,
Agência de Notícias da Aids |
Editoria: | Pág. |
Dia / Mês/Ano: |
|
|
|
05/DEZEMBRO/07 |
Brasil participava do mesmo projeto suspenso na África do Sul
4/12/2007 – 11h25
Luiz Brígido, cientista do Instituto Adolfo Lutz, não está em Abuja, na Nigéria, mas colabora e acompanha a evolução do Programa africano de vacinas. Para tanto, participou ativamente no Primeiro Seminário da Mídia Lusófona, em Lisboa, em novembro passado, que teve como objetivo formar comunicadores destinados a divulgar e informar corretamente seus países sobre a situação atual da Aids, evolução das pesquisas sobre vacinas, prevenção e descartar as informações falsas e superstições ligadas à doença, principalmente na África. Diretamente do Instituto Adolfo Lutz, ele aceitou responder algumas perguntas sobre a evolução das pesquisas se vacinas no Brasil e fazer paralelos com as pesquisas e situação africanas.
A comunidade científica espera o balanço do programa africano de vacinas contra Aids, na Nigéria, mas já se sabe que a vacina candidata tailandesa é a mais avançada, enquanto na África do Sul voltou-se ao ponto zero. E no Brasil, como vão os testes? Em que fase estão?
O Brasil estava participando do estudo HVTN-MERCK que foi interrompido recentemente. Apesar da interrupção, os voluntários estão sendo acompanhados e vêm recebendo informações e apoio da equipe brasileira envolvida no estudo. Esse estudo era um fase 2b, envolvendo pessoas em risco acrescido. Outros 2 estudos estão em andamento, todos fase 1 já com a vacinação terminada e os voluntários sendo acompanhados. Um estudo com produto vacinal em parte baseado no carreador viral (Adenovírus) utilizado no estudo interrompido está sendo re-programado e possivelmente será suspenso. As pesquisas com produtos vacinais no Brasil estão sendo realizadas dentro do contexto do HVTN, rede de pesquisa do NIH, porém estudos de imunologia e virologia voltados a vacinas tem sido conduzidos por diferentes grupos no País, inclusive com parceiros internacionais, como o ANRS, e estudos de demanda, em parceira com IAVI. O Ministério de saúde tem investido também em estudos voltados para vacinas terapêuticas.
Como vê o avanço da Aids nos países lusófonos africanos? Acha que o esforço do programa africano para criar quadros de cientistas locais poderá levar a uma solução africana ou o continente continua dependente da ajuda externa?
A situação da Aids na África é grave e deve ser encarada como uma calamidade global, merecendo atenção de diferentes organismos internacionais. A situação entre países lusófonos é heterogênea, com algumas nações, como Cabo Verde, com baixas taxas de infecção pelo HIV na população e outros, como Moçambique, com número bem mais preocupantes. O reforço da capacidade instalada, em especial o investimento em recursos humanos é parte da solução e a única forma de garantir uma resposta sustentada.
O programa africano de vacina contra Aids decidiu abrir um espaço em língua portuguesa para chegar às populações dos países lusófonos, com o apoio da OMS. Como vê essa troca de informações lusófonas, ela também existe entre os cientistas lusófonos?
A integração entre nações lusófonas ainda é tímida e um esforço nessa direção pode favorecer a troca de experiências, disseminação do conhecimento e fortalecer o combate à Aids.
A presença brasileira em Moçambique pode ajudar nos testes africanos de vacinas. Qual o papel do Brasil, do Instituto Adolfo Lutz e outros brasileiros na colaboração com os africanos?
O Brasil tem como prioridade de sua política externa apoiar iniciativas de colaboração com países africanos. Diferentes institutos têm colaborado nesse esforço, inclusive o Instituto Adolfo Lutz, que tem recebido pesquisadores para treinamento. O Instituto participou da pesquisa recentemente interrompida pelo HVTN com a vacina de Adenovirus e pode contribuir na parte laboratorial para a capacitação de pessoal técnico de Países africanos.
O virus HIV africano é muito diferente do existente no Brasil ?
A diversidade genética do HIV na África é a maior em todo o mundo, uma vez que o vírus , assim com a espécie humana, surgiu nesse continente. No Brasil o vírus B predomina na maior parte do território nacional, com o vírus F presente na maior parte do país, mas em uma minoria ( por volta de 10%) das infecções. O vírus C predomina em alguns locais do sul do país. Essa variante C é a que predomina em alguns países lusófonos, com Moçambique. Angola tem uma maior diversidade viral, com outros variantes presentes, incluindo algumas, como o vírus F, comuns ao Brasil.
As últimas estatísticas da doença no mundo mostram menos infecções nos países desenvolvidos, enquanto a Aids avança em alguns países asiáticos, nas regiões pobres da federação russa e continua sendo um flagelo na África. Isso quer dizer que a Aids virou mais uma das chamadas doenças da miséria e da pobreza?
As condições de miséria e pobreza que infelizmente acometem importantes setores das nações lusófonas propiciam a disseminação da Aids e são obstáculo ao controle da epidemia. Combater essas condições favorece o controle da epidemia e os esforços em ações que procurem soluções abrangentes pode favorecer a eficácia das ações em Saúde Pública.
A OMS discute em Genebra, e vai ser também tema na Nigéria, a questão da propriedade intelectual dos remédios e vacinas e a necessidade dos laboratórios investirem mesmo nos países pobres, sem retorno para investimentos, como a comunidade científica aborda essa questão, qualificada de humanitária, pelo representante do Brasil em Genebra ?
O Brasil, apesar de cumprir os acordos internacionais de propriedade intelectual, sempre procurou contextualizar a questão da propriedade intelectual dentro de um espírito humanista, onde a garantia da saúde e bem estar das nações deva ter primazia frente às necessidades de realização de lucros. Embora seja claro que os investimentos realizados mereçam ser recompensados, devemos olhar a frente da questão puramente monetária e procurar encontrar acordos onde possamos convergir essas necessidades com os compromissos éticos que foram construídos durante esses milhares de anos de convivência da espécie humana. O processo civilizatório, longe de atingir sua plenitude, pode em muito se beneficiar de exemplos de compaixão e justiça social concretos. Os problemas de Saúde Pública Internacionais são um excelente campo para o exercício real de uma prática solidária que pode influenciar positivamente os rumos do século XXI.
Rui Martins
Descubra mais sobre Blog Soropositivio Arquivo HIV
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
