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16/DEZEMBRO/07 |
O mosquito anarquista
Além de não debelar doenças arcaicas, como a febre amarela, o país não consegue lidar as modernas, como a urgência de um Hugo
JOSÉ MARIA E SILVA
A febre amarela está de volta. Não somente como doença, mas também como um sintoma — ela é o espelho de um país obrigado a olhar para dentro de si mesmo. Avançando das “selvas” para as cidades, a doença recoloca em cena a dualidade do Brasil, que se debate eternamente no contraste entre sobrados e mocambos. A emergência da febre amarela silvestre — que leva as autoridades sanitárias a temerem a volta da febre amarela urbana — faz emergir esse país de contrastes, que oscila entre o moderno e o arcaico. Começando pelo próprio sistema de saúde, que ostenta tecnologia de ponta em vários setores e uma política preventiva praticamente falida em vários outros. A febre amarela — que já fez vítimas no país — realça, na saúde, a divisão da sociedade brasileira.
A doença, até o fechamento desta edição, já fez duas vítimas: uma em Brasília e outra em São Paulo. A primeira possível vítima da febre amarela, o lavrador João Batista Gonçalves, de 31 anos, que morreu no dia 5 de janeiro no HDT, não teve o diagnóstico da doença confirmado de acordo com o laudo do Laboratório de Saúde Pública da Secretaria Estadual de Saúde. Residente em Aparecida de Goiânia, João Batista Gonçalves estava trabalhando há dois meses no município de Uruaçu, numa zona de desmatamento, quando apresentou sintomas parecidos com os da febre amarela. O laudo do Laboratório Central não é conclusivo e as autoridades de saúde não descartam a probabilidade de que o lavrador tenha mesmo morrido em conseqüência da febre amarela silvestre contraída em Uruaçu. Essa dúvida será dirimida com novos exames que serão realizados no Laboratório Evandro Chagas, de Belém do Pará, referência nesse tipo de procedimento.
Máquina de envasamento de diluentes para vacinas
O primeiro caso de febre amarela confirmado foi o do técnico em informática e empresário Graco Carvalho Abubakir, de 38 anos, internado no dia 5 de janeiro com dores no corpo. Na terça-feira, 8, às 13h45, ele morreu no Hospital Santa Luzia, no Plano Piloto, em Brasília. Os exames confirmaram que sua morte foi mesmo causada por febre amarela. O que não se sabe ainda — e dificilmente se vai saber — é o local onde ocorreu a contaminação de Abubakir. Para as autoridades sanitárias de Brasília e também para o ministro José Gomes Temporão, da Saúde, ele teria sido contaminado em Pirenópolis, onde esteve hospedado numa chácara, na passagem do Ano Novo, com dez casais de Brasília, a 14 quilômetros da cidade. Mas, no dia do velório, Tarso Carvalho Abubakir, 31 anos, irmão da vítima, disse à reportagem do Correio Braziliense que se fosse confirmado o diagnóstico de febre amarela de seu irmão, a contaminação certamente teria ocorrido em Brasília, porque ele já se queixava de dores no corpo antes de viajar.
Graco Abubakir morava perto do Parque Nacional de Brasília, onde foram encontrados dois macacos mortos em 21 de dezembro último. Mas os exames realizados nos macacos não detectaram a presença do vírus da febre amarela. Equipes da Vigilância Ambiental do Distrito Federal também não encontraram mosquitos Aedes aegypti nem Haemagogus nas Mansões do Lago Norte, onde o empresário morava. Um terceiro fator que as autoridades sanitárias de Brasília alegam para descartar a hipótese de que a contaminação tenha se dado no Distrito Federal é o fato de que, depois da morte dos macacos, foi feito um bloqueio na área do Parque Nacional, com a aplicação de inseticidas contra os mosquitos da dengue e febre amarela. Levando em conta o que dizem os laudos laboratoriais, o empresário foi picado pelo mosquito transmissor da doença na região de Pirenópolis, o que agrava ainda mais a situação de Goiás.
