O impacto (ambiental) do filho evitado

pilula

As pílulas anticoncepcionais, utilizadas por mais de 100 milhões de mulheres em todo o mundo, contêm uma quantidade muito pequena de substâncias capazes de bloquear a produção de óvulos pelos ovários. Sem óvulos capazes de serem fertilizados, o sexo pode ser praticado sem o risco de a mulher engravidar.

Um dos componentes mais usados na composição de pílulas anticoncepcionais é o ethinyl-estradiol (EE2), uma molécula semelhante ao estrógeno. Ao contrário do estrógeno produzido pelo corpo, o EE2 não é rapidamente degradado pelo fígado e, portanto, pode ser administrado em doses extremamente baixas. Isso tornou possível o desenvolvimento das pílulas anticoncepcionais em meados do século 20. Nos últimos 50 anos, as doses e combinações de hormônios nas pílulas foram aperfeiçoadas com a intenção de reduzir os efeitos colaterais sobre o organismo da mulher. O resultado é que hoje dispomos de pílulas extremamente seguras, baratas e quase infalíveis (se as mulheres não se esquecerem de tomá-las todos os dias e os fabricantes não substituírem o estradiol por farinha).

Mas o fato do EE2 não ser degradado tem uma consequência importante. Ele é retirado intacto do sangue pelos rins e excretado na urina de todas as mulheres que tomam o anticoncepcional. E essa urina acaba no sistema de esgoto das cidades, que, depois de tratado, é despejado nos rios.

A quantidade de EE2 presente nas pílulas é pequena e extremamente segura para os seres humanos, mas o mesmo não pode ser dito para diversas formas de vida aquática. Ao longo dos últimos anos, diversos experimentos demonstraram efeitos nocivos do EE2 sobre a reprodução de peixes.

Em algumas espécies de peixes, as doses de EE2 despejadas nos rios provocam alterações nos testículos e impedem sua reprodução. Em outras, provocam o aparecimento de indivíduos Transexuais. Um estudo cuidadoso, feito em 2001 no Canadá, adicionou a um lago doses mínimas de EE2 (5 miligramas para cada milhão de litros de água).Diversos peixes tiveram sua reprodução reduzida e uma espécie foi totalmente dizimada, desaparecendo do lago. Atualmente, doses muito maiores que essas são encontradas nos rios que recebem o esgoto tratado de diversas cidades.

Em 2004, a agência ambiental inglesa admitiu que era necessário administrar esse risco para o meio ambiente. E finalmente, neste ano, a União Europeia decidiu que até 2021 o nível máximo aceitável de EE2 no rios deve ser reduzido a 0,035 miligramas para cada milhão de litros de água. Nesses níveis, essa opção para evitar filhos não afeta a reprodução dos peixes.

Pílulas mais caras. Essa decisão está sendo amplamente debatida. O problema é o investimento necessário para tratar o esgoto e remover o excesso de EE2. O método mais barato consiste em filtrar a água com carvão ativado, o que para uma cidade de 250 mil pessoas custa R$ 20 milhões para instalar e R$ 2 milhões por ano para trocar os filtros. E quem deve pagar essa conta? Todos os cidadãos, quem polui ou a indústria farmacêutica que vende as pílulas? Qualquer que seja a escolha, o custo de evitar filhos vai subir.

É claro que o EE2 não é uma das maiores ameaças ao meio ambiente, mas um aumento no custo dos anticoncepcionais pode ter um impacto significativo no mundo.

A capacidade do ser humano de controlar sua reprodução, evitando o crescimento descontrolado da população, é um dos fatores mais importantes para a preservação do meio ambiente. O controle populacional contribui para reduzir a devastação dos ecossistemas, facilita o combate a pobreza, ajuda no esforço educacional e aumenta a liberdade das mulheres, permitindo sua participação mais ativa no mercado de trabalho. Parte de todos esses ganhos pode ser creditada à disseminação de métodos baratos, seguros e eficazes de contracepção. E a pílula é um dos mais importantes.

O dilema a ser enfrentado pela União Europeia, que em novembro vai ter de decidir se coloca ou não o EE2 na lista de substâncias poluentes, é no mínimo cruel.

O que você decidiria? Devemos exigir a remoção do EE2 dos rios, aumentando direta ou indiretamente o custo dos anticoncepcionais e salvar algumas espécies de peixes? Ou devemos sacrificar esses peixes e manter os anticoncepcionais cada vez mais baratos, garantindo um controle cada vez mais eficiente da natalidade, o que pode ajudar a salvar milhares de espécies ameaçadas pela expansão descontrolada do Homo sapiens? Esse é um bom exemplo dos dilemas e compromissos que terão que ser enfrentados se desejamos preservar a Terra, mais um bom tópico para ser discutido nos corredores da Rio+20.

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21/06/2012 03:10

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