O tempo não para
Há 20 anos trabalhando com assistência e prevenção ao HIV e desde 1994 à frente de uma casa de apoio para crianças e adolescentes soropositivos, pude constatar que crianças têm em comum sonhos,...
Há 20 anos trabalhando com assistência e prevenção ao HIV e desde 1994 à frente de uma casa de apoio para crianças e adolescentes soropositivos, pude constatar que crianças têm em comum sonhos, fantasias, alegrias, medos e tristezas, não importa sob que signo nasçam ou se em suas correntes sanguíneas carregam como herança materna o HIV.
Quando pequenas, enfrentam o dissabor de uma doença que ainda não tem cura com a coragem de guerreiros, sem o rancor dos adultos que se veem de uma hora para outra contaminados.
Por certo as crianças também contam com mais boa vontade, uma vez que ninguém os vê “culpados” pela doença.
Quando adolescentes nos trazem o assombro de sonhos roubados, inseguranças, medo de rejeição e o início de uma vida sexual com a responsabilidade da prevenção. Tudo o que parecia natural até então começa a ser questionado como é natural com adolescentes, mas o sentimento de injustiça cresce a cada comprimido, em cada consulta médica, na insegurança em falar da vida e de suas histórias para amigos.
Formam a primeira geração de adolescentes e adultos jovens, filhos de mães HIV positivas, portadores de uma doença que ainda não completou 30 anos.
Se em seu início os pacientes não resistiam às suas consequências espalhando pânico e preconceito, hoje vemos a descoberta de novos tratamentos trazendo sua banalização, a dificuldade na prevenção e seus “filhos” duplamente órfãos.
Se por um lado as pessoas parecem não se preocupar com a doença, o estigma e o preconceito ainda pairam sobre os portadores. Em encontros de jovens HIV positivos, histórias de preconceito ainda são tão atuais e veementes quanto no início da epidemia, isso sem falar na negação da doença que leva ao abandono de tratamento juntamente com os sentimentos conflitantes de que nada de ruim poderá atingi-los com a imobilidade de quem se sente vítima de uma doença que ainda não tem cura.
Uma das formas de lidar com esses sentimentos é a fuga e a síndrome de Peter Pan. Participar desses encontros é trazer a possibilidade de discutir entre iguais essas questões e a eles pouco espaço resta além dos proporcionados por ONGs que sobrevivem de teimosia. Eles vivem hoje trancados em seus diagnósticos, invisíveis à sociedade tendo que lidar quase que solitariamente com as questões pertinentes à doença, restando o sigilo pelo preconceito, o silêncio em escolas e locais de trabalho ou a pequena e desafiadora possibilidade de desenvolver trabalho nas ONGs/AIDS.
Lucinha Araújo PRESIDENTE DA SOCIEDADE VIVA CAZUZAJORNAL DO BRASIL – RJ | PAÍS AIDS 09/03/2010
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