“O mosquito da dengue — temido vilão que pode reurbanizar a febre amarela — foi erradicado do Brasil em 1958. Mas voltou em 1967, em parte devido ao processo de urbanização”
O segundo caso confirmado de febre amarela ocorreu em São Paulo. Uma mulher de 42 anos (que, a pedido da família, não teve o seu nome revelado) foi internada no Hospital São Luiz, na zona oeste da capital paulista, com suspeita de febre amarela. Os exames confirmaram a doença, mas a mulher passa bem. Ela deve ter contraído febre amarela durante uma viagem de ecoturismo que realizou em Mato Grosso do Sul. A Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo fez uma varredura na região onde mora a paciente em busca do mosquito Aedes aegypti, mas nada foi encontrado. Com isso, a coordenadora de Vigilância em Saúde de São Paulo, Inês Soares Romano, afirmou à imprensa que não existe risco de transmissão da febre amarela na capital paulista e disse que os paulistanos não precisam vacinar contra a doença, a não ser aqueles que pretendem viajar para regiões endêmicas, como é o caso de Goiás.
Antes que ocorressem mortes de pessoas com febre amarela, o Ministério da Saúde, juntamente com as Secretarias Estaduais de Saúde, já vinha monitorando as mortes de macacos, que servem como possível alerta para o surgimento da doença em seres humanos. Em nota técnica veiculada na sexta-feira, 11, o Ministério da Saúde informa: “De abril de 2007 até hoje esse sistema identificou aumento na ocorrência de mortes de macacos, incluindo os notificados por autoridades sanitárias e “rumores” da população. Neste período, o Ministério da Saúde registrou episódios de morte de macacos em 136 municípios distribuídos em nove Estados: Goiás, Tocantins, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul, Piauí, Distrito Federal e Rio Grande do Norte”. E a nota ressalta: “Desse total, é importante ressaltar que, apenas quatro episódios de mortes de macacos foram confirmados epizootias causadas pelo vírus da febre amarela, todos no Estado de Goiás, nos municípios de Aparecida de Goiânia, Goiânia e Jataí”.
O Rio dos carnavais era também o Rio dos cortiços, em que as condições insalubres faziam proliferar doenças
Essas ocorrências de febre amarela em macacos são comuns nas zonas epidêmicas, mas o que preocupa o Ministério da Saúde é que elas apresentaram um aumento. Diz a nota técnica: “Nos meses de dezembro de 2007 e janeiro de 2008 houve um aumento das notificações e ‘rumores” das mortes de macacos no Estado de Goiás, somando 57 municípios, alguns situados em áreas de imenso fluxo de turismo. No mesmo período foram registradas mortes de macacos em diversas localidades do Distrito Federal e em seis municípios de Minas Gerais”. Ainda segundo o Ministério da Saúde, não existem medidas efetivas de controle dessas populações de macacos, para evitar a disseminação da febre amarela silvestre.
A nota técnica do Ministério da Saúde também informa que, em 2007, foram registrados seis casos humanos de febre amarela silvestre em quatro Estados — Amazonas, Pará, Roraima e Goiás. Mas, apenas no município goiano de Jataí
houve, ao me
smo tempo, a ocorrência de casos humanos e epizootias — o que é grave, porque desta equação é que a febre amarela precisa para se reurbanizar. O informe continua: “De dezembro de 2007 até agora, o Ministério da Saúde recebeu 15 notificações de casos suspeitos de febre amarela silvestre das Secretarias de Saúde dos Estados de Goiás, Minas Gerais, São Paulo e Distrito Federal. Destas, dois casos foram confirmados, sendo um paciente residente em Brasília que foi a óbito e teve como provável local de infecção uma área de ecoturismo de Goiás. O segundo caso trata-se de uma paciente do Estado de São Paulo, que apresentou uma evolução para cura e teve como local provável de infecção uma área silvestre do Estado de Mato Grosso do Sul. Ambos os casos confirmados foram de pessoas não vacinadas que entraram em área de mata. Outros três casos suspeitos já foram descartados e os demais se encontram sob investigação”.
