Empresas brasileiras estão longe dos padrões globais
Revista Idéia Socioambiental/São Paulo, 23 de Outubro de 2007 – Sociólogo fala de iniciativas para a sustentabilidade no Brasil e em outros países. Quando o britânico John Elkington criou a consultoria SustainAbility, há 20 anos, o cenário político e econômico mundial ainda assistia ao final da Guerra Fria e à corrida das empresas pela conquista de mercados e obtenção de lucros cada vez maiores, muitas vezes sem pensar nos impactos sociais e ambientais de suas ações. Hoje, com a sustentabilidade na agenda corporativa, Elkington tornou-se um dos especialistas no tema mais requisitados em todo o mundo. Seu interesse pela causa ambiental começou aos 11 anos de idade, quando mobilizou os colegas de sala com o objetivo de captar recursos para o então recém criado WWF (Fundo Mundial para a Natureza). Nos anos 1980, Elkington formulou o conceito de consumo verde, detalhado no Guia do Consumidor Verde, que virou o best-seller da década, um de seus dezesseis livros. Em 1987 fundou a SustainAbility, uma consultoria que auxilia empresas de todo o planeta a produzir com responsabilidade social. Hoje, a organização está focada em um trabalho intenso e contínuo em países emergentes e terá, a partir 2008, uma sede na Índia. A atuação da SustainAbility nos últimos 20 anos reflete a trajetória de um profissional que assistiu às principais mudanças político-econômicas da segunda de do século 20 e contribuiu para o nascimento do conceito triple bottom line, que significa a conjugação de resultados financeiros, sociais e ambientais. Em entrevista à repórter Carmen Guerreiro, Elkington traça um panorama geral da Responsabilidade Social Empresarial (RSE) no mundo. O debate no Brasil Fiquei muito impressionado com a rapidez com que alguns líderes executivos brasileiros se sensibilizaram para essas questões, mas também pela escala vertical dos desafios econômicos, sociais e ambientais que o país enfrenta. Para mim, e talvez isso não surpreenda, um destaque são as conferências do Instituto Ethos, que têm um público extraordinário. Chamou-me a atenção o fato de uma grande parcela desse público ser formado por mulheres jovens. Isso é muito empolgante, uma vez que nossa experiência com o SustainAbility mostra que as mulheres jovens são mais abertas para o mundo, têm mais energia e compromisso; mas também pode nos revelar algo sobre como as empresas estão posicionando a RSE em seus negócios e quem estão contratando para trabalhar com isso. Fiquei impressionado com o nível de entendimento e entusiasmo. A maioria das empresas brasileiras, porém, ainda tem um caminho considerável para trilhar antes de atingir qualquer coisa que se assemelhe a padrões globais. A necessidade dos líderes Líderes bem sucedidos sempre foram socialmente responsáveis. A real questão tem sido como eles definem o grupo, comunidade ou sociedade pela qual se sentem responsáveis. E até que ponto existiu um real equilíbrio entre líderes e liderados. Com a globalização, líderes estão sendo demandados a assumir responsabilidade por um quadro muito mais amplo de pessoas pelo mundo inteiro. Com desenvolvimento sustentável, eles também estão sendo cobrados a aceitar um crescente nível de responsabilidade em relação às futuras gerações. Desafios Seres humanos são animais de rebanho. A maioria de nós se sente vulnerável ao se distanciar muito do resto do grupo. Se uma nova linguagem surge, e pessoas interessantes e líderes começam a usá-la, então nós começamos a usá-la também. Mas o salto entre falar sobre novas coisas e agir sobre elas sempre foi muito grande, particularmente quando existem grandes incertezas, escolhas e trocas envolvidas. Isso dito, não me preocupo muito com a questão. Pensamento e prática A Escandinávia tornou-se liderança nessa área, ainda que tenha existido, por um longo período, uma ênfase na legislação, enquanto a União Européia se concentrou em iniciativas voluntárias e empresas de países como a Suécia, por exemplo, sentiram a necessidade de se atualizar. Têm-se discutido muito sobre RSE na União Européia e, pelo menos em algumas áreas – como as que incluem relatórios de sustentabilidade (ou não-financeiros) corporativos e regulamentação – a região está em uma espécie de posição de liderança. Vimos novas leis serem criadas, como o sistema REACH (sigla em inglês para registro, avaliação, autorização e restrição para o uso de produtos químicos) para testes químicos, e a diretiva WEEE (desperdício de equipamentos elétricos e eletrônicos), que define as orientações para o descarte e controle dos equipamentos elétricos e eletrônicos usados. Outras áreas nas quais as empresas da União Européia, especificamente aquelas sediadas no Noroeste Europeu, estão razoavelmente avançadas, são as de produtos orgânicos e comércio justo. No Japão, empresas líderes são boas em eficiência energética e questões ambientais. Nos Estados Unidos, vemos grandes companhias estabelecendo s ambiciosas em termos de sustentabilidade ambiental, notadamente, a General