Pílulas, confetes e lantejoulas
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Diário de Pernambuco – PE | Editoria: | Pág. | Dia / Mês/Ano: |
Opinião |
| 16/FEVEREIRO/08 |
Lina Rosa
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Super terça. Uma semana antes das prévias eleitorais americanas (não menos carnavalescas que as nossas prévias de Momo), os jornais pernambucanos publicaram o movimento da Arquidiocese de Olinda e do Recife para impedir a distribuição da PÍLULA do dia seguinte pelo SUS. Susto. Na semana pré, que deveria ser de prevenção, não de pré-história, Dom José dispara contra a PÍLULA emergencial, num discurso tão perigoso quanto transar sem CAMISINHA. Aliás, CAMISINHA também é proibido. Segundo a Igreja Católica, o ato sexual não pode impedir a concepção. Deve ser por isso, não é Dom José?, que o catolicismo tenta, sem muito sucesso, reprimir o homossexualismo. Eis um ato sexual que impede a concepção, com ou sem CAMISINHA. E sem jamais precisar da tal PÍLULA do dia seguinte.
Super terça. Taí uma boa fantasia para o bloco Enquanto Isso na Sala da Justiça. Quem seriam os heróis? A PÍLULA do dia seguinte, a CAMISINHA, os homossexuais e o Barack Obama teriam os meus votos. Por eliminatória, temos uma ótima fantasia de vilão para 2009.
Mas, de volta ao carnaval de 2008, quem estendeu as tradicionais ladeiras de Olinda às subidas dos morros do Recife ganhou metros quadrados de um carnaval bem diversificado. No Alto, não da Sé, mas do Zé do Pinho, a Orquestra de Frevo da Bomba do Hemetério, o Maestro Forró e todos os seus flertes com o jazz, o rock e o samba trouxeram as tubas pra frente e levantaram a comunidade pra bem acima da altitude do morro. Em Nova Descoberta, o jogo de luzes do palco se confundiu com as luzes vermelhas e brancas das viaturas que invadiram o espaço da platéia sem nenhum motivo aparente. A rapaziada estava de mãos ao alto por uma razão bem distante da violência. O show do Paralamas do Sucesso fez a galera erguer os braços e aplaudir por quase uma hora e meia. Som de altíssima qualidade, público de ótima resposta e polícia, como cantou Herbert Viana, "polícia para quem precisa de polícia".
No Pátio de São Pedro, Elza Soares mostrou um par de pernas de deixar qualquer craque defutebol no chinelo. Garrincha que o diga. Pernas pra dignidade, pros direitos humanos, pra música crítica, inteligente, afinada e afiada. Linda, Elza. Se a carne mais barata do mercado é a carne negra, Elza Soares deu cada pedaço do seu corpo pra banquetear a platéia, que comeu e bebeu todas as gotas do sangue blue da sua diva.
O fim do show de Elza coincidiu com o início do desfile da Mangueira. Chuva ou choro de Cartola? Seja o que for, foi justo. Se toda aquela água benta contribuiu para secar o verde e murchar o rosa, também serviu para lavar a alma dos amantes do verdadeiro centenário. Cronologias à parte, o ferver do frevo não poderia mesmo se manifestar em um ambiente tão frio. E não estou falando da nuvenzinha Adams que pairou bem na hora da Mangueira entrar e acompanhou, como quem pagou ingresso em camarote especial, todo o desfile. Não. Falo da frieza do samba-enredo, dos carros alegóricos, das fantasias. Tudo era frio, distante e superficial. Até os ilustres pernambucanos que atravessaram a Sapucaí. Agora, quem entrou atravessado foi os 101 anos do frevo, à frente do único e derradeiro carro alegórico de Cartola. O preto da cor de Elza e de coração verde e rosa. O preto que compôs cerca de 500 canções ao longo de seus 72 anos de vida. O preto que não teve direito a um samba-enredo em seus 100 anos de imortalidade.
Por falar em direito, mais estranho do que isso só o Dom José querendo tirar o direito do povo de receber PÍLULA de graça. E o povo vai tomar o quê, Dom José? Confetes três vezes ao dia? Lantejoulas de oito em oito horas? Que país é esse?
A resposta quem deu, em coro, foi a turma de Nova Descoberta durante o show de Herbert Viana: "É a porra do Brasil!"
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