Depois do susto nos anos 1980, soropositivos aprendem a conviver com a doença. Mutações voltam a assombrarRenata Mariz Brasília – Da sentença de morte em poucos meses à promessa de uma vida mais longa e de qualidade, é inegável que o avanço dos medicamentos nas duas últimas décadas mudou completamente a visão de futuro dos pacientes com HIV. Só que as sucessivas mutações do vírus, aliadas à resistência natural que um remédio provoca depois de anos de uso, têm levado uma parte dos soropositivos a reviver o pavor que a doença mortal despertou no mundo ao ser descoberta. Paulo, que usa outro nome para não ser identificado, faz parte desse contingente. “Estou na última cartada das drogas, a um passo de não ter mais possibilidades”, lamenta o administrador de empresas de 42 anos, que luta há 16 contra a AIDS. Na mesma situação de Paulo, o Ministério da Saúde já contabiliza cerca de 5 mil pessoas no Brasil. São os pacientes que chegaram às últimas drogas disponíveis – a chamada terceira linha do tratamento. “Estão nessa fase aqueles considerados multifalhados, que não conseguem diminuir a carga viral com os demais esquemas terapêuticos existentes”, explica Ronaldo Hallal, assessor do DEPARTAMENTO DE DST/AIDS e Hepatites Virais do Ministério da Saúde. Dos 19 ANTIRRETROVIRAIS que o governo federal distribui atualmente, três fazem parte da terceira linha. “O paciente que usa ao menos um deles já está na última etapa e é uma parcela bastante importante para nós, visto que apresenta condições de saúde mais vulneráveis e, ao mesmo tempo, risco de transmitir esses vírus muito resistentes a outras pessoas”, afirma Hallal. O pouco tempo de uso dessas três drogas, entretanto, deixa em aberto a real eficácia delas. O RALTEGRAVIR, por exemplo, foi introduzido no Brasil em janeiro de 2009. E o darunavir, em 2008. Só a enfuvirtida é mais antiga, de 2005. “Não dá para avaliar ainda o impacto a médio prazo, mas verificamos que 80% dos pacientes têm supressão do vírus em poucos meses. Com o RALTEGRAVIR, esse índice chega a 90%. Alguns pacientes realmente não têm nenhuma opção terapêutica e a saída é ingressar em algum projeto de pesquisa”, informa Hallal. Estudos O especialista não soube dizer quantas drogas são testadas hoje no país. O Conselho Nacional de Ética em Pesquisa, onde todos os experimentos têm de ser registrados, se limitou a afirmar que houve 100 pesquisas aprovadas de 2007 a 2009 relacionadas ao HIV. Paulo teme que esse seja seu próximo passo, tornar-se cobaia de alguma droga experimental. Desde que recebeu o diagnóstico do HIV, em 1994, ele convive com as falhas terapêuticas. “Meu histórico é de um vírus muito resistente sempre. Começava um esquema terapêutico e dali a oito meses a carga viral aumentava”, conta o homem. Apesar do custo elevado, o Ministério da Saúde ressalta que o rígido protocolo de encaminhamento de pacientes para a última terapia tem como foco principal evitar a banalização do tratamento. “É preciso identificar claramente o motivo da falha para saber se o paciente reagirá às drogas”, defende Hallal. Com os soropositivos vivendo cada vez mais, surge a dúvida se o contingente de pessoas na última opção de tratamento aumentará ao longo dos anos. {youtube}3aOB3Nol4rs&NR=1{/youtube} ESTADO DE MINAS – MG | NACIONAL |
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