Eletric, com sua iniciativa “Ecomagination”, e o Wal-Mart, com seus planos de parar de estocar bulbos de lâmpadas incandescentes e instalar energia solar nas centenas de telhados de suas lojas espelhadas pelo mundo. Alguns estados americanos – particularmente a Califórnia – vêm crescendo como líderes nessas áreas, com soluções regionais de transporte de baixa emissão. Entre as economias emergentes, observamos empresas particulares fazendo um bom trabalho, a exemplo da Natura, no Brasil, e da Infosys, na Índia. Mas, tipicamente, países como esses ainda têm muito a fazer. As empresas chinesas têm sido manchetes recentemente por causa de suas atitudes desleixadas envolvendo propina e corrupção. Grandes temas As mudanças climáticas são a grande questão na Europa e, cada vez mais, nos Estados Unidos, apesar de a administração Bush tentar ignorar o desafio. Mas uma gama propina e corrupção – vem sendo introduzidas, nos últimos anos, na agenda do Fórum Econômico Mundial e da Clinton Global Initiative. Evolução das discussões Na área ambiental, as mudanças climáticas fizeram mais sucesso do que os temas relativos à biodiversidade, por exemplo, ainda que ambas as questões sejam de igual importância. Na área social, a agenda dos direitos humanos evoluiu dramaticamente, de forma que questões como acesso à energia a baixos custos, água limpa e medicamentos para doenças como HIV/AIDS, malária e tuberculose são, cada vez mais, apresentadas a empresas como direitos humanos básicos. As implicações para os modelos de negócio – e de lucratividade – de muitas dessas empresas são profundas. Sustentabilidade Um país pode se desenvolver por longo tempo baseado em negócios não-sustentáveis, levando minerais à exaustão, poluindo ou secando fontes de água, e minando recursos naturais como os peixes e as florestas. Mas, a não ser que o governo esteja preparado para forçar a redução da população local de forma a controlar a destruição do meio ambiente, o resultado final será, de alguma maneira, o colapso. O desenvolvimento sustentável, em contraste, significa planejar e agir como se pretendêssemos continuar nesse planeta, e na nossa área particular dentro deste. E em um mundo projetado para atingir de nove a dez bilhões de pessoas até meados deste século, algo que eu não espero que aconteça por outras razões, também significa melhorar radicalmente os sistemas políticos, sociais e econômicos – incluindo a tecnologia – para assegurar que padrões aceitáveis de vida possam ser atingidos não só conservando, mas também regenerando as fontes naturais. Da teoria à prática Alguns passos mínimos são realizar uma revisão ou auditoria das questões-chave; iniciar o relacionamento com acionistas, funcionários, comunidade, clientes e fornecedores e com os demais implicados na atividade da empresa; construir os processos de pensamento necessários para trabalho para os altos executivos, e fazer lobby para a
s
mudanças necessárias em incentivos para o mercado (tanto recompensas quando penalidades), para garantir, em termos mais simples, que as coisas boas aconteçam com mais freqüência que as ruins. Tendências Os mercados e as políticas do século 21 serão definidos pela interação entre os diferentes aspectos da globalização e uma agenda de sustentabilidade em evolução. Fizemos um relatório na SustainAbility que analisa as principais tendências da globalização para as próximas duas décadas e suas implicações para a responsabilidade social empresarial e a agenda de desenvolvimento sustentável. O mundo globalizado de hoje tem características singulares: mercados financeiros globais interconectados, urbanização sem precedentes, crescentes disparidades e conflitos potencialmente explosivos entre ricos e pobres, desafios para a diversidade em suas formas biológica, ecológica, humana e social; insegurança climática e ambiental; vácuos de governança e uma bem-vinda inquietação: a proliferação de redes dedicadas a regenerar o meio ambiente e promover justiça social. Novos atores estão avançando no campo da globalização. A China e a Índia, com suas impressionantes taxas de crescimento, estão impactando os mercados de commodities e o comércio internacional, enquanto promovem novas relações comerciais Sul-Sul no cenário global. Outras economias emergentes, como o Brasil e a África do Sul, começam a desempenhar papéis regionais e globais cada vez mais importantes. Na medida em que sua influência econômica cresce, países em desenvolvimento também tentam mudar as regras da globalização a seu favor. O crescimento econômico tem graves conseqüências para a sustentabilidade. Juntos, a China, a Índia, o Brasil e a Rússia respondem por 30% das emissões globais de CO2. Embora as oportunidades floresçam, agravam-se os conflitos relacionados à demografia, riqueza, gênero, nutrição, saúde, recursos ambientais, educação, informações, segurança e governança. Veja mais no site: http://www.ideiasocioambiental.com.br (Gazeta Mercantil/Caderno A – Pág. 14)(Carmen Guerreiro)
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