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Jornal do Brasil |
Editoria: | Pág. |
Dia / Mês/Ano: |
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Ciência |
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05/FEVEREIRO/08 |
Cerca de 40 milhões de brasileiros vivem com menos de US$ 2 por dia e respondem por um terço de toda a população pobre da América Latina e do Caribe. Devido a este quadro de miséria, a maioria dos casos de doenças tropicais negligenciadas (DTNs) das duas regiões é registrada hoje no Brasil, incluindo virtualmente todos os casos de tracoma e hanseníase, além da maioria dos casos de ascaridíase, dengue, ancilostomíase, esquistossomose e leishmaniose visceral.
A informação preocupante, fornecida pelo diretor executivo da Rede Global para Doenças Tropicais, Peter J. Hotez, serve para lembrar que um dos maiores desafios do país ainda é o combate a esses males. A maior parte destes milhões de pobres brasileiros está infectada com uma ou mais DTNs, especialmente ancilostomídeos (Necator americanus), nematelmintos (Ascaris lumbricoides), ou ambos. Em entrevista ao JB, o editor-chefe da revista PLoS Neglected Tropical Diseases detalha a dimensão do problema do país e enumera possíveis soluções para o quadro dramático.
Por que as doenças tropicais negligenciadas ainda castigam tanto o Brasil?
- Essas doenças são muito comuns em locais de clima tropical e onde há muita pobreza e miséria. A África Subsaariana, por exemplo, registra altos índices de ocorrência destas enfermidades. O Brasil também tem condições muito propícias por atender plenamente a esses dois critérios principais.
O que o governo brasileiro pode fazer para resolver este problema?
- O governo tem uma boa infra-estrutura para diminuir drasticamente o contágio por essas doenças. Conta com instituições científicas que estão entre as melhores do mundo, principalmente a Fiocruz e o Instituto Butantan. Por isso, tem condições plenas de fazer novas vacinas e medicações mais modernas, além de produzir as drogas existentes necessárias. O desafio é conectar melhor a ciência à saúde pública. Foi a partir dessa interação, entre a Fiocruz e a rede de saúde pública, que as autoridades conseguiram praticamente eliminar a doença de Chagas. Mas há outras doenças negligenciadas mais comuns e perigosas do que esta.
Quais desafios existem para essa união de forças?
- As doenças não acontecem nas cidades, mas sim nas áreas rurais. É preciso que o ministério da Saúde e os especialistas técnicos da Fiocruz aumentem a cobertura da distribuição das drogas contra as doenças negligenciadas. O Brasil é tão grande e a área rural é tão extensa que o governo e as instituições precisam estudar como alcançar esses lugares remotos. Sabemos que o governo é capaz de resolver esses problemas, porque fez um ótimo trabalho combatendo a AIDS e a doença de Chagas.
Por que as autoridades estão falhando nessa luta?
- Enquanto o Brasil tiver a combinação clima favorável e pobreza, esses problemas existirão. Só há duas abordagens possíveis: reduzir a pobreza, o que leva décadas para acontecer, e capitalizar infra-estrutura e saúde pública, que demanda mais apoio e financiamento para estas instituições científicas e para as casas de saúde.
Como os países desenvolvidos podem ajudar os em desenvolvimento a combater estes males?
- Há diferenças entre os países em desenvolvimento. O Brasil tem a capacidade técnica e o conhecimento necessários para resolver o problema por conta própria. É um país com alto nível de inovação, assim como Cuba e Argentina, que não precisam de ajuda externa. Já Bolívia, Haiti, Honduras, os em maior necessidade, precisam de apoio. Os EUA e o Brasil devem trabalhar juntos para compartilhar tecnologia com esses países. É uma forma dos brasileiros mostrarem liderança na região.
Você tem trabalhado com brasileiros no combate a estas doenças?
- Nós, da Universidade George Washington, estamos com uma parceria com as duas instituições para desenvolver duas vacinas para esquistossomose, vilã de 1,5 milhão de brasileiros, e ancilostomíase, que afeta 32 milhões de pessoas no país, a maioria em Minas Gerais e Bahia. Descobrimos algumas substâncias promissoras e estamos compartilhando o conhecimento. Os testes das vacinas são feitos pela Fiocruz e a manufatura será pelo Butantan. Mas o produto pode levar uma década para estar disponível. O importante é agilizar os procedimentos que podemos fazer enquanto esse processo longo de produção está em andamento.
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