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Quer seja descrita como “prevenção combinada” quer como “prevenção contra a infecção VIH altamente eficaz”, na Conferência Internacional da SIDA na Cidade do México, foi enfatizada a necessidade de programas de prevenção em múltiplas frentes. Tal foi particularmente sublinhado numa sessão especial convocada pela revista The Lancet a 5 de Agosto, onde alguns dos mais cotados investigadores apelaram ao reforço da prevenção do VIH, tal como tem sido feito com as campanhas que visam garantir o acesso universal ao tratamento para o VIH. Jeff O’Malley do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas disse que a história da prevenção contra o VIH foi uma história de soluções separadas e falhadas. Embora muitos oradores estivessem optimistas quanto ao facto de um microbicida bem sucedido ou um produto de profilaxia de pré-exposição poder ser produzido em breve, afirmou-se que novas tecnologias de prevenção como estas não tornarão o trabalho sobre a mudança de comportamentos obsoleto, mas será necessário que seja mais eficaz. Thomas Coates da Universidade de Califórnia afirmou que, confiar apenas em uma ou duas estratégias de prevenção seria equivalente a usar monoterapia para controlar o VIH, o que é ineficaz. Argumentou que qualquer intervenção de prevenção de sucesso, até a data, foi sempre o resultado de “uma combinação de múltiplas estratégias e várias opções de redução de riscos com forte liderança e envolvimento da comunidade que tenha sido mantida durante um longo período de tempo”. A prevenção requer por isso:
Os sucessos da prevenção envolveram geralmente esforços iniciais dos activistas das comunidades confrontando o estigma e a negação associada ao VIH e com subsequente liderança política forte. Os oradores sublinharam que intervenções para mudanças de comportamento comprovadas e novas tecnologias de prevenção terão apenas um impacto limitado se realizadas em ambientes sem justiça social e sem respeito pelos direitos humanos. Não foi a primeira vez que houve um apelo para que a prevenção do VIH aborde factores, tais como, a pobreza e a marginalização de género e social. No entanto, Jessica Ogden, do Centro Internacional de Investigação sobre Mulheres em Washington DC, disse que tal ênfase estava, desde há muito tempo atrasada, para que se pudesse pensar tratar o VIH como uma emergência de curto prazo. E que é necessário planear uma resposta a longo prazo. Mesmo assim, reconheceu que a incorporação de tais abordagens na prevenção do VIH coloca desafios. A relação entre um factor estrutural e o comportamento de risco para o VIH é complexa e difícil de definir. Além disso, a mudança social não é um processo que possa ser implementado de cima para baixo e pré-planeado, mas é dinâmico e imprevisível porque envolve muitos factores e não pode, geralmente, ser replicado de um ambiente social para outro. Nancy Padian, da Women’s Global Health Imperative, recapitulou o espectro das intervenções biomédicas disponíveis para bloquear a infecção pelo VIH. Rejeitou a habitual divisão histórica das intervenções em tratamento e prevenção e, em vez disso, propôs juntar todas as intervenções que dependem do uso dos medicamentos anti-retrovirais, o que tem o benefício de dispor de muitas intervenções comprovadas e validar algumas das mais prometedoras que juntam os dois aspectos. O uso de medicamentos anti-retrovirais (ARVs) para prevenir a transmissão mãe-filho e na profilaxia de pós-exposição está já bem comprovado. Foi objecto de numerosos debates o efeito do uso deste medicamentos na redução abrupta da infecciosidade das pessoas com VIH. Além disso, há a esperança de que os “anti-retrovirais orais” sejam eficazes como profilaxia pré-exposição (PreP). Os microbicidas mais prometedores, após os resultados decepcionantes com outros produtos, usam medicamentos ARVs e são agora, muitas vezes denominados “preparados tópicos anti-retrovirais”. Sublinhou, também, a necessidade da adesão consistente para o uso de estratégias biomédicas e comparou as estratégias que requereriam um único ou um número limitado de decisões (circuncisão, vacina) com as que requerem uma adesão diária (tratamento de infecções sexualmente transmissíveis, anti-retrovirais orais, anti-retrovirais tópicos). O maior desafio para a adesão envolve técnicas, como o uso