2.069 visualizações desde a publicação
Hoje: 0 Esta semana: 0 Este mês: 0
Publicado há 13 anos, 11 meses e 4 dias
Atualizado há 1 mês
2.069 visualizações históricas

Na 19ª Con­ferência In­ter­na­ci­o­nal da AIDS (AIDS 2012) foi re­por­ta­do que, em­bo­ra os in­ves­ti­ga­do­res e or­ga­ni­zações pa­ra a saúde públi­ca na mai­o­ria dos pprofissionais-do-sexo-recebem-orientacoes-sobre-cidadania-e-saudeaíses de bai­xo e médio ren­di­men­to não te­nham re­co­lhi­do da­dos re­cen­tes so­bre a pre­valência do HIV re­la­ti­va às tra­ba­lha­do­ras se­xu­ais, os da­dos exis­ten­tes são alar­man­tes.

Jun­tan­do os da­dos dis­poníveis de 50 países, as tra­ba­lha­do­ras do se­xo têm um ris­co 14 ve­zes mais ele­va­do de con­trair a in­feção do que as mu­lhe­res na mes­ma fai­xa etária na po­pu­lação ge­ral.

As ta­xas são es­pe­ci­al­men­te ele­va­das em al­guns países, in­cluin­do o Ban­gla­desh, Be­nim, Cam­bo­ja, Chi­na, Guiné, Gui­a­na, In­dia, In­donésia, Malásia, Mauríci­as, Méxi­co, Ne­pal e Se­ne­gal.

Na con­ferência fa­la­ram também ati­vis­tas que des­cre­ve­ram as es­tratégi­as ne­cessári­as pa­ra mu­dar es­ta si­tuação.

Cheryl Overs de­cla­rou nu­ma sessão plenária que “A epi­de­mia não se alas­tra por cau­sa da fal­ta de um com­pri­mi­do ou de um gad­get, a epi­de­mia au­men­ta por cau­sa da re­pressão”. “As tra­ba­lha­do­ras do se­xo des­de a Suécia até Sin­ga­pu­ra e à Su­a­zilândia di­zem to­das que a mai­or ameaça pa­ra a sua saúde e di­rei­tos hu­ma­nos é a lei que tor­na im­possível en­con­trar lu­ga­res se­gu­ros pa­ra tra­ba­lhar e não per­mi­te que te­nham as mes­mas pro­teções de ou­tros tra­ba­lha­do­res e ci­dadãos”.

Em mui­tos países, as ne­ce­ssisades des­tas mu­lhe­res con­ti­nu­am ig­no­ra­das e sub-in­ves­ti­ga­das. Ste­fan Ba­ral, De­an­na Ker­ri­gan e co­le­gas da Es­co­la Blo­om­berg de Saúde Públi­ca – o mes­mo gru­po que as­su­miu um pa­pel de li­de­rança que cha­mou a atenção pa­ra as ta­xas ele­va­das de in­feção pe­lo HIV en­tre os ho­mens que têm se­xo com ho­mens – con­du­zi­ram uma re­visão sis­temáti­ca e uma me­ta-análi­se pa­ra jun­tar es­ti­ma­ti­vas das ta­xas de in­feção pe­lo HIV nos países de bai­xo e médio ren­di­men­to.

Con­se­gui­ram jun­tar 102 re­latóri­os que pre­en­chi­am critéri­os de qua­li­da­de pré-de­ter­mi­na­dos, abran­gen­do 12 197 tra­ba­lha­do­ras se­xu­ais. To­dos os re­latóri­os di­zi­am res­pei­to ao período de  2007 a 2011.

No en­tan­to, os re­latóri­os eram ape­nas de 50 dos 145 países. De­an­na Ker­ri­gan co­men­tou que “Te­mos de olhar de mo­do críti­co pa­ra as políti­cas glo­bais que li­mi­tam uma ava­liação abran­gen­te dasnecessidades de pre­venção da in­fecção pe­lo HIV e da ofer­ta de ser­viços nos am­bi­en­tes mais va­ri­a­dos”.

