“Não é mais um probleminha com aquela estranha sonoplastia nos banheiros masculinos. Ui… ai…”
Aqui você pode inserir uma descrição ou comentários sobre a imagem destacada relacionada ao problema que está mudando.
- Essa segurança está diminuindo.
- Uma bactéria que já derrotou vários antibióticos
- O que a gonorreia pode provocar
- A gonorreia faríngea: uma infecção que pode permanecer silenciosa
- Por que a garganta preocupa tanto na resistência antimicrobiana
- Quando a ceftriaxona não funciona
- Tratamentos de resgate e novos antibióticos
- Diagnóstico, cultura e teste de cura
- Resistência não conhece fronteiras
- O que vamos acompanhar a partir de agora
- Uma velha doença diante de um problema novo
- Nota ao leitor
Durante muito tempo, falar em gonorreia parecia falar de uma infecção sexualmente transmissível conhecida, desagradável, às vezes dolorosa, mas relativamente simples de resolver: diagnosticar, administrar o antibiótico adequado e tratar também as pessoas que poderiam ter sido expostas.
Essa segurança está diminuindo.

A bactéria que causa a gonorreia, a Neisseria gonorrhoeae, possui uma extraordinária capacidade de desenvolver resistência aos medicamentos utilizados contra ela. Ao longo das décadas, diferentes classes de antibióticos foram perdendo eficácia. Agora, a preocupação chegou a um ponto particularmente delicado: estão sendo identificadas cepas com resistência à ceftriaxona, um dos últimos antibióticos dos quais dependemos para o tratamento empírico da gonorreia.
Não se trata de afirmar que a gonorreia se tornou intratável. Na enorme maioria dos casos, ela continua tendo tratamento. Mas já existem infecções nas quais o tratamento convencional falhou e casos classificados como extensivamente resistentes — XDR — nos quais também estão comprometidas opções que poderiam ser utilizadas quando o tratamento de primeira linha não funciona.
É por isso que o Soropositivo.org passa a acompanhar sistematicamente este assunto. Esta seção nasce para observar a evolução da gonorreia resistente no Brasil e no mundo, país por país, procurando responder a perguntas concretas: onde a resistência está aumentando? Contra quais antibióticos? Quantos casos estão sendo encontrados? Onde ocorreu falha do tratamento? Qual foi o tratamento alternativo utilizado? Funcionou?
Os números mais recentes justificam essa vigilância. Segundo a Organização Mundial da Saúde, nos países participantes do EGASP, a resistência à ceftriaxona passou de 0,8% em 2022 para 5% em 2024. No mesmo período, a resistência à cefixima aumentou de 1,7% para 11%, enquanto a resistência à ciprofloxacina chegou a aproximadamente 95% das amostras analisadas. Camboja e Vietnã apareceram entre os países com taxas especialmente preocupantes no monitoramento recente.
Uma bactéria que já derrotou vários antibióticos
Esses números não significam que 5% de todas as gonorreias existentes no planeta sejam resistentes à ceftriaxona. Os sistemas de vigilância não representam de maneira uniforme toda a população mundial e muitos países possuem capacidade laboratorial limitada. Significam, entretanto, algo que não devemos ignorar: a resistência está sendo encontrada com maior frequência justamente contra medicamentos dos quais cada vez mais dependemos.
A resistência da gonorreia não apareceu agora. É uma história que atravessa décadas. Sulfonamidas foram utilizadas e a bactéria desenvolveu resistência. A penicilina foi durantetempo uma arma extremamente eficaz e perdeu eficácia. Tetraciclinas foram utilizadas e a resistência aumentou. Fluoroquinolonas, como ciprofloxacina, foram utilizadas extensamente; hoje a resistência é tão disseminada que esses medicamentos não podem simplesmente ser utilizados empiricamente em grande parte do mundo.
Macrolídeos, incluindo azitromicina, também encontraram resistência crescente. Restaram as cefalosporinas de espectro ampliado, particularmente a ceftriaxona. E agora também encontramos gonococos capazes de resistir a ela.
