromática, a visão da favela vestida para a eleição entusiasmou a assistente social.

– Politicamente, a Rocinha vem evoluindo muito.

Mais de 70 líderes comunitários se juntaram em torno da proposta que era melhor para todos e não daquela que atendia a interesses particulares – disse Niura, empenhada em separar a opção em bloco da intimidação. – Os ruralistas escolhem seu representante, a federação das indústrias também. Por que a pobreza não pode ter seu candidato? Hoje, a Rocinha não tem um só candidato, mas uma chapa inteira alinhada com o mesmo movimento. Com as inaugurações recentes da Vila Olímpica e da Unidade de Pronto Atendimento, Lazaroni subiu a ladeira pela continuidade. Além de pedir votos para Dilma, Cabral, Lindberg Farias e Jorge Picciani, ele compartilha o espaço no santinho com a foto do candidato a deputado federal Marcelo Sereno (PT), braço direito de José Dirceu no Rio Na favela, a organização criminosa passa perto da atividade política e de qualquer outra.

No meio da panfletagem, à beira da Auto estrada LagoaBarra, um traficante coberto de ouro passava de moto com um homem armado de fuzil na garupa. Também circulava pela comunidade o temor de uma operação policial nos próximos dias.

– Não voto em candidato da favela porque não acredito neles, mas não vi ninguém do “movimento” (tráfico) fazendo força para a gente votar neles – disse um morador, sem se identificar.

A intimidação muitas vezes é silenciosa, mas a assistente social não tem medo de soltar a voz. Além de dizer que o tráfico não pode se envolver em política e projetos de longo prazo, porque a luta pela sobrevivência é diária, Niura combate a ideia de que a mobilização comunitária está associada ao crime: – Há uma tentativa de criminalizar a consciência política.

Nosso trabalho incomoda porque ninguém quer o morro politizado – disse, antes de lembrar que não é filiada a qualquer partido, nem tem domicílio eleitoral no Rio. – Vim de São Paulo para trabalhar aqui porque a Rocinha é uma África na Zona do Sul do Rio. Há 36 valas de esgoto a céu aberto e os maiores índices de TUBERCULOSE do país.

“Meu voto é minha vontade.

Não é a de ninguém” No Dona Marta, logo no início da chuvosa manhã de ontem, subir a ladeira era enfrentar a força das águas no sentindo contrário. Vias estreitas e degraus irregulares aumentavam o risco com o qual a estudante Angélica Nogueira, de 25 anos, já se acostumou a conviver, apesar da deficiência física. Para ela, segurança vai além da ocupação policial.

– Não temos corrimão nas escadas – disse, antes de votar à espera de melhorias.

No sentido contrário, Sebastião Silva, de 73 anos, voltava com o direito já exercido.

Há 60 anos no morro, o vigia diz que sempre se sentiu livre diante da vizinhança e da própria consciência na hora de escolher candidatos.

Sob a proteção policial ou a opressão do tráfico, o ritual é o mesmo, com sua boina enfiada na cabeça e cigarro no canto da boca.

– Meu voto é minha vontade.

Não é a de ninguém.

Em sua banca, Estevão admite que tenta ampliar o debate, mas a opinião pública é uma instituição que tem vida própria. Antes e depois da UPP, o jornaleiro fazia a informação circular na favela: – Todos os candidatos sempre ficaram à vontade aqui. O Lula já veio três vezes. As coisas estão melhorando, mas nada é da noite para o dia.

Depois de um ano e dez meses de UPP, houve uma mudança que só foi sentida ontem.

Sem o tráfico, a propaganda de boca de urna foi reprimida nos limites entre o morro e o asfalto.

Com isso, a distribuição de santinhos ficou restrita à parte alta da ladeira. Ali, no lugar da intimidação, a estratégia era a sedução.

– Olha como ela é novinha e bonitinha – dizia José Antonio Camelo diante do panfleto de Clarissa Matheus, filha do casal Garotinho.

A beleza é um conceito relativo, como a liberdade. A UPP pôs o estado no lugar do tráfico, mas o morro ainda tem um código particular, em que os olhares e os silêncios dizem muito sobre alianças e antagonismos, muito além do processo eleitoral. Com a polícia ou a política no comando, Dona Morta e Rocinha se encontram em suas diferenças.

 

O GLOBO | O PAÍS

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Claudio Souza DJ, Bloqueiro e Escritor
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