Os da­dos dis­poníveis mos­tram de fac­to que as mu­lhe­res que ven­dem se­xo estão par­ti­cu­lar­men­te em ris­co de in­feção. Ker­ri­gan no­tou que o au­men­to da vul­ne­ra­bi­li­da­de não é ape­nas de­vi­do a fa­to­res com­por­ta­men­tais (um gran­de núme­ro de par­cei­ros se­xu­ais, etc.), mas também es­tru­tu­rais (cri­mi­na­li­zação, vi­o­lação dos di­rei­tos hu­ma­nos, etc.).

“Es­tes da­dos são um ape­lo pa­ra a ação e pa­ra que se in­vis­ta e res­pon­da às ne­ce­ssida­des das tra­ba­lha­do­ras de se­xo.”

Hou­ve da­dos dis­poníveis pa­ra 14 países asiáti­cos. En­quan­to a pre­valência do HIV nas mu­lhe­res en­tre 15 e 49 anos nes­tes países é de 0,18%, pa­ra as tra­ba­lha­do­ras do se­xo é de 5,2%, o que sig­ni­fi­ca que o ris­co de in­feção pe­lo HIV é 29 ve­zes mais ele­va­do.

Na Áfri­ca sub­sa­ri­a­na, hou­ve da­dos dis­poníveis de 16 países. En­quan­to a pre­valência do HIV pa­ra as mu­lhe­res da po­pu­lação em ge­ral é de 7,4%, pa­ra as mu­lhe­res que ven­dem se­xo é de 36,9%, sig­ni­fi­can­do que o ris­co é 12 ve­zes mai­or.

Na Améri­ca La­ti­na e nas Ca­raíbas ana­li­sa­ram da­dos de 12 países. Com uma pre­valência na po­pu­lação fe­mi­ni­na ge­ral de 0,4% e de 6,1% pa­ra as mu­lhe­res que ven­dem se­xo. O ris­co também é 12 ve­zes mais ele­va­do.

No Médio Ori­en­te e no Nor­te de Áfri­ca 1,7% das tra­ba­lha­do­ras do se­xo ti­nham in­feção pe­lo HIV. Na Eu­ro­pa de Les­te a pre­valência foi de 10,9%. No en­tan­to, de­vi­do ao fac­to de que os da­dos ape­nas es­ta­vam dis­poníveis pa­ra uma meia dúzia de países nes­ta re­gião, não se con­si­de­rou uma ul­te­ri­or análi­se credível.

Os da­dos mos­tram gran­des va­riações de país a país e por ve­zes en­tre di­fe­ren­tes re­giões do mes­mo país. Uma par­te pro­va­vel­men­te é de­vi­da à amos­tra­gem e a méto­dos de in­ves­ti­gação di­fe­ren­tes.

De­an­na Ker­ri­gan con­cluiu que “es­tes da­dos re­pre­sen­tam um ape­lo pa­ra a ação, pa­ra que se in­vis­ta e res­pon­da às ne­ce­sida­des das tra­ba­lha­do­ras do se­xo pa­ra pre­ve­nir o HIV, in­cluin­do es­tratégi­as abran­gen­tes de pre­venção ba­se­a­das em evidênci­as que pro­te­gem e pro­mo­vem os seus di­rei­tos hu­ma­nos”.

Além dis­so, o mes­mo gru­po de in­ves­ti­ga­do­res também re­por­tou os re­sul­ta­dos do tra­ba­lho com mo­de­los de ava­liação do im­pac­to de pro­por­ci­o­nar tais es­tratégi­as de pre­venção. Fo­ram ana­li­sa­das du­as es­tratégi­as:

  • Me­lho­rar o aces­so das tra­ba­lha­do­ras se­xu­ais à te­rapêuti­ca an­tir­re­tro­vi­ral pa­ra que a co­ber­tu­ra se­ja a mes­ma que a dos ou­tros adul­tos dos seus países.
  • Um pro­gra­ma abran­gen­te de em­po­de­ra­men­to na co­mu­ni­da­de, em que as bar­rei­ras es­tru­tu­rais se­jam abor­da­das de for­ma co­le­ti­va. O pro­gra­ma ge­ral­men­te in­cluiu as co­mu­ni­da­des na or­ga­ni­zação e mo­bi­li­zação, edu­cação en­tre pa­res, dis­tri­buição de pre­ser­va­ti­vos e ser­viços clíni­cos mais acessíveis pa­ra as in­feções se­xu­al­men­te trans­missíveis.

