Roma — A palavra “cura” (durante muito tempo um tabu nos círculos de HIV/AIDS) está sendo amplamente proferida aqui no encontro de 2011 da Sociedade Internacional da AIDS.
A palavra tem sido utilizada em simpósios, conferências via satélite, e até mesmo em uma “Declaração formal de Roma com relação à cura do HIV” lançada pela sociedade e apoiada por uma das mais proeminentes cientistas, organizações de pesquisa e ativistas.
É “o momento certo para apressar a pesquisa sobre a cura do HIV”, disse Françoise Barré-Sinoussi, PhD, do Instituto Pasteur da França, em Paris.
Barré-Sinoussi tem o status de uma estrela de rock no âmbito cientifico da comunidade de HIV/AIDS. Ela é presidente eleita da Sociedade da AIDS e dividiu com seu ex-chefe Luc Montagnier o prêmio Nobel de medicina de 2008, por identificar o vírus da imunodeficiência humana. Ela está co-presidindo um grupo de trabalho científico de aproximadamente 40 pessoas cujo objetivo é traçar um caminho de pesquisa para orientar futuros estudos. O grupo, que tem o apoio do NIH, a agência francesa de pesquisa de AIDS, e do Grupo de Ação de Tratamento entre outros, espera ter o caminho mapeado até a Conferência Internacional da AIDS de 2012 em Washington.
“Sabemos que é possível” alcançar uma cura porque isso já foi feito, disse Barré-Sinoussi ao MedPage Today. O chamado “paciente de Berlim” – um homem com HIV que recebeu transplantes de medula óssea para tratar de leucemia – parece agora estar livre do vírus.
A prova do conceito
O caso é excepcional, Barré-Sinoussi admite, e não pode ser convertido em uma ação em grande escala. Entre outras coisas, os riscos e os custos de um transplante de medula óssea são extremamente altos. E a medula doada tem que incluir células com uma mutação específica e rara, a eliminação do DELTA32 no gene codificador do receptor CCR5, de célula T.
As pessoas com duas cópias dessa mutação são naturalmente resistentes à infecção de VIH, porque o receptor CCR5 é a porta principal que o HIV utiliza para introduzir-se em suas “células-alvo”. Basicamente, o paciente de Berlim – Timothy Ray Brown de 45 anos – agora tem um sistema imunológico com resistência natural ao vírus.
Por enquanto, os pesquisadores não foram capazes de reproduzir esse feito, mas Barré-Sinoussi disse que o caso ainda pode conter algumas respostas. “Isto é uma prova do conceito, mas o que é interessante para mim… é tentar entender os mecanismos,” disse ela aos repórteres.
Os pesquisadores são estimulados por esse exemplo, bem como por estudos recentes que mostram ser possível modificar células tronco para produzir células T com a eliminação do DELTA32. Isto abre a possibilidade de um caminho em direção à cura através da terapia genética.
Mas Barré-Sinoussi também percebeu que os chamados “controladores de elite” fornecem exemplos de resistência natural ao VIH depois da infecção. Por razões que ainda não são muito claras, o HIV pode ser detectado nesses pacientes, mas a níveis baixos, e o vírus não avança na destruição do sistema imunológico mesmo que eles não sejam tratados com drogas anti-retrovirais.
Se isto puder ser reproduzido, seria a chamada “cura funcional”, disse Barré-Sinoussi, e permitiria aos pacientes viver sem medicamentos anti-HIV.
“Se ele existir naturalmente, devemos ser capazes de reproduzi-lo,” ela disse à MedPage Today.
“Estamos todos muito otimistas que uma remissão – uma cura funcional – será possível,” disse Barré-Sinoussi. Tal remissão significaria que um paciente poderia parar o tratamento e também haveria implicações com relação à prevenção, uma vez que ele ou ela não mais transmitiriam o vírus, disse Barré-Sinoussi.
Ela, Barré-Sinoussi, não está sozinha em seu otimismo. O grupo de trabalho científico que a apóia, inclui pesquisadores-clínicos norte americanos bem
O receptor CCR5 é utilizado pelo HIV para penetrar na célula CD4. A cura para a AIDS pode passar por este receptor!
conhecidos tais como John Mellors, doutor em medicina, da universidade de Pittsburgh, Martin Markowitz, doutor em medicina, do Centro de Pesquisas da AIDS Aaron Diamond, e Steven Deeks, doutor em medicina da universidade de São Francisco, Califórnia.
“Sabemos que é possível, então o que precisamos fazer é prosseguir e torná-lo real”, disse Rowena Johnston, PhD, do grupo de advocacia situado em Nova York, que também está apoiando a afirmação de cura.
Estes São os Primeiros Dias
Fundamentalmente, o que foi sugerido aqui é uma proposta para desenvolver um roteiro para uma estratégia científica. Propostas de pesquisa atuais – sem mencionar a própria pesquisa – vão ter que esperar e de qualquer forma, dependerão de acordos internacionais, tanto para que a cura seja possível quanto para que haja dinheiro para financiar estudos que podem se estender por várias décadas.
Além das questões puramente científicas, os pesquisadores terão de considerar a ética de conduzir testes clínicos de curas possíveis entre pessoas cujo HIV pode ser controlado pelo tratamento atualmente disponível, disse Mark Harrington do Grupo de Ação de Tratamento situado em Nova Iorque, uma das organizações que apóiam a declaração de Roma.
Haverá “muitas experiências fracassadas ao longo do caminho,” ele disse ele, e muitos participantes – até mesmo em testes que produzam importantes informações científicas – “não obterão qualquer benefício.”
Neste ponto os especialistas foram relutantes ao estimar quanto tempo isso levará, com exceção de Johnston, que disse que veremos uma cura de HIV “em nossa vida”.
A comunidade de HIV/AIDS, naturalmente, já passou por isso antes. Em virtude do sucesso extraordinário dos primeiros testes de coquetéis triplos de drogas, em meados dos anos 90, houve uma onda de esperança de que os medicamentos erradicariam o vírus.
Essas esperanças foram frustradas em curto espaço de tempo porque – como é sabido hoje – o HIV tem uma capacidade notável de esconder-se das drogas nos chamados “reservatórios”. Quando o tratamento é interrompido, o HIV latente daqueles reservatórios começa a duplicar e a espiral descendente do sistema imunológico recomeça.
Esse é um truque difícil de superar, disse Barré-Sinoussi. “Será difícil conseguir alcançar todas as células que transportam o vírus latente em todos os compartimentos do corpo, com certeza,” disse ela ao MedPage Today, embora, em última análise , seja isso o que é necessário.
Mas o principal obstáculo para o sucesso seria falto de força de vontade, de acordo com Harrington.
A única barreira insuperável, disse ele ao MedPage Today, será “se não tentarmos.”
Por Michael Smith, correspondente norte americano do MedPage Today
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