Início Ação Anti AIDS Pedra repleta de efeitos perversos

Pedra repleta de efeitos perversos

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Os danos causados pelo crack não se restringem às limitações físicas e emocionais nos usuários. A prostituição, as doenças sexualmente transmissíveis e o aumento de crimes violentos caminham lado a lado com a disseminação da droga

 

Renata Mariz

 

Enviada Especial Barrinha (SP) – Um bar, 25 quilos, o marido, alguns dentes e a possibilidade de fazer sexo apenas quando tem vontade. São muitas as perdas contabilizadas por Margarida* desde que experimentou pela primeira vez o crack, sete anos atrás. Hoje, a moradora de Barrinha, município com pouco mais de 20 mil habitantes no interior de São Paulo, passa o dia bebendo em cubículos espalhados pela cidade e imaginando formas de conseguir a droga. Entre um trago e outro, a mulher de 38 anos faz alguns programas em troca de R$ 20 – valor máximo que recebe. “É um saco de arroz e uma pedra”, calcula Margarida, mãe de três filhos, dos quais o caçula tem hidrocefalia.

 

 

Na esteira do vício que assola o país, a prostituição, o aumento de crimes violentos e a disseminação de doenças como a AIDS são apenas alguns dos problemas associados. Margarida tem consciência da degradação em que vive. “Meu menino é doente, precisa de mim. Sei que estou errada. Mas não consigo mais parar”, conta a mulher. Quando não consegue clientes na pequena cidade em que nasceu, cuja boa parte da população é de trabalhadores da lavoura de cana-de-açúcar, Margarida vai para as margens da SP-253. A rodovia movimentada não costuma deixar a mulher na mão. Depois do programa, é só voltar para o centro de Barrinha atrás de alguma das muitas bocas de fumo e comprar o crack.

 

 

“Aqui a pedra custa R$ 10, antes era R$ 5. Mas fizeram tipo um tabelamento”, reclama Margarida. Com a gíria típica dos usuários de crack, ela conta como o vício está disseminado. “Tem muito noia na cidade, em todo lugar você vê”, afirma. Para Margarida, os dois últimos anos como “noia” foram os mais devastadores. “Já fumei um bar. Era um bar de mulher, sabe? Quando engrenei na pedra direto, o bar virou fumaça”, destaca. Nas noites com mais oferta de programas, Margarida chega a fumar 20 pedras. “Uma vez eu desmaiei, tenho problema de pressão”, explica. O sexo com caminhoneiros e cortadores de cana, segundo ela, não é bom. “Mas pelo crack a gente faz tudo”, resume.

 

 

Adolescente em ruínas

 

A pele clara, o rosto bem desenhado e o jeito de menina fazem sucesso. Com 16 anos, Carolina* troca a noite pelo dia. Morando no único cômodo de uma casa em ruínas em que há teto, na companhia de uma amiga, dois cachorros e muito lixo, a menina costuma acordar depois das 12h. “Teve vezes de eu levantar às 19h”, lembra. De madrugada, é hora de consumir o crack. Para conseguir dinheiro, usa a beleza ainda preservada pelo pouco tempo de vício. “Sempre tem os coroas que procuram a gente”, diz, um pouco tímida. Reunida com colegas, ela já chegou a gastar R$ 500 em pedra numa única noite.

 

 

Desde que conheceu o crack, depois de usar cocaína em pó, Carolina largou a escola, em Barrinha, onde cursava a 7ª série. Vez por outra, aparece na casa da mãe. “Não queria que ela soubesse, mas ela acabou descobrindo”, afirma. A menina conta que começou fumando maconha, até ser enviada pela família a Ribeirão Preto, para ficar com uma irmã. “Ela achou que eu estava aprontando demais aqui e me mandou para lá. Mas foi pior. Em Ribeirão conheci o pó e a pedra”, lembra. De volta a Barrinha três anos depois, a vida se divide entre noite, hora de se prostituir para fumar, e o dia, momento de descansar para a próxima jornada.

 

 

Indigência e morte

 

Quase 40% dos municípios do interior capixaba, excluindo os sete que compõem a região metropolitana, registraram homicídios de janeiro a outubro deste ano. O mais alto índice já verificado no Espírito Santo é atribuído pelo secretário estadual de Segurança Pública, Rodney Miranda, à proliferação da pedra elaborada dos restos da cocaína. “De 70% a 80% das mortes violentas têm relação direta com drogas, sendo a maior parte o crack”, diz. Para o especialista, o principal desafio no combate à pedra está em sua pulverização pelo país.

 

 

“Com o acesso fácil, a oferta aumenta, o preço cai e o número de consumidores cresce. Aí temos a questão do vício incontrolável, que culmina nos problemas sociais, como prostituição e crimes violentos. Aí o cara já faz qualquer coisa pela pedra, inclusive roubar e matar”, afirma Rodney.

 

 

A realidade é semelhante no Rio Grande do Sul. Cresceu de 2% para 55% o índice de jovens envolvidos em ocorrências policiais que estavam sob o efeito do crack. No Paraná, a cada 10 homicídios, 8 estão ligados ao tráfico. Psiquiatra do Hospital das Clínicas em São Paulo e coordenadora do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), Camila Magalhães explica que, por ser uma droga estimulante, o crack atinge diretamente a região do cérebro ligada a atividades prazerosas e vitais, como fazer sexo, comer e tomar água.

 

 

“Talvez venha daí o desejo desenfreado de continuar usando. Os danos levam rapidamente o dependente a viver como indigente. O crack desumaniza o indivíduo”, lamenta Camila. A psiquiatra destaca que a expectativa de vida do usuário gira em torno de oito anos, de acordo com estudos preliminares já realizados no país. “Não por questões essencialmente de saúde, mas sim por homicídio”, diz a médica. Rodney ressalta que o preço, muito apregoado como barato, acaba saindo caro para o dependente. “Para quem precisa fumar 10 pedras por dia, sai caro”, destaca o secretário.

 

O número

 

R$ 500

 

Quantia gasta por Carolina* e as amigas, em apenas uma noite, com o crack

 

*Nomes fictícios

 

CORREIO BRAZILIENSE

Editoria: Pág. Dia / Mês/Ano:

BRASIL

30/NOVEMBRO/09


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