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O GLOBO | O MUNDO
LGBT 15/07/2010 Manifestantes se enfrentam diante do Congresso durante debate acirrado Monica Yanakiew Especial para O GLOBO • BUENOS AIRES Uma reforma do Código Civil, que converteria a Argentina na primeira nação da América Latina e do Caribe a aprovar o casamento gay, está dividindo o país. Durante toda a tarde de ontem, as cadeias de televisão transmitiram ao vivo um acirrado debate no Senado, que entrou pela noite, enquanto milhares de argentinos desafiavam a onda de frio polar para sair às ruas em defesa de suas convicções. Do lado de fora do Congresso, militantes da comunidade gay, de organizações sociais, de partidos políticos e grupos religiosos se enfrentaram, discordando sobre o projeto para que casais homossexuais tenham os mesmos direitos que os heterossexuais. Dezenas de cristãos, com faixas laranjas nos braços, ergueram a imagem da Virgem, orando: “Santa Maria, mãe de Deus, rezai por nós pecadores”. Na praça, separados por um cordão policial, representantes da comunidade gay e de organizações políticas que apoiam o governo ergueram bandeiras multicoloridas e cartazes contra o que chamaram de “ditadura clerical”. Responderam gritando: “Iglesia, basura, voto la dictadura” (Igreja, lixo, votou a ditadura). O duelo durou até que os cristãos, agredidos com cascas de laranja e ovos, recuaram, chamando os agressores de “intolerantes”. – A Igreja argentina não fez nada pelos que foram torturados e assassinados pela ditadura. Pelo contrário, apoiou o regime militar. Mas mobilizouse para impedir que o Congresso aprovasse o divórcio e agora contra o casamento gay. Não vejo razão para obrigar todos, inclusive aqueles que não têm religião, a seguir as regras cristãs – disse ao GLOBO Mariana Vitali, artista plástica de 53 anos. Oposição denuncia pressão do governo Dentro do Congresso, cruzes, declarações picantes e até piadas marcaram o debate entre os senadores sobre o projeto, que já passou pela Câmara. Na disputa voto a voto, a senadora Adriana Bortolozzi (FPV) denunciou pressões por parte do governo sobre duas parlamentares que viajaram com a presidente Cristina Kirchner à China: – Agora o calabouço é o avião presidencial – disse. Já a senadora Sonia Escudero argumentou que o projeto estava sendo votado às pressas para favorecer o governo e que contém irregularidades. Segundo ela, discrimina os casais heterossexuais. Uma mulher casada com um homem tem que adotar seu sobrenome e colocar o nome do marido nos filhos, enquanto que uma mulher casada com outra pode escolher que sobrenome adotará ou dará ao filho. Na véspera do debate, as Igrejas Católica e Evangélica já tinham realizado uma manifestação, com milhares de pessoas marchando até o Congresso. Não foi a única mobilização. No domingo, sacerdotes leram, durante as missas, um documento, explicando a posição da Igreja: o matrimônio é uma união entre pessoas de sexos diferentes para constituir uma família e “constatar uma diferença real (entre homens e mulheres) não é discriminar”. No mesmo dia, o arcebispo de Buenos Aires, cardeal Jorge Bergoglio, referiu-se ao casamento gay como um “ataque ao plano de Deus”. A resposta do governo não tardou. Na China, onde estava em visita oficial, Cristina criticou a Igreja que, segundo ela, ainda vive “nos tempos das Cruzadas”. Para ela e seu marido, o expresidente e deputado Néstor Kirchner, o casamento gay é mais que um projeto de lei. Segundo analistas políticos, é uma bandeira para reforçar a imagem de casal progressista, de olho na reeleição (dele ou dela) em 2011. O divórcio só foi aprovado na Argentina em 1987, e até 1994, para ser presidente ou vice, era preciso ser católico. Mas em 2003, Buenos Aires se converteu na primeira cidade da América Latina a aprovar a união civil entre pessoas do mesmo sexo. Isso dá aos casais homossexuais de Buenos Aires direitos municipais como acesso a uma linha de crédito do governo destinado às famílias. Mas não confere direitos nacionais, como herdar do cônjuge ou adotar uma criança. – Foi um avanço importante, mas não o suficiente – disse o advogado e militante da Comunidade HOMOSSEXUAL Argentina (CHA), Pedro Paradiso Sottile. |
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