Temores cotidianos

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16/DEZEMBRO/07

Temores cotidianos

 

A violência simbólica e a produção do medo coletivo alteram a qualidade de vida das pessoas e os padrões sociais de comportamento, além de serem rentáveis para políticos e mercado

12/01/2008 14:22

O medo, explica Luiz Fábio Paiva, do Laboratório de Estudo da Violência da Universidade Federal do Ceará (LEV/UFC), não está ligado apenas a uma experiência objetiva dos cidadãos com assaltos, seqüestros, assassinatos etc. O medo e sua inserção cultural têm uma dimensão mais "sutil" e se reproduzem por meio da narração dos fatos, seja no universo científico, nos dados oficiais, na imprensa, no boato. No livro Rumeurs et Legendes Urbaines (Boatos e Lendas Urbanas, inédito no Brasil), o sociólogo francês Jean-Bruno Renard, da Universidade Paul Valéry, indica um dado curioso: nove entre dez boatos são relativos, mais ou menos, à violência; de seqüestros de crianças em shopping centers a seringas contaminadas com vírus da aids em poltronas de cinema. A diferença entre a criminalidade e a sensação de insegurança é o terreno fértil onde se desenvolve o imaginário da violência.

Geovani Jacó de Freitas, professor do Departamento de Sociologia da Universidade Estadual do Ceará (Uece), membro do LEV e coordenador do Grupo de Gestão Pública e Desenvolvimento Urbano (GPDU/Uece), afirma que além do aumento das taxas de homicídio e de crimes contra o patrimônio, há "outra violência, tão cruel quanto a física", que reforça a sensação de vulnerabilidade. "A representação do arrastão vem preencher o vazio provocado por essa insegurança. O boato é um instrumento fundamental para construir e alimentar esse medo social, esse pânico coletivo. A exploração especular e espetacular do fato. Eu estava nas proximidades do Centro, no dia, e no momento não soube disso. Depois, fui tomado pela notícia e pela repercussão. Objetivamente, o fato aconteceu. É grave. Mas não foi generalizante, que tomou todo o espaço do Centro. Agora, o modo como isso repercute a partir da linguagem, da imagem, dos boatos, toma uma dimensão tal, que parece, no sentimento das pessoas, que tomou conta de toda Fortaleza", explica.

Para o oficial militar Plauto Roberto de Lima Ferreira, é como se houvesse um "trauma coletivo". Isso tanto porque é difícil encontrar, hoje, alguém que não tenha sido vítima de atos de violência quanto, sobretudo, pelo fato de que esses atos "transcendem o tempo". "Mesmo que você tenha sofrido um assalto há cinco anos, você fala hoje como se tivesse acontecido naquele momento. Porque é um trauma muito grande. Então, essas pessoas já olham Fortaleza com outro olhar. Têm uma visão diferente das ruas, dos garotos que vêm limpar os vidros dos carros, dos ambulantes que chegam. Está havendo, realmente, uma sensação coletiva de insegurança". Plauto sublinha que o fenômeno arrastão acontece de períodos em períodos. "Em 1992, houve uma onda. Na época, houve um arrastão no Rio de Janeiro e a Rede Globo deu no Fantástico. No outro fim de semana, houve arrastão em praia aqui".

Luiz Fábio aponta ainda a imprecisão do termo "arrastão", difícil de definir. "Há alguns anos, existe essa idéia de arrastão, normalmente usada para identificar assaltos cometidos por grupos. O termo também é utilizado em caso de brigas de gangues. Há uma correria, um tumulto e aparece essa idéia. Na Praia do Futuro, há cinco ou seis anos ou até mais, já se associa isso a grupos que realizam assaltos ali. Esses últimos arrastões são interessantes porque acontecem, mas não há um consenso. Parece que o arrastão é um termo que surge em determinados momentos e que vem para representar uma maior percepção ou maior visibilidade de determinadas manifestações da violência urbana. Também depende muito do local da cidade. Quando é um lugar que tem visibilidade ou mexe diretamente com a elite, passa a ser um termo que ganha força. E, consequentemente, preocupa o cidadão comum, que de repente passa por esses locais".

Formas de violência
Os boatos de arrastão, portanto, surgem no cenário de práticas de violência urbana e, ao mesmo tempo, de construção de uma violência simbólica, com a produção do medo coletivo. "E esse medo vai alterar a qualidade de vida das pessoas, os padrões sociais de comportamento e, o mais grave de todos, ao mesmo tempo vai ser muito rentável. A indústria da violência tem uma das maiores fatias do PIBs (Produto Interno Bruto) nacionais. Mundialmente, é o terceiro. Tanto a indústrias da segurança no sentido de armas e do narcotráficos, quanto, sobretudo, a indústria de segurança privada. O que ocorreu em Fortaleza com o arrastão no Centro não deixa de alimentar o mercado de segurança. Pegou os transeuntes despreparados, como pegou também os empresários", explica Giovani Freita.