A Organização Mundial da Saúde considera a resistência da Neisseria gonorrhoeae aos antimicrobianos um importante problema de saúde pública. A ceftriaxona continua sendo uma das principais armas contra a doença, e a identificação de resistência a ela reduz ainda mais o espaço terapêutico disponível.
É uma espécie de corrida: criamos ou escolhemos um antibiótico; selecionamos as bactérias capazes de sobreviver a ele; essas bactérias se multiplicam; algumas se disseminam; precisamos então encontrar outra maneira de tratá-las. O problema é que nosso arsenal não é infinito. Essa sucessão importa porque mostra que resistência não é uma hipótese distante, mas um processo evolutivo observado repetidamente. O uso inadequado ou excessivo de antimicrobianos acelera a seleção de organismos resistentes, enquanto a transmissão permite que essas linhagens deixem de ser um problema individual e se tornem um problema coletivo. Por isso, prescrever bem e vigiar bem são partes da mesma estratégia.
O que a gonorreia pode provocar
Reduzir a gonorreia a corrimento ou ardência ao urinar é um erro. Esses são sintomas clássicos, especialmente na infecção uretral, mas representam apenas uma parte da doença.
A gonorreia pode infectar diferentes regiões do organismo, incluindo uretra, colo do útero, reto, faringe e olhos. E uma das características que ajudam a bactéria a continuar circulando é justamente a possibilidade de haver infecção sem sintomas. Uma pessoa pode estar infectada, transmitir a bactéria e não saber que está com gonorreia.
Nas mulheres, uma infecção cervical não diagnosticada pode ascender pelo trato genital e participar do desenvolvimento de doença inflamatória pélvica. As consequências podem ser graves: dor pélvica crônica, lesões das tubas uterinas, aumento do risco de gravidez ectópica e infertilidade.
Nos homens, podem ocorrer complicações como epididimite, que pode provocar dor importante e, em situações específicas, comprometer a fertilidade.
Existe ainda uma complicação menos frequente, mas muito mais grave: a infecção gonocócica disseminada. Nesse caso, a bactéria deixa o local inicial de infecção e alcança a circulação. Podem aparecer lesões de pele, febre, dores articulares, tenossinovite e artrite séptica. Raramente, complicações ainda mais graves podem ocorrer.
Portanto, estamos falando de uma bactéria que não deveria ser considerada banal mesmo antes de acrescentarmos a resistência aos antibióticos à equação.
Existe, porém, uma região que merece atenção especial nesta história: a garganta. A gonorreia faríngea reúne características que favorecem o diagnóstico tardio, a transmissão silenciosa e a dificuldade terapêutica. A infecção também tem importância durante a gestação e no parto. A transmissão ao recém-nascido pode causar conjuntivite gonocócica grave, situação capaz de ameaçar a visão quando não reconhecida e tratada rapidamente. O impacto da doença, portanto, ultrapassa o desconforto imediato e alcança saúde reprodutiva, fertilidade e, em determinadas circunstâncias, complicações sistêmicas.
A gonorreia faríngea: uma infecção que pode permanecer silenciosa
A Neisseria gonorrhoeae pode infectar a faringe depois de exposição sexual envolvendo boca e genitais. E existe uma dificuldade importante: a gonorreia da garganta frequentemente não provoca sintomas.
Uma pessoa pode não apresentar dor significativa, febre ou qualquer sinal que a faça imaginar que possui uma IST. Pode continuar mantendo relações sexuais, transmitir a bactéria e permanecer infectadasem procurar diagnóstico porquenão existe motivo aparente para procurar tratamento.
Isso transforma a faringe em um reservatório epidemiologicamente importante. Mas há outro problema: as infecções gonocócicas da faringe são historicamente mais difíceis de erradicar do que algumas infecções genitais.
O próprio CDC chama atenção para isso em suas recomendações terapêuticas. Existem menos esquemas confiavelmente eficazes para a gonorreia faríngea, razão pela qual a ceftriaxona ocupa posição central no tratamento. Além disso, após o tratamento da gonorreia faríngea, o teste de cura assume importância especial.
