, 20/10/2007 – 22h15A edição desta semana da revista Veja traz uma reportagem destacando o caso de extorsão sofrido pelo padre Júlio Lancelotti, coordenador da Pastoral do Povo de Rua e diretor da Casa Vida, que abriga crianças portadoras do HIV/Aids. A revista questiona por que uma pessoa como Lancellotti cederia à chantagem de um elemento como Batista e por tanto tempo e levanta três hipóteses sobre o caso: “1) Lancellotti está dizendo a verdade e foi vítima de uma armação; 2) não cometeu nenhum crime, mas cedeu à chantagem porque tinha algo que preferia não ver revelado; 3) a extorsão se baseava num fato real. No caso da primeira hipótese, a reação imediata e natural é o popular quem não deve não teme.” A reportagem encerra usando palavras do próprio padre quando cobrou providências no caso do assassinato de sete moradores de rua, em 2006, em São Paulo: “Nós não vamos nos esquecer. Vamos continuar cobrando até que a Justiça dê uma resposta”. Na mesma edição, o colunista Diogo Mainardi, tece diversas críticas ao padre e relembra que durante a sua campanha presidencial em 2002, “ao tratar do problema dos menores abandonados Lula apresentou a seguinte solução: “você pega o padre Júlio e bota ele pra cuidar de criança, ele vai cuidar melhor que qualquer aparelho de estado.” Dependendo do que a polícia descobrir, talvez não seja uma idéia tão boa assim colocar o padre Júlio para cuidar de criança. Leia a reportagem e a coluna de Diogo Mainardi na íntegra.O padre e o moço Júlio Lancellotti anuncia que foi chantageado por ex-protegido, que conheceu como menor infrator e o acuava com acusação do pior dos crimes: pedofilia Marcelo CarneiroAnderson Batista, 25 anos, tem um prontuário pesado na polícia de São Paulo. Foi interno na Febem e, já maior de idade, acumulou doze boletins de ocorrência por denúncias que vão de tráfico de drogas a lesão corporal. Um dos boletins é por homicídio culposo: atropelou, involuntariamente, o próprio filhinho de 3 anos ao dar ré num carro. O padre Júlio Lancellotti tem um currículo venerado entre organizações de defesa de moradores de rua, adolescentes infratores e crianças flageladas pelo vírus da aids. É capaz de pegar o telefone, pedir para falar com o presidente Lula e receber um retorno em poucos minutos. O presidente já passou quatro vésperas de Natal em obras sociais coordenadas por ele. Além de prestígio, Lancellotti também acumulou capacidade de angariar recursos. Organizações não-governamentais sob sua égide têm convênios da ordem de 10,6 milhões de reais anuais com a prefeitura de São Paulo, não obstante os atritos e as acusações de discriminação, na questão dos moradores de rua, feitas pelo padre. O dinheiro é usado no atendimento a 8.000 necessitados. Por que uma pessoa como Lancellotti cederia à chantagem de um elemento como Batista? Sob “todo tipo de constrangimento”, disse o padre ao jornal O Estado de S. Paulo na semana passada, quando anunciou publicamente que, há um mês, havia procurado a polícia para denunciar as extorsões sofridas desde 2004 nas mãos de uma quadrilha comandada por Batista. A coação mais grave envolvia a ameaça de denunciá-lo pelo terrível crime tristemente associado à Igreja Católica: abuso sexual de menores colocados em confiança na esfera de influência de padres pervertidos. Segundo a própria denúncia, Lancellotti pagou no total 56.000 reais aos extorsionários. Uma parte do dinheiro foi dirigida ao financiamento de uma caminhonete Mitsubishi Pajero, avaliada em 65.000 reais. O padre apresentou cartas e gravações para comprovar a acusação. Nas primeiras, Batista pede dinheiro em tom de familiaridade, até com uma certa gentileza. Nas segundas, a barra pesa. Numa das conversas, Conceição Eletério, mulher de Batista, intimida: “Vou dizer tudo. O senhor fica mexendo com as crianças de 3 anos, com meu filho. Meu filho está indo para a imprensa”. Um dos intermediários dos chantagistas foi preso em um flagrante armado pela polícia e com o conhecimento do padre no momento em que ia receber 2 000 reais. A Justiça decretou a prisão de Batista, de Conceição e de um terceiro acusado, todos foragidos. Como em qualquer outro caso do gênero, existem três hipóteses: 1) Lancellotti está dizendo a verdade e foi vítima de uma armação; 2) não cometeu nenhum crime, mas cedeu à chantagem porque tinha algo que preferia não ver revelado; 3) a extorsão se baseava num fato real. No caso da primeira hipótese, a reação imediata e natural é o popular quem não deve não teme. Por que pagou tanto dinheiro por tanto tempo? Em entrevistas que deu sobre a acusação, Lancellotti disse que as ameaças só se tornaram mais graves a partir de setembro deste ano. Antes, acreditava que conseguiria demover Batista, que conheceu ainda recolhido na Febem e por quem foi procurado mais tarde, com um pedido de ajuda. Com o passar do tempo, os pedidos tornaram-se cada vez mais insistentes. Em um dos doze bilhetes enviados ao padre, Batista diz que quer 1.500 reais “para ficar lá na praia”. Além de vinte parcelas do financiamento da caminhonete Pajero, Batista também conseguiu comprar um terreno e alugar uma casa via extorsão. O advogado de Batista, Nelson Bernardo da Costa, indica a linha com que vai defender seu cliente: ele sustenta que o dinheiro foi dado espontaneamente, “em função da amizade até íntima” entre ambos. Lancellotti tornou-se padre tardiamente, aos 37 anos. Antes, trabalhava na Febem, da qual continua a ser funcionário, com salário de 2.480 reais. Na semana passada, VEJA entrevistou funcionários e ex-funcionários da Febem, além de técnicos que acompanham o trabalho desenvolvido por Lancellotti em suas ONGs. Muitos conheciam a proximidade entre Lancellotti e Batista e comentaram o comportamento sexual do padre, que só poderá ser objeto de inquirição se entrar no campo delituoso. Algumas lacunas deixadas pela denúncia de chantagem podem ser preenchidas se a polícia encontrar Anderson Batista e confrontá-lo com fatos bem apurados. “Só o depoimento dele poderá esclarecer as perguntas que ainda estão sem resposta nessa história toda”, disse o delegado André Luiz Pimentel, que investiga o caso. Para o padre, para Batista e para qualquer outro cidadão, valem as mesmas palavras ditas por Lancellotti quando cobrou providências no caso do assassinato de sete moradores de rua, em 2006, em São Paulo: “Nós não vamos nos esquecer. Vamos continuar cobrando até que a Justiça dê uma resposta”. A PASTORAL DA PAJERODiogo Mainardi O padre Júlio Lancelotti era o coordenador da Pastoral do Povo de Rua. A partir de agora, ele será conhecido também como coordenador da Pastoral da Mitsubishi Pajero. Recapitulo. Em meados de 2005, segundo o próprio padre Júlio Lancelotti, um assassino chamado Anderson Batista o acusou de abusar de seu enteado de 8 anos e passou a chantageá-lo com pedidos regulares de dinheiro. Como um Michael Jackson da Mooca, o Padre Júlio Lancelotti negou ter abusado do menino. Como um Michael Jackson do Belenzinho, ele preferiu pagar o chantagista mesmo assim. No total, foram mais de 50.000 reais, incluindo o pagamento de 20 parcelas de uma Mitsubishi Pajero.A polícia terá que esclarecer todos os aspectos do relacionamento do Padre Júlio Lancelotti com o chantagista, definido como o advogado deste último como “amizade íntima”. Foi chantagem? Foi presente? A polícia terá que esclarecer igualmente se o dinheiro usado para pagá-lo saiu de suas economias pessoais ou da entidade beneficente que ele dirige. O padre Júlio Lancelotti declarou que pode contar apenas com mil reais que recebe da Igreja. Mentira. Desde 1975, ele é funcionário contratado da Febem, e continua a ganhar do Estado um salário de 2.480 reais. Além disso, a prefeitura repassa mensalmente a sua ONG, Bom Parto, 500 mil reais. É preciso saber se a Mitsubishi Pajero foi comprada com esse dinheiro.No ano passado, o padre Júlio Lancelotti acusou a prefeitura paulistana de “práticas higienistas”, por querer tirar
os
moradores de rua do centro da cidade, oferecendo-lhes “só um albergue”. Pode-se argumentar que o padre Júlio Lancelotti ofereceu ao morador de rua que ameaçou denunciá-lo por pedofilia muito mais que um albergue. Ofereceu-lhe o aluguel de uma casa, uma bicicleta, uma motocicleta, um terreno, uma viagem à praia – ei-la – uma Mitsubishi Pajero. Bem que ele poderia estender sua “amizade íntima” a todos os moradores de rua da cidade. Veja publicou uma reportagem sobre uma disputa entre a prefeitura paulistana e o padre Júlio Lancelotti. Ele chamou a revista de “autoritária”. A petista Maria Vitória Benevides foi mais longe – chamou Veja de fascistóide. E o Observatório da Imprensa comentou a reportagem num artigo cheio de termos de duplo sentido, cujo significado só agora consegui entender: “o rabo do texto”, “erguer o traseiro”, “jornalismo de latrina”, “o padre Júlio estende a mão”, “via inversa”, “amante de dialética”, “iguaria de fel”, “vanguarda do atraso”. O padre Júlio Lancelotti participou de todas as campanhas eleitorais de Lula. Em 2002, ao tratar do problema dos menores abandonados Lula apresentou a seguinte solução: “você pega o padre Júlio e bota ele pra cuidar de criança, ele vai cuidar melhor que qualquer aparelho de estado.” Dependendo do que a polícia descobrir, talvez não seja uma idéia tão boa assim colocar o padre Júlio para cuidar de criança.Fonte: Revista Veja
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