Existe vida sexual depois do HIV
, , O Globo Editoria: Pág. Dia / Mês/Ano: Revista O Globo 02/DEZEMBRO/07 ALBERTO GOLDIN Foi se insinuando aos poucos e quando chegou nos pegou de surpresa,como ummeteorito caindo inexorável sobre...
O Globo | Editoria: | Pág. | Dia / Mês/Ano: |
| Revista O Globo |
| 02/DEZEMBRO/07 |
ALBERTO GOLDIN Foi se insinuando aos poucos e quando chegou nos pegou de surpresa,como ummeteorito caindo inexorável sobre o planeta. Não estávamos preparados e quando percebemos sua gravidade já era tarde. A peste e o terror tinham se espalhado velozmente, como uma mancha de óleo. Maldição bíblica, castigo divino para o pecado e a libertinagem. A partir de então, osexo humano mudou, deixou de ser prazer gratuito. A abstinência e a fidelidade recuperaram o espaço perdido. Muitos indivíduos, por imprudência, transfusão ou acidente, ficaram presos ao seu destino. O tempo passou, carregou suas vítimas e os temores mais alarmistas não foram confirmados.Aparanóia se transformouemtemor, que, por sua vez, foi mais compreendido e melhor tratado. O agudo se tornou crônico, o meteorito contaminou sem acabar com o planeta. Cláudia entrou na sua estatística. Absteve-se generosamente do sexo durante anos, até que um cavalheiro insistente bateu à sua porta. Então, decidiu rever suas premissas. Estava na hora. Hoje é uma mulher normal, que precisa de alguns cuidados especiais. Seu conflito é compartilharumacama sem passar o vírus, o que não é fácil. Tive vários pacientes nessas condições. Passaram por choros, gritos, perguntas e chegaram a algumas soluções. Apesar de soropositivos, o sexo era possível e desejável. Chegamos a algumas conclusões. Uma é consultar um especialista responsável para reduzir o risco de contaminação. A real dificuldade era tratar a questão com os novos parceiros, sem soltar a informação de forma leviana e irresponsável, para não se submeter a uma sangrenta exposição pública numa sociedade discriminatória. A melhor opção era contar a verdade. Mas fazendo isso com a pessoa e no momento adequados, consciente de que poucos o aceitariam, por prudência ou preconceito. Um paciente optou por uma “meia verdade”. Confessou sofrer uma virose “semelhante” à Aids (existem várias), que requeria precauções especiais no contato sexual. Foi uma boa saída. Admitiu o problema e evitou o preconceito. Ainda assim, foi difícil achar um parceiro. Outro namorou uma mulher também soropositiva, excelente saída para ambos. Um terceiro justificava os cuidados para evitar uma doença genética familiar. Vários exemplos mostraram notável criatividade. Ser soropositivo e continuar com uma boa vida sexual era difícil. Não podíamos induzir à mentira, nem forçar a verdade. A Cláudia evitou o problema abstendo-se do sexo. Agora o quer. Tem direito a ele, mas só terá sucesso quando resolver essa espinhosa questão colocada entre a ética e a epidemiologia. Talvez seja a circunstância mais difícil que um ser humano pode enfrentar. Nunca o amor e a destruição do ser amado estiveram tão próximos. O único conselho que me atrevo a repetir, resgatado da minha experiência clínica, é pedir aos pacientes que se coloquem na situação do parceiroe só façam o que, em situação inversa, admitiriam que fosse feito com eles mesmos. Os que nunca amariam uma pessoa contaminada deveriam se abster; os que admitiram, sinceramente, que o amor poderia superar o problema, estariam em condições de tentar. Admito, humildemente, que nunca foi tão difícil ser humano.
Se você gosta deste trabalho, se ele te ajudou de alguma forma, deixe um comentário abaixo — eu leio todos e sempre respondo, mesmo que demore um pouco.
E se quiser, mande um Pix de R$ 0,25 pelos 25 anos de trabalho:
Chave Pix: solidariedade@soropositivo.org
Você também pode me escrever para: claudio@soropositivo.org
Fale com o Blog Soropositivo
Tem uma pergunta, sugestão ou quer falar sobre janela imunológica, sexo oral, PEP, PrEP ou outro assunto? Use o formulário abaixo.
Erro: Formulário de contato não encontrado.

Ponto a Ponderar
Hey! Não desista, resista, persista e insista! Há vida depois do HIV, há vida com HIV! E resiliência é fruto cotidiano da labuta diária.
Informação, Acolhimento, Esperança

Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
No Comment! Be the first one.