consistente de preservativos masculinos, que requerem a adesão durante todo a vida activa sexual. Sobre o tópico da mudança de comportamentos, Thomas Coates avisou os investigadores de prevenção para não tentarem reduzir o sexo a um “acto anti-séptico”. Os seres humanos têm sexo “por uma multiplicidade de razões: para procriar, por prazer, por dinheiro ou porque não têm escolha” e a prevenção requer mudanças significativas e radicais nesta que é a mais complexa das actividades humanas. Não foi o único orador a criticar o pressuposto de que a prevenção do VIH devia ser tratada como a restante prática médica relacionada com a infecção pelo VIH e ser testada em ensaios randomizados controlados antes de ser adoptada. “Tornamo-nos escravos dos ensaios randomizados controlados e adaptamos as intervenções à ciência”, afirmou Coates. “Temos que adaptar a ciência às intervenções.” Stefano Bertozzi, Director do Departamento de Economia no Instituto Nacional de Saúde, disse que a prevenção do VIH não inverteu o curso da epidemia por três razões:
Bertozzi falou principalmente sobre o terceiro ponto. Declarou que o dinheiro tinha sido desperdiçado por duas razões. Primeira, os fundos tinham ido para intervenções sem eficácia comprovada e avaliação. Disse que, com demasiada frequência, “fizemos sem aprender enquanto fazíamos”. Elementos de investigação operacional deveriam ser construídos para todos os programas de prevenção e os programas têm de ter a capacidade de ser inteiramente alterados se não estão a chegar às pessoas na idade certa, com o perfil de risco que se quer ou a chegar aos sítios certos. Declarou também que o dinheiro foi frequentemente desperdiçado devido a altos custos, fraca qualidade e baixa cobertura em muitos programes. Apresentou um gráfico que mostra que, regra geral, o custo por teste nos centros de teste voluntário e gratuito com pré e pós aconselhamento, desceu nos últimos anos por se ter introduzi Sublinhou a necessidade urgente de parcerias público/privadas para a prevenção, como acontece na Índia, onde o financiamento, responsabilidade e implementação da prevenção do VIH está partilhada entre o Governo Central, os Estados e o Instituto Avahan, um iniciativa de prevenção financiada pela Fundação Gates, que em alguns estados gere a maioria dos programas. O Instituto Avahan recrutou pessoal do sector privado e usa modelos empresariais para garantir que os métodos de prevenção são dirigidos consistentemente às populações mais em risco. Peter Piot, Director Executivo da ONUsida of UNAIDS, também chamou a atenção para o projecto Avahan como merecedor de elogios. Concordou com Tom Coates, que a prevenção do VIH deve ”gerar mudanças sociais de modo sistemático” e com todos os outros oradores que a procura da “varinha mágica” na prevenção era coisa do passado, comentando que usar apenas uma ou duas estratégias pode ser contraproducente. Peter Piot apelou de novo à “Liderança política e técnica sustentada” na prevenção do VIH e “coragem política nos campos da sexualidade, género, uso de drogas e redução de riscos”. Pediu também a participação dos activistas na prevenção, citando o bom exemplo do Treatment Action Campaign in South Africa que, apesar do nome, fez uma campanha vigorosa a favor da educação sexual e existência de preservativos nas escolas. Piot pediu à comunidade de activistas VIH para ajudarem a desenvolver um “quadro de trabalhadores da comunidade competentes em prevenção.” O ponto de Peter Piot sobre coragem política foi ironicamente recolocado no fim da sessão, quando uma activista trabalhadora do sexo agarrou o microfone e perguntou porque é que a UNOSIDA não tinha dado liderança e apoio aos programas de prevenção para os trabalhadores sexuais. É claro que a prevenção eficaz do VIH assenta na procura de soluções para um conjunto complexo de desafios científicos, sociológicos, estruturais e políticos, mas já existem suficinetes modelos positivos em prática que permitem perceber que estes desafios podem ser resolvidos. A edição especial do The Lancet publicada em Agosto 2008 inclui análises completas dos modelos de prevenção VIH por diversos autores, nomeadamente pelos oradores desta sessão.
http://www.agenciaaids.com.br/site/noticia.asp?id=1038http://www.avozdocidadao.com.br/detailAgendaCidadania.asp?ID=1242 |
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