Por quê? Porquedesaparecerem sintomas — quando eles chegaram a existir — não significa necessariamente que a bactéria foi eliminada.
Nossa garganta não é um ambiente estéril. Diferentes espécies de Neisseria podem viver ali. A Neisseria gonorrhoeae pode coexistir nesse ambiente com outras bactérias relacionadas e adquirir material genético por processos naturais de transferência genética. Esse intercâmbio pode contribuir para o desenvolvimento de características associadas à resistência antimicrobiana.
Ao mesmo tempo, eliminar completamente o gonococo da faringe pode ser mais difícil. A combinação desses fatores ajuda a explicar por que especialistas em resistência antimicrobiana prestam tanta atenção à gonorreia faríngea. Esse silênciodificulta a interrupção das cadeias de transmissão. Quando a infecção uretral produz secreção e dor, há maior chance de a pessoa procurar atendimento. Na garganta, a ausência de sinais reduz esse alerta. A pessoa pode não saber que precisa testar, profissionais podem não colher amostra faríngea se a exposição não for discutida e a bactéria ganha tempo para circular.
Por que a garganta preocupa tanto na resistência antimicrobiana
A gonorreia faríngea pode ser silenciosa, permanecer sem diagnóstico, ser transmitida e ser mais difícil de erradicar. Além disso, a faringe está envolvida em episódios documentados de falha terapêutica.
Por isso, quando surge uma nova cepa resistente à ceftriaxona, uma das primeiras perguntas relevantes é: onde estava a infecção? Muitas vezes, a resposta é a faringe.
A ceftriaxona continua extremamente eficaz contra a maioria das infecções gonocócicas. Isso precisa ficar claro. Não estamos anunciando o fim do tratamento da gonorreia. Estamos observando sinais de que uma parcela das bactérias está conseguindo atravessar mais uma das barreiras farmacológicas que construímos.
Na Inglaterra, a Neisseria gonorrhoeae resistente à ceftriaxona foi identificada pela primeira vez em 2015. Até 8 de maio de 2026, haviam sido registrados 84 casos de gonorreia resistente à ceftriaxona. Destes, 25 eram classificados como extensivamente resistentes — XDR — isto é, apresentavam resistência ao tratamento de primeira linha e também a opções de segunda linha.
Os números absolutos ainda são pequenos quando comparados às dezenas de milhares de diagnósticos de gonorreia registrados anualmente no país. Mas o crescimento chama atenção. Em 2024 foram identificados 13 casos resistentes à ceftriaxona; em 2025, foram 29; e até 8 de maio de 2026 já haviam sido identificados 17.
Isso não demonstra que a gonorreia intratável esteja prestes a dominar o mundo. Demonstra que a vigilância precisa ser levada muito a sério. Essa preocupação não transforma toda infecção de garganta em uma emergência nem significa que toda gonorreia faríngea seja resistente. O ponto é epidemiológico: quando se procura compreender onde uma linhagem resistente consegue persistir, ser transmitida e escapar mais facilmente da detecção, a faringe aparece repetidamente como um local que merece vigilância reforçada. Esse é o motivo da atenção especial.
Quando a ceftriaxona não funciona
O sistema europeu Euro-GASP também acompanha a sensibilidade da Neisseria gonorrhoeae aos antimicrobianos. Nos dados referentes a 2024, foram encontrados isolados resistentes à ceftriaxona em Luxemburgo e Noruega. Um número pequeno, mas resistência a um dos últimos pilares terapêuticos não precisa atingir milhares de casos antes de se tornar epidemiologicamente importante.
O objetivo da vigilância é justamente encontrar o problema antes que ele se torne enorme. A história da resistência antimicrobiana ensina repetidamente que esperar que o problema se torne comum para começar a agir é uma estratégia ruim.
E quando a ceftriaxona não funciona? Essa é uma das perguntas que esta seção acompanhará continuamente.
