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Os rumos da AIDS no Brasil e no mundo

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Os rumos da AIDS no Brasil e no mundo aids ribbon 300x225Com ob­je­ti­vo de de­ba­ter a im­portância de ações efe­ti­vas di­an­te da epi­de­mia de AIDS no mun­do, foi re­a­li­za­da, de 22 a 27 de ju­lho, em Washing­ton, Es­ta­dos Uni­dos, a 19ª Con­ferência In­ter­na­ci­o­nal so­bre AIDS. Fo­ca­da nos de­ba­tes acer­ca dos tra­ta­men­tos pa­ra pre­ve­nir no­vas in­fecções e o uso es­tratégi­co da te­ra­pia an­tir­re­tro­vi­ral, a con­ferência te­ve co­mo te­ma Tur­ning the Ti­de To­gether – em tra­dução li­vre: Jun­tos pa­ra vi­rar a maré –, e reu­niu pes­qui­sa­do­res de to­do o pla­ne­ta pa­ra dis­cu­tir as pers­pec­ti­vas atu­ais e fu­tu­ras da do­ença, que até ju­nho de 2011 re­gis­trou 608.230 ca­sos (con­dição em que a do­ença já se ma­ni­fes­tou). De acor­do com da­dos do De­par­ta­men­to de DST, AIDS e He­pa­ti­tes Vi­rais do Mi­nistério da Saúde em 2010, fo­ram no­ti­fi­ca­dos 34.218 ca­sos da do­ença, e a ta­xa de in­cidência de AIDS no Bra­sil foi de 17,9 ca­sos por 100 mil ha­bi­tan­tes.

A pes­qui­sa­do­ra do De­par­ta­men­to de Ciênci­as So­ci­ais da Es­co­la Na­ci­o­nal de Saúde Públi­ca (Ensp/Fi­o­cruz) Mo­ni­ca Mal­ta es­te­ve pre­sen­te à con­ferência. Na opi­nião da pes­qui­sa­do­ra, ape­sar de abor­dar vári­os te­mas in­te­res­san­tes a res­pei­to da do­ença, as dis­cussões de­ve­ri­am ter si­do mais aber­tas e vol­ta­das pa­ra a ela­bo­ração de in­ter­venções cul­tu­ral­men­te mais ade­qua­das, apoio políti­co, questões es­tru­tu­rais, ser­viços e aces­so a in­su­mos me­lho­res e mui­tos ou­tros pon­tos, além das questões bi­omédi­cas de­ba­ti­das.

Mo­ni­ca ci­tou a si­tuação do Bra­sil, que atu­al­men­te vi­ve uma epi­de­mia con­cen­tra­da. Es­ti­ma-se que a pre­valência de HIV na po­pu­lação ge­ral (en­tre 15-49 anos) se­ja de 0,6%, per­cen­tu­al que se mantém estável des­de 2004. Es­tu­dos re­cen­tes iden­ti­fi­cam pre­valênci­as mui­to mai­o­res em gru­pos mais vul­neráveis, co­mo usuári­os de dro­gas ilíci­tas (5,9%), ho­mens que fa­zem se­xo com ho­mens (10,5%) e mu­lhe­res pro­fis­si­o­nais do se­xo (4,9%). Se­gun­do ela, o país pos­sui bo­as es­tratégi­as de pre­venção, mas elas pre­ci­sam me­lho­rar. Di­ver­si­fi­car as es­tratégi­as pa­ra al­cançar os di­fe­ren­tes gru­pos mais afe­ta­dos, pen­san­do em es­tratégi­as cul­tu­ral­men­te ade­qua­das e man­ten­do-as ao lon­go de to­do o ano, é um dos exem­plos ci­ta­dos por Mo­ni­ca. Anu­al­men­te, são no­ti­fi­ca­dos, no Bra­sil, mais de 30 mil no­vos ca­sos de AIDS.

A se­nho­ra acha que as me­di­das de pre­venção ado­ta­das pa­ra a AIDS são cor­re­tas?