Para o oficial Plauto, a polícia é incapaz de resolver o problema do medo sozinha. "O projeto Ronda do Quarteirão, por exemplo, dá mais confiança pela presença da viatura. Mas ainda não consegue passar a sensação de segurança porque isso não depende apenas da polícia". Geovani concorda. Seria preciso formar uma rede de ações articuladas, que envolvessem instituições públicas de segurança, empresários, escolas. Mexer na cultura. "Mas não na cultura de espetáculos ou eventos em si. Não é apenas ocupando o espaço dito “vazio” da Praça do Ferreira com festas. É conseguir se apropriar de uma linguagem cotidiana das pessoas que ocupam aquele espaço para, a partir de suas práticas e modo de estar, conjugar saberes concretos que vão fortalecer esse espaço, pensando sua pacificação. Acho que é importante pensar como os ambulantes podem e devem ser sujeito na política de prevenção de ações violentas no Centro, por exemplo". Giovani alerta para o fato de o arrastão ser uma "linguagem reveladora de um processo que não está funcionando bem, do ponto de vista da organização social". A violência, resume, é muito mais um modo de gestão da cidade.

A linguagem da insegurança e do medo vai incidindo sobre a relação com o espaço urbano e com o outro na cidade. "É possível falar na existência de um sentimento generalizado de medo correlato a uma restrição no uso do espaço público, que passa a ser considerado terra de ninguém, do “salve-se quem puder”, da vulnerabilidade absoluta", pontua Irlys Barreira, professora do Departamento de Sociologia da UFC. Para Luiz Fábio Paiva, do LEV/UFC, a idéia do medo vai tecer, no contexto da cidade, o que ele chama de "sujeição criminal". "Isso ocorre quando eu elejo determinados sujeitos e lugares como potencialmente perigosos. Ao fazer isso, crio um mapa mental da cidade, dos locais onde posso ou não ir, das pessoas com quem me relaciono ou não". O sociólogo Giovani Freitas, da Uece, indica que os bairros periféricos e os jovens, os negros e os pobres são quem acabam se encaixando nesses esquemas classificatórios.

O professor da Escola d
e Co
municação e Artes da Universidade de São Paulo, Cláudio Tognolli, explica que o medo da população é manipulado justamente ao se apontar "culpados". "Em vez de se discutir as condições econômicas que levaram alguém a cometer o crime, você culpa a pessoa pelo fato de ser criminosa. Isso, em Filosofia, se chama “falácia genética”", explica. Para Tognolli, o capital se constrói exatamente em cima da angústia e do medo. "Você fomenta as pessoas a se cercarem de garantias. Você fomenta o homem aparatoso, que tem celular, GPS. Se você pegar um Most Amazing Videos (programa de TV que mostra gente sofrendo acidentes e sendo resgatada) é totalmente o reforço da autoridade. Você conta a história de pessoas que vivem no primeiro mundo e aí vem a mão inefável da natureza… Estão quase morrendo e na última hora surge o corpo de bombeiros, um Deus Ex Machina para salvá-las. Tem todo um reforço de autoridade, só a autoridade pode salvar dessa".

O filósofo e professor da UFC, José Maria Arruda, afirma que a disseminação dos boatos não o surpreende. "Não há, de fato, vários arrastões ocorrendo em Fortaleza, mas poderia haver. Os índices sociais do Brasil, o quadro de miséria, de pobreza e de favelização, o fato de entre a elite que consome e as classes menos favorecidas existir uma distância enorme poderiam fazer com que houvesse. Não é inimaginável. A pergunta não é nem por que tem arrastão, mas por que não tem arrastão o tempo todo em uma sociedade como a nossa. Uma sociedade profundamente dividida e desigual, onde as pessoas são humilhadas, onde falta escola, saúde". Para Arruda, a grande preocupação é o uso da boataria e da sensação de insegurança no período eleitoral. "Possivelmente, alguns candidatos vão usar a questão da “cidade mais segura”. A violência e a segurança pública vão ser temas fortes, fico preocupado com a manipulação".

Efeitos
A insegurança urbana ainda provoca o que o psicólogo e filósofo Francisco Rodrigues de Freitas chama de "insegurança ontológica", sensível no aumento de casos de transtorno de ansiedade e de pânico. "O transtorno da ansiedade se caracteriza por um medo sem causa e específica. Quando você tem medo de um assaltante que lhe aponta uma arma é um medo concreto. Quando você sai de casa com medo, sem saber o porquê, isso é ansiedade. E o transtorno do pânico é uma agudização disso, mais grave". O estímulo do medo ainda pode causar desequilíbrios neuroquímicos, traduzidos em insônia, úlcera, ou pior: em casos extremos, causam lesões arteriais, aumento subido de pressão e podem provocar infarto. (Natália Paiva)


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