“Já no século XIX, os médicos incriminavam tanto os maus hábitos e a devassidão dos pobres como a ganância dos proprietários que especulavam com a vida humana em habitações pequenas, úmidas, desprovidas de ar e luz”
Esses casos foram suficientes para alarmar o país. E não é para menos. O maior receio das autoridades sanitárias é a reurbanização da febre amarela — o que seria uma catástrofe. No século XIX, a doença foi o grande terror dos grandes centros urbanos da época, como Rio de Janeiro e Salvador. [Veja matéria correlata abaixo]. Com a primeira morte, a imprensa chegou a falar em risco de epidemia e necessidade de vacinação em massa, mas, na quinta-feira, 10, o Ministério da Saúde reuniu os principais especialistas do país em febre amarela e eles foram unânimes em descartar o risco de uma epidemia. Conseqüentemente, descartaram, também, a necessidade de uma campanha de vacinação em massa da população. A recomendação do Ministério da Saúde, com base no consenso dos especialistas, é que, nas regiões indenes (que não são endêmicas) só devem vacinar aquelas pessoas que tiverem de viajar para regiões endênicas, o que ocorre com muita freqüência neste período de férias.
A falência da prevenção
O mosquito da dengue — temido vilão que pode reurbanizar a febre amarela — foi erradicado do Brasil em 1958, depois de uma intensa campanha de vacinação, que envolveu os demais países da América Latina e do Caribe. Ao sair de cena no começo de 1942, em Sena Madureira, no Acre, o Aedes aegypti, então transmissor da febre amarela urbana, derivada de sua forma silvestre, tinha feito milhões de vítimas pelo país afora, ao longo do século XIX.
O sucesso na erradicação do mosquito levou as autoridades sanitárias a viverem praticamente uma década de despreocupação em relação à febre amarela. Entretanto, em 1967, o Aedes aegypti ressurgiu no Pará e, no ano seguinte, foi encontrado em São Luís, no Maranhão. Sua origem? Os Estados Unidos da América.
Nas décadas anteriores, segundo o norte-americano Fred Soper, o Aedes aegypti ocupa mais de 11 milhões de quilômetros quadrados do território das Américas e apenas 7,1 por cento dessa área infestada se localizava nos Estados Unidos. Com isso, enquanto os países latino-americanos e caribenhos travavam uma guerra sem tréguas contra o mosquito, vacinando em massa e erradicando seus criadouros, os Estados Unidos não aderiram a esses métodos. Com isso, em 1977, a estatística tinha se invertido e 88,6 por cento da área infestada pelo Aedes aegypti já estava nos Estados Unidos.
Foi a partir de lá que o Aedes aegypti reconquistou a América Latina, levando à eclosão da dengue nos centros urbanos, ao mesmo tempo em que também aumentava o número de casos de febre amarela silvestre, transmitida pelo Haemagogos. Esse processo coincidiu com a acelerada urbanização do país, quando as capitais incharam, cercadas por cinturões de favelas, em condições insalubres. Esse caótico ambiente foi o cenário ideal para a proliferação do Aedes aegypti, contribuindo, inclusive para criar a impressão errada de que dengue e febre amarela são doenças de pobre.
Na década de 70, os governos militares promoveram campanhas bem-sucedidas de vacinação em massa, contra doenças como a varíola, a meningite e a poliomielite, mas esse trabalho não foi complementado por uma política de prevenção continuada, através de uma ampla rede de postos de saúde eficientes, por exemplo. O Brasil, ansioso pela modernidade, já tinha optado por priorizar uma medicina de curativa altamente tecnólogica. A criação do SUS, no final da década de 80, procurou resgatar a saúde preventiva, mas não foi bem-sucedido. Os recursos do SUS acabam escoando para as doenças da modernidade, que vão dos acidentes de trânsito ao tratamento da Aids, passando pelas onerosas vítimas da criminalidade e pouco sobre para programas de saúde efetivamente preventivos.
Prova disso é que quando se lembra de saúde nas capitais, o que vêm à mente são os grandes hospitais de emergência, que atendem as vítimas terminais e os mutilados da verdadeira guerra civil urbana que a criminalidade e o trânsito representam. O Hugo é um exemplo. O hospital está imerso numa enorme crise, que levou o Conselho Regional de Medicina, o Ministério Público e o Sindicato dos Médicos a fazerem uma vistoria no hospital no dia 7 de janeiro último.