Existem tratamentos alternativos e medicamentos de resgate, mas a escolha não deve ser feita empiricamente por uma pessoa tentando tratar a si própria. Em uma suspeita verdadeira de falha terapêutica, cultura, teste de sensibilidade antimicrobiana, avaliação especializada e acompanhamento microbiológico tornam-se extremamente importantes.
Alguns casos resistentes já exigiram medicamentos que normalmente não seriam nossa primeira escolha para uma gonorreia comum. Um deles é o ertapenem, antibiótico da família dos carbapenêmicos. Existem relatos britânicos de infecções resistentes nas quais a ceftriaxona falhou e o ertapenem conseguiu eliminar a bactéria.
Isso é uma boa notícia, mas não significa que devamos simplesmente substituir ceftriaxona por ertapenem. Carbapenêmicos são antibióticos extremamente importantes para o tratamento de diversas infecções bacterianas graves. Utilizá-los indiscriminadamente poderia exercer nova pressão seletiva e contribuir para criar exatamente o próximo problema que desejamos evitar. Nos casos suspeitos de falha, repetir simplesmente o mesmo raciocínio terapêutico pode atrasar a solução. É necessário distinguir reinfecção de verdadeira falha do antibiótico, colher amostras adequadas e, quando possível, realizar cultura e determinação da sensibilidade. Essa investigação também permite que autoridades sanitárias reconheçam rapidamente uma linhagem resistente e procurem possíveis conexões epidemiológicas.
Tratamentos de resgate e novos antibióticos
Existem ainda outros esquemas estudados ou utilizados em circunstâncias específicas, envolvendo medicamentos como gentamicina, espectinomicina e combinações antimicrobianas. Cada um possui limitações. E a garganta novamente complica a história: um tratamento que funciona muito bem contra gonorreia urogenital não necessariamente apresenta o mesmo desempenho contra uma infecção faríngea.
Há também uma notícia importante no desenvolvimento farmacológico. Novos antibióticos orais destinados ao tratamento da gonorreia estão chegando ao centro da discussão internacional. Entre eles estão zoliflodacina e gepotidacina.
Em junho de 2026, a Organização Mundial da Saúde anunciou o desenvolvimento de recomendações baseadas em evidências sobre novos antibióticos orais para tratamento da gonorreia. Isso pode ampliar novamente nosso arsenal terapêutico.
Mas existe uma lição histórica que não deveria ser esquecida. Encontrar um novo antibiótico não encerra o problema da resistência. Precisamos utilizá-lo corretamente, vigiar sua eficácia, detectar rapidamente alterações de sensibilidade e evitar o uso desnecessário de antibióticos. Caso contrário, apenas começaremos outra contagem regressiva.
Talvez este seja um dos pontos mais importantes desta matéria: gonorreia não deveria ser tratada com antibiótico guardado em casa, indicação de amigo, receita antiga ou uma combinação improvisada encontrada na internet.
Uma dose inadequada pode não eliminar completamente a bactéria. Um antibiótico ao qual a bactéria já é resistente pode não resolver a infecção. Os sintomas podem diminuir sem que tenha ocorrido cura microbiológica. E uma infecção parcialmente tratada pode continuar sendo transmitida. O valor de uma alternativa depende ainda do local da infecção, do perfil de resistência da cepa, da disponibilidade do medicamento e da evidência clínica existente. Um esquema de resgate descrito em um caso XDR não deve ser convertido em receita geral. É precisamente nessas situações que microbiologia e infectologia precisam caminhar juntas, preservando opções terapêuticas que podem ser essenciais para outros pacientes.
Diagnóstico, cultura e teste de cura
Quando existe suspeita de resistência, saber qual bactéria cresceu e a quais antibióticos ela continua sensível pode ser decisivo. É justamente por isso que a cultura, que durante algum tempo pareceu perder importância diante da enorme praticidade dos testes moleculares, volta a ocupar posição estratégica na vigilância da resistência.
