A ÚLTIMA RONDA
Uma das lições mais difíceis que a vida me ensinou é a lei da impermanência. Quase tudo acaba. Veja bem que parece-me bastante claro que ainda não aprendi a lição — basta olhar a maneira relutante com que enunciei esta lei, que na verdade deveria ser declarada da seguinte maneira:
Nada é eterno.

Talvez eu fique com o enunciado do Poeta, mas isso veremos até o fim deste texto.
O importante, aqui, é que todos os arranjos que eu fazia em minha vida para ganhar meus pixulés e ter ao menos o que comer, de alguma maneira acabavam. E, muito embora eu não possa dizer a vocês por que acabavam, creio que eu, adolescente solitário sem nenhuma educação, certamente cometia algum erro, ofendia alguém, e aquele arranjo terminava. Algumas vezes em muitas semanas, outras vezes em poucos dias.
A grande verdade em meio a tudo isso é que eu voltava, inexoravelmente, ao ponto de, mais uma vez, passar fome. Assim eu fui envelhecendo — e por envelhecer você deve entender que me aproximava da maioridade.
Jamais saberei explicar, cientificamente, os porquês de, graças a Deus, jamais ter ido parar na FEBEM. De fato, e isso vai para outro texto, estive lá por algumas horas e creio que escapei por intervenção divina.
Estava bem perto dos dezessete anos quando uma das pessoas das ruas veio conversar comigo e perguntou minha idade. Disse-lhe a verdade — que estava próximo dos dezessete anos — e ele anunciou, como o Arauto da Perdição:
— Cuidado, cara. Daqui a pouco você faz dezoito anos e, se continuar nesta vida, depois dos dezoito é detenção — é Casa de Detenção. E você não é esperto o bastante para sobreviver lá.
E não era mesmo — isso é verdade. A Casa de Detenção era um antigo presídio no Carandiru, Zona Norte da cidade, onde anos mais tarde houve um massacre de detentos levado a termo por policiais que lá entraram para reestabelecer a ordem.
Aquela fala me apavorou. Esta é a única coisa que você pode tirar de mim sem a qual eu não sobreviveria: minha liberdade.
O medo, que já era um companheiro cotidiano, se instalou de uma vez por todas. Para complicar, nada que eu fazia emplacava, nada que eu fazia parecia ter o dom da permanência — e os dias iam se acumulando rumo à maioridade.
Foi aí que tomei a triste decisão de dar cabo de mim antes que o pior viesse a acontecer. Decidi-me pelo suicídio — e por uma forma bastante dramática e definitiva de pôr termo aos meus dias. A ideia era entrar numa estação de metrô, qualquer uma delas, esperar a composição sair da estação, descer rapidamente à via e encostar minha perna naquele terceiro trilho. Teria morrido por eletrocução.
Contudo.
Durante o meu dia a dia, eu frequentava os puteiros da Boca do Lixo. Eram alguns prédios — o 17, o 69, o 623 e alguns outros — que em algum momento da história acabaram lotados de garotas de programa que ficavam nos andares e escadarias em trajes sumários, fazendo programas rápidos de cinco a dez minutos por valores módicos. Estas moças me conheciam, gostavam de ralhar comigo e, dentro da carência afetiva em que eu vivia, aquele convívio era algo muito importante para mim. Como elas ficavam o dia inteiro impedidas de sair dos prédios pelos cafetões e cafetinas durante seus expedientes, utilizavam-me para pequenos trabalhos — buscar um lanche, um café, cigarros. E sempre sobrava alguma coisa para comer; vez por outra uma delas me escondia para depois das 22h, quando o puteiro fechava.
No dia em que tomei a decisão, de uma vez por todas, de dar cabo de mim, senti certa nostalgia e decidi visitar cada uma daquelas pessoas, naqueles cinco ou seis prédios.
Isso tomou tempo, pois à medida que ia passando por cada prédio, por cada andar, cada uma delas me pedia algo.
— Vai pegar um lanche, bebê?
— Me traz cigarro, Zé Punheta?
— Tá com fome? Vai buscar meu almoço e compra o seu.
— Vem cá! Me dá um beijo!
Assim as horas foram se passando.
Bem, isso demorou algumas horas até que entrei no último deles — o de nível mais baixo, digamos assim. Ele funcionava ali na Barão de Limeira. Hoje é um hotel de três ou quatro estrelas, e a verdade passada daquele prédio é insuspeita para seus hóspedes.