Uma re­visão sis­temáti­ca que será pu­bli­ca­da em bre­ve con­du­zi­da pe­la Or­ga­ni­zação Mun­di­al de Saúde tem cons­ta­ta­do que os pro­gra­mas de em­po­de­ra­men­to na co­mu­ni­da­de ge­ral­men­te re­du­zem o uso in­con­sis­ten­te do pre­ser­va­ti­vo pa­ra me­ta­de. Os in­ves­ti­ga­do­res da Es­co­la Blo­om­berg apli­ca­ram es­ta cons­ta­tação às epi­de­mi­as do Bra­sil, Quénia, Tailândia e Ucrânia.

Por ex­em­plo, no Quénia, ape­nas me­lho­ran­do o aces­so à TARV (Te­rapêuti­ca An­tir­re­tro­vi­ral) ir-se-ia re­du­zir as in­feções 25%, em cin­co anos. Tor­nan­do a in­ter­venção do em­po­de­ra­men­to dis­ponível a ape­nas dois terços das tra­ba­lha­do­ras re­du­zir-se-ia as in­feções em 11,5%. Fa­zen­do as du­as in­ter­venções a re­dução se­ria de 33%.

Ha­ve­ria também um im­pac­to sig­ni­fi­ca­ti­vo so­bre a epi­de­mia na po­pu­lação mais alar­ga­da, com uma re­dução de 30% das in­fecções, se as in­ter­venções fos­sem com­bi­na­das.

Em­bo­ra pos­sa pa­re­cer que a in­ter­venção pa­ra o alar­ga­men­to do aces­so à TARV faça uma di­fe­rença mai­or, os in­ves­ti­ga­do­res no­tam que o em­po­de­ra­men­to e a re­dução das bar­rei­ras es­tru­tu­rais são pro­va­vel­men­te uma exigência in­con­tornável pa­ra o aces­so alar­ga­do à TARV. Na ver­da­de, a in­te­ração en­tre uso da TARV e em­po­de­ra­men­to não tem si­do ple­na­men­te ex­pli­ca­do no mo­de­lo.

“Ha­verá de fac­to um pro­du­to ou um me­di­ca­men­to que pos­sa mu­dar o equilíbrio de po­der en­tre tra­ba­lha­do­ras do se­xo e os seus cli­en­tes?”.

A ati­vis­ta  do tra­ba­lho se­xu­al e in­ves­ti­ga­do­ra Cheryl Overs fa­lou des­tas questões nu­ma sessão plenária. Em par­ti­cu­lar, co­men­tou na con­ferência o le­ma “tur­ning the ti­de to­gether” (em Por­tu­guês, “Va­mos in­ver­ter a maré jun­tos”).

En­quan­to um vídeo mos­trou on­das a que­brar-se nu­ma praia, dis­se que uma maré é fei­ta de mui­tas on­das – in­cluin­do a ex­clusão so­ci­al, fal­ta de di­rei­tos le­gais, re­jeição por par­te da família, po­bre­za, más con­dições de tra­ba­lho, vi­olência, pre­ser­va­ti­vos usa­dos co­mo pro­vas e cor­rupção.

“As on­das estão in­ter­li­ga­das, por­tan­to não há se­leção das on­das pa­ra vol­tar pa­ra trás”, acres­cen­tou. “En­vol­ver e em­po­de­rar as tra­ba­lha­do­ras do se­xo é cru­ci­al pa­ra in­ver­ter a maré”. No en­tan­to, a mui­tos tra­ba­lha­do­ras do se­xo não foi per­mi­ti­do par­ti­ci­par na con­ferência de Washing­ton DC, de­vi­do às in­ter­dições de en­tra­da nos Es­ta­dos Uni­dos.

Overs apon­tou as re­co­men­dações da Co­missão Glo­bal so­bre o HIV e a Lei aos go­ver­nos pa­ra que os tra­ba­lha­do­res do se­xo se­jam tra­ta­dos con­sis­ten­te­men­te de acor­do com as obri­gações dos di­rei­tos hu­ma­nos.

Além dis­so, co­men­tou so­bre os be­nefíci­os pa­ra os tra­ba­lha­do­res do se­xo do tra­ta­men­to co­mo pre­venção, dos mi­cro­bi­ci­das e da pro­fi­la­xia de pré-ex­po­sição (PrEP). Cheryl Overs per­gun­ta, “Ha­verá de fac­to um pro­du­to ou um me­di­ca­men­to que po­de mu­dar o equilíbrio de po­der en­tre tra­ba­lha­do­ras do se­xo e os seus cli­en­tes?”.

