
De acordo com um artigo publicado na edição de 12 de Setembro da revista AIDS, existe uma “epidemia escondida” de VIH entre a população migrante de origem africana residente nos EUA.
Os investigadores responsáveis pelo artigo descobriram que os indivíduos nascidos em África e a viver nos EUA apresentavam uma prevalência de VIH desproporcionadamente elevada: assim, e embora essa população constituísse apenas 0,6% da população do estudo, ela perfazia cerca de 4% dos diagnósticos de VIH.
Além disso, os investigadores concluíram que, numa dada região, aproximadamente 50% das infecções detectadas entre as pessoas negras se verificavam entre pessoas originárias de África.
Uma vez que a actual vigilância epidemiológica norte-americana não inclui, por rotina, informação sobre o país de origem dos indivíduos, é provável que um número significativo de infecções VIH actualmente classificadas como sendo infecções ocorrendo entre afro-americanos, envolvam, na realidade, pessoas pertencentes ao contingente da população migrante recém-chegada de África.
Os investigadores sublinham que a ausência do reconhecimento da escala da epidemia de VIH, entre os residentes nascidos em África, significa que as necessidades em termos de prevenção e prestação de cuidados destas pessoas estão a ser negligenciadas.
A equipa responsável pelo estudo apela ainda ao governo norte-americano e às autoridades de saúde não apenas para que dirijam informação sobre o teste do VIH e os vários serviços disponíveis aos indivíduos provenientes de África, mas também para que, nos seus programas de vigilância epidemiológica, recolham informação precisa sobre o país de origem das pessoas com diagnóstico de VIH.
Em 2005, quase dois terços das infecções por VIH a nível mundial estavam localizadas na África sub-Sahariana.
Estima-se também que pelo menos 25% do total de infecções na Europa ocidental diga respeito a migrantes provenientes do sul do continente africano.
Além disso, verifica-se que, embora o número total de migrantes africanos nos EUA tenha aumentado, entre 1990 e 2000, em cerca de 130%, existe pouca informação disponível sobre o número de infecções VIH entre esta comunidade; da mesma forma, poucos serviços de prevenção e prestação de cuidados são dirigidos a este grupo da população.
As leis de imigração norte-americanas exigem que todas as pessoas candidatas a residência permanente legal nos EUA façam o teste do VIH. A infecção pelo VIH constitui mesmo um entrave à entrada temporária nos EUA (embora isto possa mudar). A proibição, porém, é levantada no caso dos refugiados e noutros casos especiais.
De modo a perceber qual a contribuição dos indivíduos nascidos em África para a epidemiologia do VIH nos EUA, o grupo de investigação entrou em contacto com as autoridades de saúde de nove regiões, onde as pessoas nascidas em África perfizessem mais de 0,5% da população.
O estudo incluiu, assim, seis estados (California, Georgia, Ohio, Massachusetts e Minnesota), bem como as cidades de Washington DC e Nova Iorque e o condado de King, no estado de Washington.
As autoridades de saúde destas áreas forneceram informações sobre o número total de infecções nelas verificadas, em 2003-2004, bem como o local de nascimento de todas as pessoas infectadas e as actividades de risco para a infecção dessas pessoas.
No total das áreas incluídas no estudo, contabilizaram-se cerca de 459.000 residentes nascidos em África – cerca de 47% de todas as pessoas nascidas em África residentes nos EUA, de acordo com os dados do censo norte-americano.
Embora os migrantes nascidos em África constituíssem apenas 0,6% da população total das regiões participantes do estudo, eles perfaziam 4% de todos os diagnósticos da infecção pelo VIH.
Registou-se, porém, uma variação considerável entre as várias regiões participantes. Assim, os migrantes africanos do Minnesota constituíam apenas 1% dos diagnósticos, enquanto que na Califórnia perfaziam um total de 20%.
“As pessoas nascidas em África constituem uma importante proporção dos diagnósticos da infecção pelo VIH em áreas seleccionadas dos EUA com populações com um número significativo de pessoas nascidas em África”, escrevem os investigadores.
Eles acreditam que o seu estudo tem várias implicações:
- o facto dos meios de vigilância epidemiológica da infecção pelo VIH não registarem o local de nascimento dos indivíduos implica que as necessidades das pessoas nascidas no estrangeiro estão a ser negligenciadas.
- os dados epidemiológicos actuais não estão a ser interpretados de forma correcta. Por exemplo, o aumento das infecções entre a população negra do condado de King, no estado de Washington, foi inicialmente atribuído a novas infecções entre a população negra nascida nos EUA. Esta conclusão pode também significar que os esforços na área da prevenção não estão a ser dirigidos às populações certas.
- ao errar no cálculo da verdadeira contribuição das pessoas nascidas em África para a epidemia nos EUA, os actuais dados da vigilância epidemiológica podem estar a subestimar a importância da transmissão heterossexual na epidemiologia da infecção no país.
Os investigadores apelam às autoridades e departamentos de saúde norte-americanos federais, estatais e locais para que desenvolvam estratégias dirigidas à população nascida em África, nomeadamente recursos que forneçam informação sobre a disponibilidade dos testes VIH e os serviços de saúde existentes.
Os autores também sublinham o facto de haver algumas questões por responder sobre o “compromisso da sociedade para com os não-cidadãos residindo nos EUA”, em particular, até que ponto serão os residentes infectados com VIH elegíveis para receber cuidados médicos e de que forma um resultado positivo do teste do VIH afectará a sua residência nos EUA?.
Referência
Kerani RP et al. HIV among African-born persons in the United States: a hidden epidemic. AIDS 49: 102 – 106, 2008.
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