Mo­ni­ca Mal­ta: O Bra­sil é um país que ado­ta uma boa políti­ca de pre­venção, e nos­sas cam­pa­nhas são ge­ral­men­te bas­tan­te di­re­tas. No en­tan­to, as mai­o­res cam­pa­nhas são vei­cu­la­das ape­nas em dois mo­men­tos do ano – du­ran­te o Car­na­val e próxi­mo ao dia 1° de de­zem­bro, Dia In­ter­na­ci­o­nal de Com­ba­te à AIDS. O ide­al se­ria que tivésse­mos o as­sun­to sen­do men­ci­o­na­do ao lon­go de to­do o ano em di­ver­sas mídi­as, de ma­nei­ra que a men­sa­gem es­ti­ves­se sem­pre sen­do dis­cu­ti­da.

A pre­venção da AIDS no Bra­sil está sur­tin­do efei­to? Há di­mi­nuição no núme­ro de ca­sos?

Mo­ni­ca: No Bra­sil, nós te­mos o que se cha­ma de uma epi­de­mia con­cen­tra­da. Es­ti­ma-se que a pre­valência de HIV na po­pu­lação ge­ral (en­tre 15-49 anos) se­ja de 0,6%, per­cen­tu­al que se mantém estável des­de 2004. No en­tan­to, es­tu­dos re­cen­tes iden­ti­fi­cam pre­valênci­as mui­to mai­o­res em gru­pos mais vul­neráveis, co­mo usuári­os de dro­gas ilíci­tas (5,9%), ho­mens que fa­zem se­xo com ho­mens (10,5%) e mu­lhe­res pro­fis­si­o­nais do se­xo (4,9%).

Ou­tra pre­o­cu­pação é a po­pu­lação jo­vem, que tem apre­sen­ta­do uma tendência de au­men­to da pre­valência de HIV. Con­si­de­ran­do as pes­qui­sas re­a­li­za­das com cons­cri­tos do Exérci­to, de 17 a 20 anos, a pre­valência nes­sa po­pu­lação pas­sou de 0,09% em 2002 pa­ra 0,12% em 2007. Es­se cres­ci­men­to é mai­or ain­da se olhar­mos ape­nas pa­ra jo­vens gays. Re­su­min­do, no Bra­sil, o HIV é uma in­fecção ra­ra se olhar­mos ape­nas pa­ra a po­pu­lação em ge­ral.

No en­tan­to, te­mos gru­pos mais vul­neráveis que apre­sen­tam pre­valênci­as as­sus­ta­do­ra­men­te mais al­tas que as en­con­tra­das na po­pu­lação em ge­ral. A pre­valência é 8 ve­zes mais al­ta em mu­lhe­res pro­fis­si­o­nais do se­xo, 10 ve­zes mais al­ta em usuári­os de dro­gas e 17 ve­zes mais al­ta em ho­mos­se­xu­ais mas­cu­li­nos. Lo­go, as es­tratégi­as de pre­venção pre­ci­sam ser di­ver­si­fi­ca­das pa­ra al­cançarem os di­fe­ren­tes gru­pos mais afe­ta­dos. É pre­ci­so pen­sar em es­tratégi­as cul­tu­ral­men­te ade­qua­das e mantê-las ao lon­go de to­do o ano. Anu­al­men­te, são no­ti­fi­ca­dos no Bra­sil mais de 30 mil no­vos ca­sos de AIDS. Do pon­to de vis­ta me­ra­men­te es­tatísti­co/epi­de­mi­ológi­co, te­mos uma epi­de­mia com tendência à es­ta­bi­li­zação. Mas, do pon­to de vis­ta hu­ma­no, es­ta­mos ven­do a ca­da ano apro­xi­ma­da­men­te 30 mil pes­so­as con­traírem uma in­fecção in­curável; in­fecção es­ta que po­de­ria ter si­do evi­ta­da. Te­mos bo­as es­tratégi­as de pre­venção, mas pre­ci­sa­mos me­lho­rar.