Um teste molecular pode dizer que existe Neisseria gonorrhoeae. Para investigar resistência e falha terapêutica, frequentemente precisamos também da bactéria viva no laboratório.
Existe aqui uma mensagem de prevenção que merece ser tratada sem moralismo: sexo oral é sexo e pode transmitir infecções sexualmente transmissíveis.
O risco de transmissão do HIV pelo sexo oral é muito diferente daquele relacionado a determinadas exposições anais ou vaginais, mas isso não significa que sexo oral seja incapaz de transmitir outras IST. Gonorreia é um exemplo importante.
Uma pessoa com gonorreia faríngea pode não perceber absolutamente nada. É por isso que a história sexual precisa fazer parte da avaliação clínica. Se houve exposição da garganta, testar somente urina ou região genital pode não responder à pergunta correta.
Uma infecção localizada na faringe pode passar despercebida se ninguém procurar por ela ali. O mesmo raciocínio vale para a infecção retal. O exame precisa considerar os locais efetivamente expostos.
Na gonorreia faríngea, o teste de cura tem relevância especial. Recomendações internacionais, como as do CDC, orientam que pessoas tratadas para gonorreia da faringe realizem teste de cura posteriormente, porque a erradicação nesse local merece confirmação. Essa diferença entre detectar a bactéria e compreender sua sensibilidade é central para esta nova fase da vigilância. Testes moleculares são extraordinariamente úteis e rápidos, mas a cultura mantém uma função que não pode ser abandonada. Sem isolados suficientes, um país pode enxergar quantos diagnósticos existem e, ao mesmo tempo, enxergar mal quais antibióticos estão deixando de funcionar.
Resistência não conhece fronteiras
Há ainda uma característica moderna dessa epidemia bacteriana. Uma cepa resistente pode surgir ou estabelecer circulação em determinado lugar e atravessar continentes em poucas horas dentro de um avião.
Viagens internacionais e redes sexuais conectadas tornam a resistência antimicrobiana um fenômeno mundial. Isso explica por que alguns casos europeus são investigados também procurando saber onde provavelmente ocorreu a aquisição da infecção.
Uma bactéria encontrada em Londres pode carregar uma história epidemiológica iniciada a milhares de quilômetros dali. Por isso vamos acompanhar países individualmente sem perder a visão global.
Camboja importa. Vietnã importa. Reino Unido importa. Noruega importa. Brasil importa. Mas também importa observar como as cepas circulam entre esses lugares.
O Brasil não está fora dessa história. O país participa de iniciativas de vigilância da resistência gonocócica e precisamos acompanhar cuidadosamente a evolução dos dados nacionais.
Existe, porém, uma dificuldade que também ocorre em grande parte do mundo: não podemos confundir ausência de casos documentados com ausência de circulação.
Encontrar resistência exige vigilância. Exige coleta adequada. Exige cultura. Exige laboratórios capazes de realizar testes de sensibilidade. Exige comunicação entre serviços clínicos, laboratórios e autoridades sanitárias.
Quanto menor a capacidade de vigilância, maior o risco de uma cepa resistente circular algum tempo antes de ser reconhecida. É por isso que os números precisam sempre ser interpretados junto com a capacidade de cada país de procurar o problema. A mobilidade também impede interpretações simplistas. O país onde um caso é diagnosticado não é necessariamente o país onde a cepa foi adquirida ou onde surgiu originalmente. Investigações de viagem, contatos e sequenciamento genômico ajudam a reconstruir essas rotas. Para esta seção, portanto, “por país” significará registrar tanto o local do diagnóstico quanto a provável origem quando essa informação estiver disponível.
O que vamos acompanhar a partir de agora
Esta matéria inaugura uma vigilância permanente do Soropositivo.org sobre a resistência da gonorreia aos antibióticos.
Não pretendemos transformar cada novo caso em uma manchete alarmista. Pretendemos fazer algo mais útil: acompanhar, comparar e contextualizar.