As entidades constataram que o Hugo estava superlotado, trabalhando 172 por cento acima de sua capacidade, e com uma taxa de infecção hospitalar de 70 por cento, além de não contar com equipamentos e medicamentos necessários. Com isso, o Ministério Público deu um prazo até sexta-feira, 18, para que a Secretaria Estadual de Saúde apresente propostas concretas para resolver a crise do Hugo. Caso isso não ocorra, o Ministério Público vai instaurar um inquérito para apurar responsabilidades em relação à crise do hospital.
As raízes da febre amarela
Os registros mais antigos da febre amarela no país datam do século XVIII. Todavia, foi no século XIX que a febre amarela se tornou um caso trágico de saúde pública, quase comparável à peste negra européia, que dizimava populações durante o século XIV. Segundo relatos médicos da época, a febre amarela aportou literalmente no Brasil em dezembro de 1849, com a chegada ao país do navio negreiro Naverre, oriundo de Nova Orleans. O navio fez escalas em Havana e Salvador e, ao atracar no Rio de Janeiro, em 3 de dezembro de 1849, já tinha contaminado a capital baiana. Quando a notícia da epidemia na Bahia chegou ao Rio, no dia 13 de dezembro, o dono do navio resolveu vendê-lo e a tripulação foi dispersa na cidade, levando a epidemia para as hospedarias da corte.
Segundo o livro Febre Amarela, publicado pela Fiocruz, sob a coordenação de Jaime Larry Benchimol, só dois meses depois, em fevereiro de 1850, é que a Academia de Medicina reconheceu que a doença estava na cidade. Conta Benchimol: “Apesar de o governo ter proibido a publicação dos obituários, ocorriam os óbitos em tal quantidade, os rituais fúnebres da Igreja lhe dando tamanha dramaticidade, que era impossível deter a onda de pânico que se apoderou da população, contribuindo, segundo alguns, para torná-la mais vulnerável à doença”.
Citando estimativas da época, Benchimol contabiliza as mortes que a febre amarela causou no Rio de Janeiro, naquele ano: “Ela atingiu 90.638 dos 266 mil habitantes da cidade, causando 4.160 mortes. Isso sem contar os casos não registrados por terem ocorrido em casas particulares, naquela época muito mais impermeáveis ao poder público”. De acordo com o historiador Sidney Chalhoub, também citado por Benchimol, “houve quem falasse em até 15 mil vítimas fatais”.
Ao atacar a Corte, justamente numa época em que a medicina se preparava para o grande salto que iria dar
no
século seguinte, a febre amarela fez nascer um novo urbanismo, de caráter higienista, que tinha grande preocupação com a salubridade das habitações. Vários estudos, inclusive um excelente de Sidney Chalhoub, A Cidade Febril, mostram isso. Jaime Benchimol resume o cenário da Corte de então: “No populoso Centro coexistiam escritórios e bancos, lojas, depósitos, oficinas, trapiches, prédios públicos, moradias particulares em sobrados e casas térreas, armazéns freqüentemente associados a cortiços e estalagens, velhos casarões aristocráticos subdivididos em cômodos exíguos e sujos para famílias inteiras de trabalhadores”.
Segundo Benchimol, “ali irrompiam todos os anos as epidemias de febre amarela”. E também as de varíola (que ocorriam no inverno), o cólera (que assolou o Rio de Janeiro nos anos de 1855 e 1856) e a peste bubônica, sem contar as tuberculoses, as disenterias, a malária e outra doenças que “crepitavam como flagelos crônicos”.
Foi nesse contexto que ganharam força os higienistas, misto de médicos e sociólogos, que procuram interpretar o caos da paisagem urbana à luz do progresso da medicina. Conta Benchimol: “Os higienistas foram os primeiros a formular um discurso sobre as condições de vida na cidade, propondo intervenções mais ou menos drásticas para restaurar o equilíbrio do ‘organismo urbano’ que consideravam doente. (…) Os médicos incriminavam tanto os maus hábitos e a devassidão dos pobres como a ganância dos proprietários que especulavam com a vida humana em habitações pequenas, úmidas, desprovidas de ar e luz”.
Qualquer semelhança com as metrópoles brasileiras de hoje — contemporâneas do Estatuto da Cidade — não é mera coincidência. É apenas conseqüencia de um Brasil que permanece desigual.
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