Os investigadores detectaram a presença de interacções medicamentosas clinicamente significativas em 27% dos doentes, sendo que, destas, mais de um terço passavam despercebidas aos médicos.
“As interacções clinicamente significativas envolvendo ARVs são frequentes… e o seu reconhecimento por parte dos médicos é necessário de forma a conseguir uma prescrição segura e eficaz”, referem os investigadores.
Muitos fármacos ARVs interagem não apenas com outros fármacos ARVs, como também com outros medicamentos prescritos no tratamento de outros problemas de saúde.
Uma interacção que passe despercebida pode ter consequências sérias, resultando ou em níveis do medicamento insuficientes para manter o controlo do VIH, ou em níveis elevados, conduzindo ao aparecimento de efeitos adversos.
Embora habitualmente se considere que as interacções clinicamente significativas nas pessoas com VIH são comuns, nenhum estudo anterior procurou avaliar até que ponto elas são reconhecidas e detectadas pelos médicos.
Foi, assim, neste contexto que um grupo de investigadores do Royal Liverpool University Hospital procurou reunir uma série de dados sobre interacções medicamentosas potencialmente graves, observadas nos doentes que frequentavam a consulta de VIH do hospital no verão de 2008.
Para serem incluídos no estudo, os doentes tinham de estar a tomar pelo menos um medicamento ARV.
A cada médico foi entregue um questionário estruturado, onde era pedido que se registasse não apenas os ARVs, como todos os outros medicamentos utilizados por cada doente, o que incluía não só os prescritos por um profissional de saúde, como também os medicamentos de venda livre e as drogas recreativas. Era depois pedido ao médico que identificasse todas as interacções potencialmente significativas e que afirmasse se tinha procedido a alguma modificação na dosagem ou usado algum tipo de monitorização dos medicamentos.
O estudo incluía ainda a recolha de dados demográficos sobre os doentes, assim como as suas cargas virais.
O estudo envolveu um total de 159 doentes, dos quais 56% eram homens. A idade média dos doentes era de 41 anos. A carga viral era indetectável (inferior a 40 cópias/ml) em 66% dos doentes.
Foram identificadas interacções potencialmente significativas em 43 doentes (27%). A análise inicial dos investigadores mostrou que os homens (p = 0.029), as pessoas caucasianas (p = 0.043) e as que tomavam um inibidor da protease (p < 0.001) apresentavam um maior risco de interacções.
Na posterior análise multivariada, a associação das interacções com a terapêutica utilizando um inibidor da protease manteve-se altamente significativa (OR = 10.59; 95% IC, 2.86-31.87, p < 0.001), achado que os investigadores consideraram “não surpreender”.
Também o factor “sexo masculino” permaneceu significativamente associado com um maior risco de interacções (OR = 3.03; 95% IC, 1.06-8.58, p = 0.038). Os investigadores, contudo, recomendam que este achado seja tratado com precaução. Fizeram nomeadamente notar que lhe faltava “plausibilidade biológica” e que não havia sido identificado como factor de risco em nenhum outro estudo.
As interacções registadas podem ter resultado numa redução dos níveis dos ARVs em cerca de 15% dos doentes.
Por outro lado, apenas 36% das interacções medicamentosas foram correctamente identificadas pelos médicos responsáveis pelos tratamentos.
Foi observado um amplo espectro de interacções, incluindo as interacções com outros ARVs, com antidepressivos, antibióticos, estatinas e drogas recreativas.
A monitorização terapêutica foi utilizada na abordagem de 26% dos doentes com interacções. Os doentes a quem esta monitorização foi feita apresentaram uma probabilidade significativamente maior de ver a dose da sua medicação alterada do que os doentes a quem ela não era feita (OR = 3.25; 95% IC, 1.16-9.16, p = 0.015).
Os investigadores concluem: “Recomendamos que todos os médicos estejam alerta para os riscos das interacções medicamentosas clinicamente significativas, que usem a informação disponível sobre medicamentos e drogas e que os serviços de farmacologia prestem uma ajuda na identificação das interacções clinicamente significativas e procedam a uma auditoria regular das práticas prescritivas.”
Referência
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