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Duas vezes afetado pela Aids

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Rio tem casos de infecção simultânea por HIV 1 e 2, com impacto sobre o tratamento

Roberta Jansen

O Brasil já registra a coinfecção por dois vírus distintos causadores da AIDS, o HIV-1 e o HIV-2. Pesquisadores da Fiocruz identificaram a situação em 15 amostras de sangue de pacientes do Rio de Janeiro e fizeram ontem um alerta: o problema pode ser ainda mais disseminado do que se imagina e ter um impacto significativo no tratamento.

Os dois vírus causam a síndrome da imunodeficiência adquirida, mas têm origens evolutivas totalmente diversas. Por isso mesmo, apresentam diferenças significativas entre seu genoma e biologia.

Originalmente, eram vírus que atingiam populações distintas de macacos, causando doenças diferentes, e que saltaram para populações humanas em momentos diversos.

O HIV-2 teria surgido primeiro, na década de 40, possivelmente na Guiné Bissau. O HIV-1, por sua vez, apareceu uns 20 anos depois, na atual República Democrática do Congo.

“Em relação ao HIV-1, a infecção pelo tipo 2 difere por ter uma evolução mais lenta para os quadros clínicos relacionados. Também há evidências de que a transmissão vertical (mãe-filho) e sexual não seja tão eficiente quando comparada ao HIV-1″, explica nota divulgada ontem pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC). Talvez por isso mesmo, o HIV-1 tenha se espalhado rapidamente pelo mundo, gerando uma pandemia, enquanto o tipo 2 permaneceu bem mais restrito a algumas regiões da África.

De acordo com números de 2008 da Organização Mundial de Saúde (OMS), dos 34 milhões de soropositivos do mundo, apenas 2 milhões seriam pessoas infectadas pelo HIV2. Tamanha diferença acabou gerando uma sobreposição do tipo 1 e, em muitos casos, a coinfecção.

No início da epidemia mundial de AIDS, nos anos 80 e 90, chegou-se a especular que o Brasil seria um forte candidato a registrar um número significativo de casos do tipo 2, uma vez que o HIV-2 era originário de países africanos de língua portuguesa, ex-colônias de Portugal. Com os testes ainda não muito acurados, havia muita informação contraditória sobre a presença ou não do tipo 2 no país.

Testes comuns não distinguem tipo viral

Em 1991, o Gafrèe Guinle, que atendia a pacientes soropositivos, registrou, juntamente com pesquisadores americanos, três casos de coinfecção pelos dois vírus. Em 2005, foi registrado também o caso de uma estudante africana. E era tudo o que se tinha no país em termos de casos descritos.

– Recentemente, por conta de um projeto do Ministério da Saúde, que queria saber o que exatamente estava acontecendo, o meu laboratório começou a desenvolver algumas metodologias – conta a geneticista Ana Carolina Vicente, chefe do Laboratório de Genética Molecular de Microorganismos do IOC e coordenadora da pesquisa. – Começamos, então, uma busca ativa pelo HIV-2. Por coincidência, pesquisadores do laboratório de análises clínicas Sérgio Franco tinham começado a encontrar resultados que apontavam para a coinfecção.

Foram 15 amostras testadas no laboratório do IOC, tanto sorologicamente quanto molecularmente, confirmando a coinfecção pelos dois tipos.

Os testes normalmente feitos para diagnóstico de HIV indicam a presença do retrovírus, mas não necessariamente detalham o seu tipo. Do ponto de vista dos bancos de sangue e da disseminação do vírus, o fato de se desconhecer a incidência do tipo 2, como esclarece a geneticista, não é potencialmente perigoso.

Ou seja, não há o risco de um doador estar contaminado sem que se perceba. Mas, no caso do tratamento, a questão é diferente.

– No Brasil, o tratamento é universal e pago pelo governo. Ocorre que os ANTIRRETROVIRAIS não têm exatamente a mesma performance contra os tipos 1 e 2 do vírus – explica a pesquisadora. – Se uma pessoa está coinfectada e é tratada como se fosse somente tipo 1, ela pode até ter a infecção controlada, mas muitos de seus marcadores podem continuar debilitados. Muitos médicos, nesses casos, podem pensar, erroneamente, que o indivíduo é resistente ao tratamento. E pode não ser nada disso. Mapeando os tipos, poderemos oferecer um tratamento mais específico.

Os especialistas acreditam que uma pessoa infectada pelos dois tipos apresentaria infecções distintas.

Mas também, em tese, poderia acontecer a troca de material genético entre os tipos, gerando um vírus híbrido. Pouco se sabe sobre a evolução clínica de uma coinfecção, muito menos sobre o que aconteceria no caso de um híbrido.

– Estamos em comunicação direta com o Ministério da Saúde – conta Ana Carolina. – Claro que temos que expandir esse universo, já há um projeto nesse sentido, o ministério está dando embasamento para criarmos sentinelas em grupos do Brasil todo para o levantamento da situação.


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