So­bre o fim da epi­de­mia, a OMS quer de­cretá-la. Is­so é possível?

Mo­ni­ca: Te­mos al­gu­mas es­tratégi­as mui­to efi­ca­zes co­mo, por ex­em­plo, a trans­missão do HIV du­ran­te a gra­vi­dez e par­to. É possível pen­sar, no médio pra­zo, na eli­mi­nação da trans­missão do HIV de mãe pa­ra recém-nas­ci­do. O HIV po­de ser trans­mi­ti­do du­ran­te a gra­vi­dez, no par­to ou pe­lo alei­ta­men­to ma­ter­no. Sem tra­ta­men­to, en­tre 15%-30% dos bebês irão con­trair HIV, ta­xa que po­de es­tar abai­xo de 5% com in­ter­venções efi­ca­zes. O pro­ble­ma prin­ci­pal é que mui­tas mu­lhe­res não têm aces­so ao pré-na­tal efi­caz, con­se­quen­te­men­te não são tes­ta­das e che­gam ao mo­men­to do par­to sem sa­ber se são ou não HIV po­si­ti­vas. Se­gun­do es­ti­ma­ti­vas do Pro­gra­ma Con­jun­to das Nações Uni­das so­bre HIV/AIDS (UnAIDS/OMS), de 1,5 mi­lhão de mu­lhe­res grávi­das e vi­ven­do com HIV em países de ren­da bai­xa e média em 2010, 48% re­ce­be­ram tra­ta­men­to efi­caz pa­ra pre­venção da trans­missão ma­ter­no in­fan­til, per­cen­tu­al que che­gou a 57% em 2011. Ou se­ja, ain­da te­mos um lon­go ca­mi­nho a per­cor­rer.

Es­se ex­em­plo ilus­tra o fa­to de que po­deríamos sim evi­tar qua­se a to­ta­li­da­de das trans­missões ma­ter­no in­fan­til do HIV, mas uma am­pla ga­ma de questões so­ci­ais, cul­tu­rais, es­tru­tu­rais e de aces­so a ser­viço pre­ci­sa ser re­sol­vi­da pa­ra con­se­guir­mos is­so. Em mui­tas re­giões, te­mos epi­de­mi­as for­te­men­te con­cen­tra­das em gru­pos mais vul­neráveis, co­mo, por ex­em­plo, ho­mos­se­xu­ais mas­cu­li­nos, mu­lhe­res tra­ba­lha­do­ras se­xu­ais e usuári­os de dro­gas. No en­tan­to, mui­tos países têm le­gis­lações que cri­mi­na­li­zam o tra­ba­lho se­xu­al, uso de dro­gas e se­xo en­tre ho­mens, o que em ge­ral faz com que es­ses gru­pos mais vul­neráveis en­fren­tem di­fi­cul­da­des adi­ci­o­nais re­la­ci­o­na­das à dis­cri­mi­nação e es­tig­ma, o que di­fi­cul­ta seu aces­so a es­tratégi­as de pre­venção, tes­ta­gem e tra­ta­men­tos ade­qua­dos.

Sem pen­sar em questões es­tru­tu­rais mais am­plas, sem abor­dar as­pec­tos re­la­ti­vos aos di­rei­tos hu­ma­nos, sem pen­sar em in­ves­ti­men­to sus­tentável ao lon­go do tem­po, é mui­to difícil ide­a­li­zar um mun­do sem AIDS. Mas ine­ga­vel­men­te es­ta­mos ca­mi­nhan­do a pas­sos lar­gos e con­se­guin­do al­cançar res­pos­tas mais efi­ca­zes. Bas­ta olhar­mos pa­ra a déca­da de 1980, quan­do ter um di­agnósti­co de HIV era qua­se uma sen­tença de mor­te, e com­pa­rar­mos com a qua­li­da­de e ex­pec­ta­ti­va de vi­da de uma pes­soa vi­ven­do com HIV/AIDS atu­al­men­te. Ho­je em dia, a ex­pec­ta­ti­va de vi­da de al­guém com HIV/AIDS é se­me­lhan­te a al­guém que não tem a in­fecção, des­de que se­ja as­se­gu­ra­do o aces­so ao tra­ta­men­to e acom­pa­nha­men­to efi­caz. Co­mo na músi­ca de Raul Sei­xas, “o so­nho que se so­nha só é só um so­nho que se so­nha só, mas so­nho que se so­nha jun­to é re­a­li­da­de.” Te­mos de unir es­forços pa­ra al­cançar es­se ide­al, uma ge­ração li­vre da AIDS é difícil, mas não é im­possível.

No que diz res­pei­to ao tra­ta­men­to, co­mo você o con­si­de­ra? Ele é efi­caz? To­dos os so­ro­po­si­ti­vos re­ce­bem o tra­ta­men­to an­tir­re­tro­vi­ral?

Mo­ni­ca: O tra­ta­men­to an­tir­re­tro­vi­ral é ex­tre­ma­men­te efi­caz, os es­tu­dos re­cen­tes apon­tam que, no Bra­sil, a prin­ci­pal pre­o­cu­pação é o di­agnósti­co tar­dio. Ou se­ja, te­mos uma ex­ce­len­te pro­pos­ta de ofe­re­cer tes­ta­gem, tra­ta­men­to e acom­pa­nha­men­to médi­co e la­bo­ra­to­ri­al gra­tui­tos pa­ra to­das as pes­so­as vi­ven­do com HIV/AIDS no país. Mas se o pa­ci­en­te des­co­bre a in­fecção tar­di­a­men­te, aca­ba não se be­ne­fi­ci­an­do des­sa políti­ca de aces­so gra­tui­to e uni­ver­sal ao tra­ta­men­to, que co­lo­cou o Bra­sil co­mo um mo­de­lo a ser se­gui­do por ou­tros países de ren­da média bai­xa.

No en­tan­to, em­bo­ra o Sis­te­ma Úni­co de Saúde (SUS) for­neça to­do o tra­ta­men­to pa­ra AIDS, é fre­quen­te a fal­ta de me­di­ca­men­tos pa­ra tra­tar in­fecções opor­tu­nis­tas co­muns en­tre pes­so­as vi­ven­do com HIV/AIDS. Também não é ra­ro o re­la­to de pa­ci­en­tes com di­fi­cul­da­des pa­ra con­se­guir tra­ta­men­to pa­ra al­gu­ma coin­fecção co­mo he­pa­ti­tes vi­rais, ou exa­mes mais so­fis­ti­ca­dos e ne­cessári­os pa­ra o bom ma­ne­jo do pa­ci­en­te. In­fe­liz­men­te, também não é ra­ro ou­vir­mos re­la­tos de ex­pe­riênci­as de dis­cri­mi­nação e es­tig­ma den­tro dos ser­viços de saúde, re­la­to mui­to co­mum, por ex­em­plo, en­tre pa­ci­en­tes que são usuári­os de dro­gas. Mui­tas ve­zes, fal­tam trei­na­men­to e sen­si­bi­li­zação das equi­pes de saúde pa­ra ofe­re­cer um tra­ta­men­to ade­qua­do, res­pei­to­so e que pos­si­bi­li­te ao pa­ci­en­te se sen­tir aco­lhi­do no ser­viço. Em re­su­mo, te­mos uma políti­ca mui­to boa no que se re­fe­re aos an­tir­re­tro­vi­rais, mas ain­da te­mos mui­to a me­lho­rar pa­ra re­al­men­te ofe­re­cer di­agnósti­co pre­co­ce e tra­ta­men­to gra­tui­to e uni­ver­sal.

Em re­lação à va­ci­na, qual é re­al­men­te sua eficácia? Ela pre­vi­ne a con­ta­mi­nação?

Mo­ni­ca: No mo­men­to, não exis­te va­ci­na efi­caz pa­ra pre­ve­nir a in­fecção pe­lo HIV. Des­de 1987, mais de 30 possíveis va­ci­nas fo­ram tes­ta­das em es­tu­dos clíni­cos, com re­sul­ta­dos pouquíssi­mos sa­tis­fatóri­os. Por ex­em­plo, em um es­tu­do re­a­li­za­do na Tailândia com mais de 16 mil adul­tos, foi iden­ti­fi­ca­do que uma das va­ci­nas tes­ta­das ti­nha eficácia de 31%. É um per­cen­tu­al mui­to pe­que­no e in­sa­tis­fatório pa­ra uma va­ci­na, por is­so ain­da te­mos um lon­go ca­mi­nho a per­cor­rer nes­sa área, e mun­di­al­men­te di­ver­sos gru­pos de pes­qui­sa estão se de­bruçan­do so­bre es­sa questão.

Exis­tem no­vi­da­des so­bre os me­di­ca­men­tos uti­li­za­dos no com­ba­te à do­ença? O que foi de­ba­ti­do na con­ferência a es­se res­pei­to?

Mo­ni­ca: Exis­tem no­vos me­di­ca­men­tos sen­do de­sen­vol­vi­dos, e a ten­ta­ti­va é ob­ter me­di­ca­men­tos que apre­sen­tem me­nos efei­tos co­la­te­rais e me­nos do­ses por dia, ob­je­ti­van­do fa­ci­li­tar a aderência do pa­ci­en­te. O de­sen­vol­vi­men­to de me­di­ca­men­tos mais ade­qua­dos pa­ra cri­anças e ado­les­cen­tes foi ou­tro as­sun­to iden­ti­fi­ca­do, exis­tem mui­tos me­di­ca­men­tos an­tir­re­tro­vi­rais dis­poníveis, mas nem to­dos são ade­qua­dos pa­ra es­se gru­po. E a gran­de questão que vol­ta a are­na de de­ba­te é quan­do co­meçar o tra­ta­men­to. A mai­o­ria dos do­cu­men­tos de di­re­tri­zes clíni­cas su­ge­re o início do tra­ta­men­to an­tir­re­tro­vi­ral pa­ra pa­ci­en­tes com uma con­ta­gem de célu­las CD4 (glóbu­los bran­cos que atu­am no sis­te­ma imu­nológi­co) in­fe­ri­or a 350/mm3. No en­tan­to, al­gu­mas apre­sen­tações su­ge­rem que mu­lhe­res grávi­das que fi­ze­rem a pro­fi­la­xia an­tir­re­tro­vi­ral du­ran­te a gra­vi­dez de­verão man­ter o tra­ta­men­to de­pois do par­to, in­de­pen­den­te de sua con­ta­gem de célu­las CD4. Ou­tros es­tu­dos su­ge­rem ava­li­ar jun­to com o pa­ci­en­te a pos­si­bi­li­da­de de ini­ci­ar o tra­ta­men­to pa­ra to­dos com con­ta­gem de CD4 in­fe­ri­or a 500/mm3. E ou­tros gru­pos ain­da su­ge­rem que to­do pa­ci­en­te com um exa­me po­si­ti­vo pa­ra HIV de­ve­ria ini­ci­ar o tra­ta­men­to. São questões com­ple­xas que de­verão con­ti­nu­ar sen­do dis­cu­ti­das pe­la co­mu­ni­da­de ci­entífi­ca e en­vol­vem as­pec­tos re­la­ci­o­na­dos à dis­po­ni­bi­li­da­de de ver­bas, aderência do pa­ci­en­te, ca­pa­ci­da­de pa­ra aten­der ao au­men­to da de­man­da, en­tre inúme­ras ou­tras questões.

O que foi de­ba­ti­do na con­ferência em re­lação às fu­tu­ras pers­pec­ti­vas pa­ra a do­ença?

Mo­ni­ca: Um dos te­mas cen­trais dis­cu­ti­do em di­ver­sas me­sas foi a bus­ca de uma ge­ração li­vre da AIDS a cur­to e médio pra­zos. Mui­tos gru­pos de pes­qui­sa­do­res iden­ti­fi­cam que a ta­xa de in­fecções por HIV está su­pe­ran­do a ca­pa­ci­da­de mun­di­al de me­di­car as pes­so­as. Se­gun­do a Or­ga­ni­zação Mun­di­al da Saúde (OMS), pa­ra ca­da pes­soa que ini­cia um tra­ta­men­to com an­tir­re­tro­vi­rais, dois no­vos in­divídu­os são in­fec­ta­dos com HIV. Em­bo­ra a cu­ra ain­da se­ja um pro­je­to dis­tan­te, al­gu­mas pes­qui­sas têm bus­ca­do iden­ti­fi­car a pos­si­bi­li­da­de de er­ra­di­car o vírus do cor­po de uma pes­soa, e ou­tras ca­mi­nham em bus­ca de uma es­tratégia que con­si­ga per­su­a­dir o cor­po a con­tro­lar o vírus so­zi­nho.

Uma das ex­po­sições bas­tan­te de­ba­ti­da foi a que apre­sen­tou os re­sul­ta­dos do acom­pa­nha­men­to de 14 pa­ci­en­tes HIV po­si­ti­vos por pes­qui­sa­do­res do Ins­ti­tu­to Pas­teur, a pes­qui­sa Cohort Vis­con­ti. Os pa­ci­en­tes ini­ci­a­ram o tra­ta­men­to an­tir­re­tro­vi­ral lo­go de­pois do di­agnósti­co de HIV, o que não é a re­co­men­dação usu­al de tra­ta­men­to. Per­ma­ne­ce­ram re­ce­ben­do os me­di­ca­men­tos du­ran­te três anos mais ou me­nos e de­pois sus­pen­de­ram o tra­ta­men­to. Após apro­xi­ma­da­men­te se­te anos, os pa­ci­en­tes ain­da apre­sen­tam ta­xas bai­xas de vírus no san­gue, men­su­ra­do pe­lo exa­me de car­ga vi­ral, o que os pes­qui­sa­do­res cha­mam de “cu­ra fun­ci­o­nal”. Co­mo foi um es­tu­do mui­to pe­que­no, não é possível che­gar a ne­nhu­ma con­clusão de­fi­ni­ti­va, mas é uma área de pes­qui­sa que de­verá ser mais bem in­ves­ti­ga­da pa­ra po­der­mos ter cla­re­za de quan­do é mais efi­caz co­meçar o tra­ta­men­to an­tir­re­tro­vi­ral.

Ou­tro te­ma mui­to dis­cu­ti­do foi a questão do tra­ta­men­to an­tir­re­tro­vi­ral co­mo pre­venção – em in­glês Tre­at­ment as Pre­ven­ti­on (Tasp). Um ex­em­plo efi­caz de Tasp é a pre­venção da trans­missão ma­ter­no in­fan­til do HIV que men­ci­o­nei an­te­ri­or­men­te. Mui­tos es­tu­dos apon­tam que pes­so­as vi­ven­do com HIV/AIDS em tra­ta­men­to an­tir­re­tro­vi­ral efi­caz que al­cançam o con­tro­le da in­fecção, men­su­ra­do pe­lo exa­me de car­ga vi­ral (quan­ti­da­de de vírus do HIV no san­gue), e não estão coin­fec­ta­das com ou­tras in­fecções se­xu­al­men­te trans­missíveis re­du­zem bas­tan­te o ris­co de trans­missão pa­ra um par­cei­ro se­xu­al HIV ne­ga­ti­vo. Va­le res­sal­tar que o ris­co é re­du­zi­do, mas não é ine­xis­ten­te. Ou se­ja, o uso con­sis­ten­te do pre­ser­va­ti­vo ain­da é a es­tratégia de pre­venção mais efi­caz exis­ten­te.

No fun­do, não po­de­mos es­pe­rar uma ma­gic bul­let, ou pílu­la mági­ca. Pa­ra al­cançar­mos o so­nho de uma ge­ração li­vre da AIDS, é pre­ci­so mui­to tra­ba­lho, ela­bo­ração de in­ter­venções cul­tu­ral­men­te ade­qua­das e de­sen­vol­vi­das em par­ce­ria com os gru­pos mais vul­neráveis, apoio políti­co e am­pla ga­ma de in­ter­venções que vão mui­to além da ofer­ta de uma pílu­la mági­ca, mas que pas­sa por questões es­tru­tu­rais, ser­viços mais ade­qua­dos, aces­so a in­su­mos de pre­venção pa­ra além do pre­ser­va­ti­vo mas­cu­li­no (ex: pre­ser­va­ti­vo fe­mi­ni­no, mi­cro­bi­ci­das), tes­ta­gem, tra­ta­men­to, apoio so­ci­al e psi­cológi­co. Pa­ra con­se­guir­mos vi­rar a maré, co­mo foi o te­ma da con­ferência, é pre­ci­so mui­to mais que ofe­re­cer ape­nas in­ter­venções bi­omédi­cas.

A se­nho­ra con­cor­da com os pon­tos de­ba­ti­dos na con­ferência? Acha que ou­tros pon­tos im­por­tan­tes de­ve­ri­am ter en­tra­do na pau­ta?

Mo­ni­ca: Par­ti­cu­lar­men­te, achei a con­ferência in­te­res­san­te, bem or­ga­ni­za­da e com tra­ba­lhos de pon­ta sen­do apre­sen­ta­dos. No en­tan­to, foi uma con­ferência que de­di­cou boa par­te do pro­gra­ma pa­ra questões es­tri­ta­men­te bi­omédi­cas, as quais po­de­ri­am ter si­do re­su­mi­das nes­sa con­ferência e dis­cu­ti­das mais pro­fun­da­men­te nos even­tos es­pe­ci­fi­ca­men­te clíni­cos que ocor­rem anu­al­men­te, co­mo o Con­fe­ren­ce on Re­tro­vi­ru­e­ses and Op­por­tu­nis­tic In­fec­ti­ons (CROI).

Ou­tra questão que não te­ve mui­to es­paço, em mi­nha opi­nião, foi a dis­cussão acer­ca da po­pu­lação car­cerária. Os Es­ta­dos Uni­dos têm a mai­or po­pu­lação car­cerária do mun­do (mais de 2 mi­lhões de pes­so­as), e es­se te­ma de­ve­ria ter si­do abor­da­do de for­ma mais apro­fun­da­da. Por fim, a di­fi­cul­da­de de ob­ter o vis­to de en­tra­da nos Es­ta­dos Uni­dos im­pos­si­bi­li­tou a vin­da de mui­tos re­pre­sen­tan­tes de po­pu­lações mais vul­neráveis, co­mo usuári­os de dro­gas e tra­ba­lha­do­res se­xu­ais. Is­so foi um pon­to ne­ga­ti­vo da con­ferência, e não acre­di­to que pos­sa­mos dis­cu­tir es­tratégi­as de en­fren­ta­men­to da epi­de­mia de AIDS sem in­cluir no de­ba­te jus­ta­men­te aque­les que estão vi­ven­ci­an­do o pro­ble­ma e, mui­tas ve­zes, têm ex­pe­riênci­as im­por­tantíssi­mas que po­derão aju­dar pro­fis­si­o­nais de saúde e pes­qui­sa­do­res a ela­bo­ra­rem es­tratégi­as cul­tu­ral­men­te mais ade­qua­das e, mui­to pro­va­vel­men­te, mais efi­ca­zes. No ge­ral, foi uma boa con­ferência, mas po­de­ria ter ti­do mais vo­zes, mais de­ba­te, mais co­lo­ri­do, en­fim, mais vi­da.

Ta­ti­a­ne Var­gas

Profissão Repórter – 16/08/11 – AIDS No Brasil, Parte 1

Profissão Repórter – 16/08/11 – AIDS No Brasil, Parte 2

 


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