Tuberculose resistente a drogas preocupa

Tuberculose Resistente

Tem crescido o número de casos de Tuberculose Resistente no Mundo. Geralmente tratável, a TBR é uma doença fatal

Logo que o dia raiou, em 16 de ju­lho, uma mul­h­er pequen­ina em­pur­rava um baú metálico para den­tro de um tr­em, parando um mo­mento para tossir no lenço es­tam­pado am­ar­rado na cabeça. Seu mar­ido car­regava uma jarra de água tão grande que a cena chegava a ser cômica.

Você re­solveu levar o lago Powai na viagem!, disse Rahi­ma Sheikh ao mar­ido, brin­cando, refer­indo-se a um lago perto de Mum­bai. Ela o ajudou a colo­car o jarro de­baixo do as­sento.

Pon­tu­al­mente às 6h35 o Ex­presso Gorakh­pur par­tiu da es­tação, le­vando Sheikh em uma viagem de 1.700 quilômet­ros até sua casa, onde pre­ten­dia es­per­ar a morte.

Nos últi­mos seis anos, Sheikh, de 40 anos, hi­po­te­cou os ar­rozais da família, gastou as eco­nomi­as da vida in­teira de seu pai e seu irmão, e at­raves­sou a Índia de lado a lado em busca de uma cura para sua tuber­cu­lose res­ist­ente. Mas, em vez de re­cu­per­ar a saúde, ficou cada vez mais res­ist­ente aos medic­a­men­tos, e se tornou um dos primeir­os casos doc­u­menta­dos na Índia de um tipo de tuber­cu­lose res­ist­ente a prat­ica­mente to­dos os medic­a­men­tos já aprova­dos para a doença.

Nas últi­mas déca­das a tuber­cu­lose, uma in­fecção fatal em que o doente tosse sangue, ger­al­mente era tratável. O The Wall Street Journ­al ex­amin­ou re­gis­tros médi­cos de Sheikh abrangendo vári­os anos, en­trev­istou seus médi­cos e técni­cos em tuber­cu­lose em vári­os lugares da Índia e a acom­pan­hou em suas via­gens em busca de trata­mento.

A comunid­ade mun­di­al está pre­ocu­pada com o perigo. Autor­id­ades da saúde pediram que a Índia e out­ros países com cres­cente res­istência a dro­gas ad­otem me­di­das mais de­ci­sivas.

A doença, mesmo quando tratável, ainda é uma pre­ocu­pação de saúde pública em vári­os países. No Brasil, 2011 foi o primeiro ano em que o número de casos ficou abaixo de 70.000, se­gundo o Min­istério da Saúde: fo­ram 69.245 re­gis­tros. Mas ela ainda é a quarta maior causa de óbi­tos por doenças in­fec­cio­sas no país, afirma o min­istério.

A Índia não tem uma con­t­agem nacion­al dos pa­cientes res­ist­entes a um ou mais dos 12 medic­a­men­tos con­tra a tuber­cu­lose mais util­iz­a­dos. O gov­erno cita um estudo feito no Es­tado de Gu­jar­at mostrando que ali menos de 3% dos doentes são res­ist­entes a pelo menos os dois remédi­os mais po­der­osos.

Es­pe­cialis­tas dizem que esses númer­os subestim­am grave­mente o prob­lema. Estudos menores mostram que 13% ou mais dos pa­cientes recém-dia­gnost­ic­a­dos com tuber­cu­lose estão in­fecta­dos com ce­pas mul­tir­res­ist­entes.

A tuber­cu­lose ger­al­mente é trans­mitida pela prox­im­id­ade de pa­cientes com tosse. Mas até mesmo a ex­posição pro­longada nem sempre res­ulta em in­fecção. O mar­ido de Sheikh e três fil­hos não têm TB, apesar de anos de con­tato próximo.

Em 2000, a Índia se com­pro­met­eu, como parte de uma ini­ci­ativa das Nações Uni­das, a cor­tar pela met­ade a pre­v­alência e as mor­tes por tuber­cu­lose até 2015. Mas, apesar da criação de 13.000 centros de dia­gnóstico, o país ainda está longe des­sas metas. A doença está em de­clínio, mas ainda at­inge 2,3 milhões de in­di­anos anu­al­mente, e mata mais in­di­anos do que qualquer outra in­fecção.

Na Índia, tratar um pa­ciente que é res­ist­ente a vári­as dro­gas custa mais de US$ 2.000 ao longo de pelo menos dois anos – em com­paração com US$ 10 para o trata­mento da TB comum, por seis meses. E en­quanto a TB comum é prat­ica­mente curável, os estudos mostram que entre 30% e 50% dos pa­cientes res­ist­entes a múltip­los fárma­cos não se curam nunca, mesmo sob trata­mento.

Não está claro como Sheikh con­traiu a tuber­cu­lose, mas ela se lem­bra de quando ficou sabendo. Es­tava em sua aldeia em ju­lho de 2006, quando pegou uma tosse per­sist­ente.

Em 8 de setem­bro daquele ano ela ini­ciou o trata­mento em uma clínica do gov­erno, en­trando no re­gime padrão de seis meses.

De­pois de um mês, ela cus­piu sangue. Fiquei com muito medo, ela re­corda. Fez então uma viagem de tr­em de 35 hor­as até Mum­bai, onde o mar­ido pro­met­eu levá-la para con­sul­tar-se com médi­cos VIP.

Mas em Mum­bai, dis­seram-lhe que o pro­grama in­di­ano de TB ofere­cia o mesmo trata­mento em to­dos os lugares do país; e as­sim, ela voltou para a sua aldeia.

Com isso ela per­deu um mês de trata­mento, pois o pro­grama exi­gia que o pa­ciente fosse até a clínica e to­masse seus medic­a­men­tos na presença de um técnico em TB. Parar de to­mar os medic­a­men­tos e de­pois rein­iciá-los pode ger­ar ce­pas res­ist­entes da bactéria que causa a doença.

Os países mais ri­cos primeiro test­am os pa­cientes para veri­fi­car sua res­istência a dro­gas, antes de re­ceit­ar medic­a­men­tos. Dessa forma, o trata­mento pode ser ad­aptado para com­bater a res­istência.

O gov­erno in­di­ano tem de­mor­ado para ini­ciar os testes de res­istência em to­do o país.

Em­bora Sheikh to­masse seus remédi­os, con­tinuava test­ando pos­it­ivo. Ela sempre voltava à clínica, e a sua doença só dava res­ultado pos­it­ivo, disse Ram­day­al Tiwari, técnico loc­al de TB. Nós não sabíamos o que fazer. Tiwari e sua equipe a en­vi­aram para um pneu­mo­lo­gista cha­mado M.P. Singh.

Na maior parte da Índia, o gov­erno ainda não paga pelos testes nem pelo trata­mento da tuber­cu­lose res­ist­ente a medic­a­men­tos. Sheikh era pobre, mas tinha um irmão mais velho, Abid­ula Sid­diqui, com condições e desejo de ajudar.

Singh pe­diu um teste de res­istência a dro­gas, o primeiro feito por Sheikh. Ela já es­tava em trata­mento havia quase um ano.

Os res­ulta­dos fo­ram piores do que o es­per­ado. Ela era res­ist­ente a nove das dro­gas test­a­das.

Há 17 medic­a­men­tos re­comenda­dos pela Or­gan­ização Mun­di­al da Saúde para tuber­cu­lose, mas nem to­dos são iguais. As dro­gas de primeira linha são as mais eficazes e menos tóxicas. As de se­gunda linha têm atuação mais fraca e causam mais efei­tos colat­erais. Quando os médi­cos chamam um pa­ciente de total­mente res­ist­ente, isso sig­ni­fica que a pess­oa não re­sponde a nen­huma droga de primeira linha, nem a prat­ica­mente to­dos os trata­men­tos comuns de se­gunda linha.

Médi­cos e pesquis­ad­ores que ex­am­in­aram o caso de Sheikh dizem que ela provavel­mente foi in­fectada já com uma cepa mais res­ist­ente da tuber­cu­lose. Esses pa­cientes ainda po­dem ser cura­dos, dizem os es­pe­cialis­tas. Mas isso re­quer testes de res­istência e um trata­mento per­son­al­iz­ado e agress­ivo.

Os médi­cos nem sempre con­hecem nem seguem es­sas etapas. E mesmo que as conheçam, pode não haver labor­atóri­os próxi­mos capazes de real­iz­ar os testes.

No caso de Sheikh, esses pro­ced­i­men­tos não fo­ram seguid­os.

A autor­id­ade in­di­ana mais alta en­car­regada da TB, Ashok Ku­mar, in­siste que a res­istência às dro­gas não é um prob­lema grave na Índia. Ku­mar disse ao WSJ que TB é mais fácil de lid­ar do que doenças como dia­betes e hiper­tensão.

Mesmo as­sim, disse ele, a Índia planeja começar a fazer testes de res­istência mais cedo, e em al­gu­mas regiões já está fazendo. Mas fazer testes de res­istência em âmbito nacion­al ex­ige con­stru­ir nov­os labor­atóri­os, o que levará vári­os anos.

Singh, que re­con­hece não ser es­pe­cialista no trata­mento da TB res­ist­ente a dro­gas, disse que tentou seguir as ori­entações para o trata­mento da res­istência. A OMS re­comenda a pre­scrição de pelo menos quatro medic­a­men­tos que pos­sam dar bom res­ultado no pa­ciente – o que sig­ni­fica que ele não demon­strou res­istência a eles, nem ficou mais doente ao tomá-los.

Sheikh começou a to­mar as quatro dro­gas re­ceit­a­das pelo médico. Mesmo as­sim, os cala­fri­os e a tosse con­tinuavam fortíssi­mos.

Es­pe­cialis­tas que ex­am­in­aram seu prontuário para o WSJ dizem que o coquetel de dro­gas re­ceit­ado por Singh era fraco de­mais para matar a cepa em questão. As­sim, as bactéri­as provavel­mente en­traram em mutação, dis­seram eles. Na ver­dade, em nov­os testes real­iz­a­dos quatro anos de­pois, ela havia desen­volvido res­istência a duas das quatro dro­gas do re­gime de Singh.

Singh re­cente­mente reex­amin­ou seu trata­mento para Sheikh. Em ret­ro­specto, disse ele, dever­ia ter do­brado a dose de uma das dro­gas. Disse também que po­der­ia ter usado dro­gas mais for­tes, como a capreo­micina. Mas nunca a re­ceitei para ela, porque custa 204 rúpi­as por dose. É muito caro. E também é muito tóxico. Ela era muito sensível.

Ainda as­sim, ele não acred­ita que seu re­gime a tornou mais res­ist­ente a dro­gas, e não sabe dizer por que seu trata­mento não ajudou; disse apen­as que a res­istência é ex­trema­mente difícil de tratar.

Sheikh ficou sob os cuid­a­dos de Singh dur­ante mais de um ano. No fim de 2008, o médico disse ao irmão dela: Leve-a para um lugar mel­hor.

Sheikh e o irmão fo­ram para a cid­ade de Kan­pur, no norte da Índia, onde pro­cur­aram a clínica de S.K. Kati­yar.

Kati­yar diz que ex­amin­ou o prontuário de Sheikh e lhe deu uma chance de sobre­vivência de menos de 50%.

O irmão de Sheikh disse ao médico que es­tava dis­posto a pagar pelo trata­mento de qualquer maneira. E en­tregou os res­ulta­dos do teste de Sheikh de res­istência aos medic­a­men­tos.

Kati­yar não quis ver os papéis. Não pre­ciso disso, disse ele, se­gundo suas re­cordações e também as do irmão.

Kati­yar re­con­hece que ig­nor­ou os testes de Sheikh. Se­gundo ele, os labor­atóri­os são tão pou­co con­fiáveis que ele não acred­ita nos res­ulta­dos. Al­guns labor­atóri­os in­di­anos po­dem dar res­ulta­dos in­ex­a­tos, e o gov­erno está in­stituindo um pro­cesso de cre­den­ciamento.

Ele re­ceit­ou sete dro­gas, in­cluindo três às quais Sheikh tinha res­istência, se­gundo já apare­cia nos testes. Dur­ante duas se­m­an­as, o irmão e o pai de Sheikh jun­taram suas eco­nomi­as para pagar 28 mil rúpi­as, cerca de US$ 500, pelo trata­mento. Isso es­gotou a poupança dos dois.

Sheikh mudou nova­mente de médico, pro­cur­ando um em Kan­pur que tra­bal­hava com in­stituições de carid­ade que sub­sidiam remédi­os con­tra a tuber­cu­lose. Dur­ante dois anos, diz ela, seguiu rig­orosamente o re­gime pre­scrito. Pela primeira vez, sua doença de­sa­pare­ceu. Em testes de raios-X e bac­teri­ológi­cos, não foi de­tectada a TB.

Foi então que ela con­traiu uma co­ceira in­suportável, um efeito colat­er­al do trata­mento. O médico re­con­hece que a acon­sel­hou a parar com os medic­a­men­tos. Ela os to­mava há dois anos, o período mínimo para cur­ar a res­istência.

Em ret­ro­specto, isso provavel­mente foi um erro, como ele re­con­heceu em uma en­trev­ista em Kan­pur.

Quatro meses de­pois, em dezem­bro de 2010, Sheikh começou a tossir nova­mente. Den­tro de pou­cos di­as, es­tava tossindo sangue.

Seu mar­ido, ainda acred­it­ando que os médi­cos VIP de Mum­bai tin­ham as re­s­pos­tas, a con­venceu a tentar ali nova­mente. Em dezem­bro de 2010, eles hi­po­te­caram seu ar­roz­al de 1.000 m2 por 40.000 rúpi­as, cerca de US$ 800, e fo­ram para Mum­bai.

Sheikh e o irmão pro­cur­aram o G.T. Hos­pit­al, uma clin­ica gov­er­na­ment­al onde es­per­avam re­ce­ber trata­mento gra­tuito. Jais­ing Phadtare, chefe do trata­mento de TB no hos­pit­al, ex­amin­ou a pa­pe­lada. Você tomou to­das as dro­gas que ex­istem no In­dustão, disse ele, usando um nome an­ti­go para a Índia. Ele re­ceit­ou quatro medic­a­men­tos, in­cluindo a capreo­micina, antes re­jeit­ada por Singh por ser muito cara.

A tuber­cu­lose de Sheikh não ret­ro­cedeu. As­sim, em ju­lho de 2011 ele a en­vi­ou para outro teste de sens­ib­il­id­ade a dro­gas.

Os res­ulta­dos mostraram que ela agora era res­ist­ente a 12 medic­a­men­tos con­tra a TB – prat­ica­mente to­dos os que são efet­ivos em pa­cientes res­ist­entes.

A res­istência de Sheikh às dro­gas era tão com­pleta que chamou a atenção da chefe do labor­atório onde o teste foi real­iz­ado. Ela e Za­rir Ud­wa­dia, es­pe­cialista em TB no Hinduja Hos­pit­al, haviam ob­ser­vado em 2011 vári­os pa­cientes res­ist­entes a prat­ica­mente to­dos os trata­men­tos.

Sheikh per­sis­tiu até que en­con­trou uma maneira de se con­sul­tar com Ud­wa­dia, um dos maiores es­pe­cialis­tas mun­di­ais em TB.

Ele tinha pou­cas es­per­anças – mas não disse isso a ela. Para ser franco, fiquei alar­mado e hor­ror­iz­ado, disse o médico.

Ele manteve as quatro dro­gas que ela es­tava to­mando e acres­centou duas ex­per­i­mentais. Uma delas é ex­trema­mente tóxica e dol­orosa.

Em ab­ril pas­sado, pela primeira vez em mais de um ano, o teste de Sheikh foi neg­at­ivo para TB.

Apesar dessa boa novid­ade, Sheikh tinha fre­quentes crises psicótic­as, o efeito colat­er­al de uma das dro­gas. Ela tinha a sensação que seus pés es­tavam em chamas, efeito colat­er­al de outra.

Ela e o mar­ido es­tavam mor­ando numa favela em Mum­bai, em um único cômodo escuro, sem ban­heiro. O mar­ido era obri­gado a fal­tar ao tra­balho para cuid­ar dela, re­duzindo sua renda. Com­prar al­i­men­tos ficou difícil.

Sheikh an­siava por vol­tar para sua aldeia quando se aprox­im­ava o Ra­madã, o mês sagrado dos muçul­manos, em ju­lho. De­pois que os casos de res­istência total às dro­gas na Índia fo­ram di­vul­gados em janeiro, a pre­feitura de Mum­bai começou a dar a ela seus remédi­os gra­tu­it­a­mente. Ela pe­diu dro­gas para um mês para fazer a viagem, mas as autor­id­ades só lhe dari­am a dose para um dia de cada vez, por medo de que ela fosse vendê-las.

Sheikh de­cidiu vol­tar para sua aldeia nat­al de qualquer maneira, em­bora isso bem pudesse ser uma sen­tença de morte, já que aban­don­aria o trata­mento outra vez.

Só dois di­as antes da sua partida as autor­id­ades cederam e lhe de­ram remédi­os para um mês.

Na noite de 17 de ju­lho ela voltou para sua aldeia, Ram­pur. Com o pas­sar dos di­as, ela re­cu­per­ou, em parte, seu equilíbrio. Ela e o mar­ido re­ab­ri­ram sua própria casa pela primeira vez desde que a tin­ham trancado, um ano e meio antes.

Talvez não es­teja no pla­no de Deus que eu morra ainda, disse ela. Às vezes acho que eu talvez até possa me cur­ar. (Col­abor­aram Shreya Shah e Betsy McKay)



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