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Filme aborda conversa sobre sexo e Aids com filhos

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O Estado do Maranhão – MA

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03/MARÇO/08

03/03/2008 – 02h07

Filme aborda conversa sobre sexo e Aids com filhos

 
RIO – Qual é a idade certa para que o pais tenham "aquela conversa com os filhos", não só sobre a origem dos bebês mas também sobre sexo e Aids? Que tal aos 4 anos?

Um novo documentário, Please Talk to Kids About Aids, evoca essa questão de maneira fofa mas um tanto desconcertante. Até agora, o filme foi exibido apenas em festivais de cinema e em escolas de saúde pública, entre as quais as das universidades Harvard e John Hopkins. Mas o filme em breve estará disponível em http://www.eztakes.com/Talk-to-Kids. Eu assisti no mês passado, em uma exibição promovida pela Gay Men”s Health Crisis para terapeutas especializadas em acompanhar pacientes de Aids.

No documentário, duas irmãs incrivelmente meigas e precoces – Vineeta Hennessey, 6 anos, e Sevilla Hennessey, 4 anos – acompanham seus pais, os diretores do filme, a uma conferência internacional sobre Aids realizada em Toronto em 2006. As irmãs entrevistam respeitados especialistas em Aids, ativistas gays, distribuidores de camisinhas, uma mulher especializada em vender brinquedos eróticos, um travesti que se fantasia de Rainha Elizabeth 2ª e um transgênero indiano, ou hijra, vestido em um sari.

O aspecto surpreendente é que, à medida que as perguntas infantis se sucedem, surgem questões como "de que jeito a Aids entra no seu corpo?", e "por que vocês querem fazer sexo um com o outro?" Para um jornalista, é uma espécie de prazer mórbido assistir a alguns dos principais cientistas do mundo se contorcendo – ou não – sob interrogatório cerrado por duas menininhas.

O médico Anthony Fauci, um dos mais respeitados especialistas norte-americanos em questões virais, parecia tão relaxado quanto nas muitas entrevistas que concede a redes de televisão, ou em seus depoimentos ao Congresso. "Quando um homem e uma mulher têm relações sexuais" ele começa, "eles podem se infectar. E também se usarem uma agulha contaminada com o vírus em uma injeção".

Mas, diante das crianças como dos senadores, Fauci manobra habilidosamente para escapar a novas rodadas de perguntas, com a pergunta: "Vocês sabem o que é vírus?" Em contraste, o médico Mark Wainberg, co-presidente da conferência, se desmanchou em risadas nervosas, quando as meninas o abordaram.

"Bem, a Aids entra no seu corpo de maneiras que… pode ser difícil explicar para meninas pequenas", disse, e hesitou antes de concluir com "do mesmo jeito que sua mãe e seu pai têm uma relação que resulta em… que vocês cheguem ao mundo. Mas, sabem, a pergunta que vocês fizeram é ótima. O problema é que não sei se estou qualificado a responder".

As meninas recebem respostas diretas sobre conjunção carnal de Craig McClure, o diretor da Sociedade da Aids, organizadora da conferência, e sobre a prestação de serviços sexuais por dinheiro, de uma ativista que defende os direitos dos profissionais do sexo.

Mas o filme está longe de ser uma palestra médica. A dança, os marionetes e as bandeiras que enfeitam o saguão dão à conferência um ar de feira de artes. De fato, uma parada não planejada à mesa do Condom Project, convenceu Brian Hennessey e Radia Daoussi, a usar suas filhas como peça central do filme.

Sevilla achava que as embalagens coloridas contivessem doces, e adorou o vestido de baile e as roupas de balé feitas de camisinhas azuis e rosa. Ela perguntou a respeito, e o esforço da voluntária para simplificar o discurso padrão deixou claro que a inocência de uma criança era uma boa maneira de conseguir boas entrevistas.

Mas a inocência, um dom passageiro, não demorou a desaparecer. Em um dado momento, Vineeta desenha diante da câmera uma imagem de duas pessoas na cama. "Essas são as camisinhas", ela explica, apontando para uma vasilha na mesa de cabeceira. "O menino as coloca no pênis para não pegar Aids com uma mulher ou homem. Um homem pode fazer a coisa com outro homem, se ele gostar".

O interessante é que apenas alguns dos entrevistados verificaram para ver se a produtora e o câmera eram mesmo os pais das meninas. Para mim, essa teria sido uma providência crucial; afinal, eu não poderia explicar a uma criança que Papai Noel não existe ou que sou ateu sem que os pais me autorizassem.

A mulher no estande dos profissionais do sexo o fez, enquanto enfeitava as meninas com boás de pena, para uma suposta noite de trabalho nas ruas. "Eu estava imaginando por que você trouxe as meninas aqui", ela disse ao pai. Wainberg, coitado, disse que os preparativos para a conferência o deixaram assoberbado, e que ninguém o havia informado sobre as meninas antes de elas chegarem para a conversa. "Eu fiquei meio ressabiado", disse mais tarde, em entrevista por telefone. "Não estava certo de que aquele fosse o lugar e a hora para começar uma longa explicação sobre os pássaros e as abelhas".

Fauci disse ter sido informado por um assessor de imprensa, e orientava suas respostas de acordo com as reações das meninas. Eu gostaria que elas fossem mais exibidas, no filme. As jovens repórteres pareciam confusas? Entediadas? Horrorizadas? Depois que o filme acabou, fiquei para conversar com elas. Será que eram robôs traumatizados explorados para fins publicitários por pais controladores e obcecados por publicidade?

Não eram. Hennessey e Daoussi têm uma missão, mas não perderam o senso de humor. Por exemplo, para protestar contra as bombas de fragmentação, que portam pequenas esferas explosivas cujas detonações ferem as crianças que as encontram, eles deram início a uma caçada dessas esferas perto do local em que a caçada aos ovos de Páscoa da Casa Branca estava sendo conduzida.

As meninas pareciam tranqüilas, e confortáveis na companhia de adultos. Quando um espectador perguntou se ela tinha algum conselho a oferecer, Vineeta respondeu: "Sim. Não divida as coisas demais. Como dizem na minha escola, não use o pente ou o chapéu dos outros, por causa dos piolhos". Daoussi argumenta que não existe idade certa para o tópico. "A idade certa é a ida
de
em que as crianças começam a perguntar", disse. "Nosso desconforto é que é o problema, e é nosso, não delas. Crianças não têm tabus".

Saí apenas parcialmente convencido. Uma situação assim pode levar crianças muito jovens, que não teriam como avaliar que temores são realistas, a obter informação que as assuste – por exemplo, perder o sono imaginando que seus pais podem morrer se fizerem sexo. Sevilla disse que se assustou duas vezes – uma com um número de teatro africano que mostrava um massacre em uma aldeia, e a segunda ao descobrir o que um profissional do sexo faz. "Sei que é um emprego", disse, "mas que emprego esquisito".

O filme não é realmente para crianças – certamente não em sua forma atual, como até mesmo os realizadores admitem. Para um pai, porém (e tenho um filho adotivo da idade de Vineeta), assistir aos filhos pequenos – talvez pequenos demais – de outras pessoas confrontando o tópico é uma poderosa exortação para que comecemos a pensar sobre como falar sobre o assunto com nossos filhos.

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