As mulheres ali eram aquelas para quem o Destino não só não sorriu, mas também fez uma carranca imensa. Era o mais vazio, com os piores clientes e os cafetões e cafetinas mais ordinárias da Boca do Lixo.
O fato é que era o último prédio. E eu estava resoluto no que estava por fazer.
Foi aí que aconteceu o milagre.
Fátima, que eu jamais vira antes, me parou e disse:
— Menino, vem cá. Quero falar com você, quero saber do seu problema.
Foi então que expliquei a ela que eu vivia num moto-perpétuo. Não tinha onde morar, porque não tinha casa — e assim vivia sujo. Por causa disso, nada dava certo. Disse a ela que tudo o que eu mais queria era um lugar para morar e um trabalho. Disse que estava indo me matar porque não tinha vida e não sabia mais o que fazer — que tinha medo de ser preso por simplesmente não ter trabalho, que morria de medo da maldade policial, que não sabia roubar e tinha muita vergonha de pedir.
Ela me perguntou, incisivamente:
— Você quer trabalhar, certo?
— Sim.
— Eu vou te ajudar.
Minha leitora de extremo moralismo, que conquistou a maternidade e o respeito do mundo: tenha em mente que esta moça — para quem a vida teve pouca ou nenhuma boa vontade, esta moça da vida fácil, o rótulo é vosso, a quem as leis da noite e das ruas condenaram e lhe queimaram o rosto com ácido, queimando-lhe uma das faces, uma orelha e parte de um dos seios — foi a pessoa que me deu uma mão, depois as duas, e restaurou minha dignidade.
Foi ela — a puta — e não uma freira, não a esposa de um pastor, nem a benemérita esposa de um líder de uma casa espírita, nem mesmo a primeira-dama do município, do estado ou do país, que olhou para mim e viu, por detrás da sujeira, do óbvio mau cheiro e dos andrajos que eu vestia, o ser humano. E não apenas viu — ela me ajudou.
Sacrificou sabe-se lá Deus quantas coisas — pois ela tomava remédios que, disseram-me, custavam caro — para me dar duas calças, três camisas e um sapato, tudo usado, comprado em brechós, porque era tudo o que ela podia fazer. E depois conversou com o Severino, que era arrendatário da cozinha na antiga Boate Louvre, que ficava na Major Sertório, quase na esquina com a Bento Freitas, onde hoje viceja um estacionamento — e me conseguiu um emprego de lavador de pratos.
Foi ali que fiz amizade com o Gaúcho, que era o sonoplasta — na época o conceito de DJ não existia —, e que me ensinou tudo o que ele sabia. Quase dois anos depois, eu era no Louvre o segundo sonoplasta, iluminador e auxiliar de chefe de bailarinas.
Foi Fátima, a puta, e mais ninguém, que com toda a imensa bondade que habitava seu coração sustou meu suicídio — literalmente na última badalada do relógio, poucos minutos antes do passo fatídico — e tornou minha vida, e a realização de alguns sonhos, possível.
Onde quer que estejas, Fátima, saibas que carrego em meu peito toda a gratidão do mundo por você. E que Deus possa ter dado-te, ao longo da vida, as luzes e as bênçãos que eu recebi, também, dadas por tua mão.
Muito obrigado, Fátima. Muito obrigado, obrigado, obrigado e obrigado.
Você interrompeu, graças a Deus, minha última ronda.
E você, que me lê — se em algum momento você pensa, ou pensou, em fazer sua última ronda, desista. Pois só Deus sabe de Suas razões para nossas dificuldades e, creia-me, Ele deseja tudo pelo teu melhor.
Quanto à impermanência — apesar de todas as dores e decepções, aprendi a acreditar no amor e, sim, o Poeta está certo: tem de ser infinito enquanto dura.

Ponto a Ponderar
Fátima foi o anjo de rosto queimado por ácido, num gesto de vingança, a única pessoa que olhou para além dos andrajos e da imundície e viu um ser humano. E foi esta Fátima, a puta e não a Santa, que sustou o derradeiro ato de minha dorida e sofrida vida.
Com o tempo cresci como pessoa e profissional. Cresci ate mesmo em poder e movia polícia do pais inteiro para tentar encontra-la.
Sei que ela existiu, por isso estou aqui, mas se a encontrasse agora eu me prostaria de joelhos diante dela e lhe beijaria os pés
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