Quando aparecer um novo caso resistente, queremos saber onde aconteceu. Quando um país divulgar aumento de resistência, queremos comparar com os anos anteriores. Quando houver falha de ceftriaxona, queremos saber onde estava localizada a infecção.
Quando um tratamento de resgate for utilizado, queremos saber qual medicamento foi empregado e se houve cura microbiológica. Quando surgirem dados brasileiros, queremos colocá-los lado a lado com aquilo que está acontecendo no restante do mundo. E quando novos antibióticos entrarem efetivamente nas recomendações internacionais, acompanharemos também o que acontecerá com eles.
Porque a pergunta importante não é apenas: “Existe supergonorreia?”
A pergunta que realmente interessa é: “Estamos conseguindo impedir que ela se torne comum?”
A gonorreia acompanha a humanidade há muito tempo. O que está mudando não é a existência da bactéria. É nossa relação terapêutica com ela.
Durante décadas tivemos a confortável possibilidade de abandonar um antibiótico quando ele deixava de funcionar e passar para outro. Essa margem foi diminuindo. Hoje a ceftriaxona ocupa uma posição que poucos antibióticos ocuparam antes: é uma das principais barreiras entre uma infecção facilmente tratável e uma infecção para a qual as opções terapêuticas podem se tornar muito mais complexas. Essa distinção será uma regra editorial da seção. Um caso raro merece registro, mas não será apresentado como epidemia. Uma porcentagem crescente merece atenção, mas será acompanhada do denominador e da metodologia sempre que esses dados estiverem disponíveis. E uma mudança nas recomendações terapêuticas será descrita com sua fonte e data, porque protocolos podem mudar conforme a resistência evolui.
Uma velha doença diante de um problema novo
Ainda temos tratamento. Ainda temos alternativas. Novos medicamentos estão chegando. E temos sistemas de vigilância capazes de detectar resistência muito antes do que seria possível algumas décadas atrás.
Portanto, esta não é uma história de derrota. É uma história que exige atenção.
Especialmente quando a bactéria encontra um lugar silencioso para permanecer, circular e eventualmente trocar material genético com suas parentes bacterianas: a garganta.
A gonorreia faríngea pode não arder. Pode não provocar corrimento. Pode não doer. Pode não dar qualquer aviso.
E talvez seja justamente esse silêncio que faça dela uma das peças mais importantes para compreender a próxima fase da resistência antimicrobiana da gonorreia.
É por isso que começamos a observá-la agora.
A partir desta abertura, a seção acompanhará diariamente novos dados epidemiológicos, alterações nas taxas de resistência, países que documentarem novas cepas resistentes, falhas terapêuticas e resultados de tratamentos alternativos. A intenção é preservar uma cronologia compreensível de um fenômeno que muda com o tempo, sem confundir episódios isolados com tendências consolidadas.
Para o leitor, a mensagem essencial permanece simples: gonorreia tem tratamento e procurar diagnóstico precocemente continua sendo a melhor conduta. Resistência antimicrobiana não deve produzir pânico; deve produzir vigilância, diagnóstico adequado, tratamento correto e confirmação de cura quando indicada.
Para os sistemas de saúde, porém, a mensagem é mais exigente. Cada falha terapêutica precisa ser investigada. Cada isolado resistente precisa ser caracterizado. E cada nova opção de tratamento precisa ser preservada para que continue funcionando pelo maior tempo possível. Fontes principais: Organização Mundial da Saúde, programas EGASP e GLASS; European Centre for Disease Prevention and Control, por meio do Euro-GASP; UK Health Security Agency e o programa GRASP; Centers for Disease Control and Prevention; Ministério da Saúde do Brasil e literatura científica revisada por pares.
Nota ao leitor
Este conteúdo tem finalidade informativa e de saúde pública. Diagnóstico e tratamento de gonorreia, especialmente diante de suspeita de falha terapêutica ou resistência antimicrobiana, exigem avaliação profissional. Os tratamentos de resgate mencionados descrevem evidências e casos publicados e não constituem orientação para automedicação.
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