Ad­ver­tiu que o cus­to e a res­pon­sa­bi­li­da­de de usar os no­vos méto­dos irá con­ti­nu­ar a cair nos om­bros das tra­ba­lha­do­ras do se­xo, que con­ti­nu­arão a pre­ci­sar de pro­teção pa­ra as in­feções se­xu­al­men­te trans­missíveis e gra­vi­dez. Fa­zer o tes­te de ras­treio do HIV é a por­ta de aces­so aos no­vos méto­dos de pre­venção, mas tes­tes forçados e que­bras na con­fi­den­ci­a­li­da­de já são co­muns pa­ra os tra­ba­lha­do­res do se­xo.

“Não le­van­tei as questões so­bre as no­vas tec­no­lo­gi­as de pre­venção pa­ra su­ge­rir que não po­dem ser efi­ca­zes com as tra­ba­lha­do­ras do se­xo,” Overs ex­pli­cou. “Le­van­tei-as pa­ra ilus­trar que cri­am de­sa­fi­os que não po­dem ser re­sol­vi­dos sem um tra­ba­lho gran­de por par­te dos ati­vis­tas e de­fen­so­res dos tra­ba­lha­do­res do se­xo”.

E dis­se aos que que­rem a in­tro­dução em lar­ga es­ca­la do tra­ta­men­to co­mo pre­venção e PrEP: “É ne­cessário fo­car­mo-nos nos de­sa­fi­os no con­tex­to mais am­plo do tra­ba­lho se­xu­al e não ape­nas em fa­zer che­gar os pro­du­tos aos tra­ba­lha­do­res do se­xo”.

Re­ferênci­as

Ba­ral S et al. High and dis­pro­por­ti­o­na­te bur­den of HIV among fe­ma­le sex wor­kers in low- and mid­dle-in­co­me coun­tri­es: a sys­te­ma­tic re­vi­ew and me­ta-analy­sis. 19ª Con­ferência In­ter­na­ci­o­nal da AIDS, re­su­mo THAC0501, 2012.

Os da­dos fo­ram pu­bli­ca­dos si­mul­ta­ne­a­men­te num jor­nal:

Ba­ral S et al. Bur­den of HIV among fe­ma­le sex wor­kers in low-in­co­me and mid­dle-in­co­me coun­tri­es: a sys­te­ma­tic re­vi­ew and me­ta-analy­sis. Lan­cet In­fec­ti­ous Di­se­a­ses 12: 538-549, 2012. (Re­gis­tro gra­tui­to ne­cessário pa­ra ler o tex­to in­te­gral­men­te).

Wirtz AL et al. Mo­de­ling the im­pacts of a com­prehen­si­ve com­mu­nity em­power­ment-ba­sed, HIV pre­ven­ti­on in­ter­ven­ti­on for fe­ma­le sex wor­kers in ge­ne­ra­li­zed and con­cen­tra­ted epi­de­mics: in­fec­ti­ons aver­ted among sex wor­kers and adults. 19ª Con­ferência In­ter­na­ci­o­nal da AIDS, re­su­mo THAC0502, 2012.

Wirtz AL et al. Mo­de­ling the im­pacts on HIV in­fec­ti­on among fe­ma­le sex wor­kers via the ex­pan­si­on of an­ti­re­tro­vi­ral the­rapy among all adults. 19ª Con­ferência In­ter­na­ci­o­nal da AIDS, re­su­mo TU­PE182, 2012.

Overs C. The Ti­de Can­not Be Tur­ned Without Us:  HIV Epi­de­mics Amongst Key Af­fec­ted Po­pu­la­ti­ons. 19ª Con­ferência In­ter­na­ci­o­nal da AIDS, re­su­mo TH­PL0102, 2012.

Total Views: 0

Descubra mais sobre Blog Soropositivo Home Page Arquivo HIV

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Share This Article
Violência contra a mulher: canais de emergência, denúncia e proteção.

Descubra mais sobre Blog Soropositivo Home Page Arquivo HIV

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo

Descubra mais sobre Blog Soropositivo Home Page Arquivo HIV

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo