11 de fevereiro de 2010 07h22 atualizado às 07h31
Marcos Chavarria
Direto de Porto Alegre
Há exatos 20 anos, o então líder militante pelo fim do apartheid na África do Sul, Nelson Mandela, deixava a prisão em um episódio que ficaria marcado como o início da queda do regime de segregação racial no país. No ano seguinte, em 1991, a jornalista e historiadora Beatriz Bissio esteve frente a frente com Mandela para uma entrevista que foi publicada na extinta revista Cadernos do Terceiro Mundo. O “doce e sensível” Mandela estava ciente das dificuldades que viriam, afirma Bissio.
Preso desde 1962 e condenado à prisão perpétua em 1964 por planejar ações armadas contra o governo sul-africano, Mandela teve uma vida de lutas. Não deixou de mostrar a sua insatisfação política nem durante o julgamento em que foi condenado: “tenho defendido o ideal de uma sociedade democrática e livre na qual todas as pessoas convivam em harmonia e com oportunidades iguais. É um ideal pelo qual espero viver e que espero alcançar. Mas, se for preciso, é um ideal pelo qual estou preparado para morrer”, disse, sentado no banco dos réus.
Após 28 anos atrás das grades, o sinal verde para o fim do apartheid veio quando o último presidente branco da África do Sul, F. W. de Klerk, revogou a proibição do CNA (Congresso Nacional Africano). O movimento era considerado clandestino e lutava contra o regime de segregação racial no país.
No dia 11 de fevereiro de 1990, Mandela foi solto e o apartheid começava a perder força. EM 1993, recebia o Prêmio Nobel da Paz, ao lado de Klerk, e entrava definitivamente para a história.
“Mandela deixou bem claro que mesmo ciente das dificuldades dos desafios que viriam, ele considerava que o que tinha sido deixado para trás era sem dúvida bem mais pesado do que qualquer desafio futuro. Aquela fase de repressão mais aguda, das difíceis negociações, estava superada. E viria um governo das maiorias. O que não significava que seria fácil, mas era outro patamar. Era uma convicção dele”, diz Bissio, nascida em Montevidéu, no Uruguai, e naturalizada brasileira.
Para a jornalista, que entrevistou Mandela três anos antes de ele se tornar presidente do país, a característica marcante do então líder da população sul-africana marginalizada era a sensibilidade. “Ele era doce nos mínimos detalhes, como por exemplo ao me acompanhar até a porta na despedida – um gesto de carinho. Ele demonstrava extrema sensibilidade ao lembrar de episódios comoventes da sua vida. Era uma pessoa cativante pela serenidade e humildade, um dos homens mais importantes do século XX”, conta Bissio.
Nas ruas da África do Sul, o que se via era uma duplicidade de sentimentos. Ao mesmo tempo em que o povo estava feliz por perceber que um momento muito difícil da história chegava ao fim, segundo Bissio, todos estavam preocupados sobre o tempo que se levaria para cumprir metas econômicas e sociais e colocar o país nos trilhos.
“Um motorista que me levou de Johanesburgo até Pretória, de uns 60 anos, militante do CNA, dizia que havia sido educado desde criança para não olhar uma pessoa branca nos olhos. Sempre tinha que olhar para baixo. Ele me disse ‘eu sei que não preciso mais desviar o olhar, mas tive isso a vida toda na cabeça, não é tão fácil superar. Eu tenho que mentalizar que não preciso mais ser submisso'”, recorda a jornalista.
Mandela se tornou o primeiro presidente negro da África do Sul em 1994. Durante o mandato liderou os esforços para derrubar totalmente o apartheid, ao mesmo tempo que foi criticado por aliados mais radicais que esperavam mais avanços em campos como saúde pública – na contenção da epidemia de Aids. Ao deixar a presidência, em 1999, passou a dedicar a vida às causas humanitárias.
Com informações da Reuters.
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11/FEVEREIRO/2010 |
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