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Marsílea Gombata
São mais de 800 milhões de habitantes distribuídos em 54 países no continente mais pobre do planeta, cuja desgraça de uma história marcada pela escravidão parece não ter fim. Mas, curiosamente, é com uma tecnologia de ponta que o continente africano, com uma bagagem de décadas de miséria, fome, epidemias como a Aids e guerras civis, pode ter chance de superar seus problemas e trilhar um caminho próprio para se desenvolver.
Mas como num lugar onde boa parte das pessoas nunca viu um computador haverá espaço para a tecnologia fazer revolução?
Menos de 1% dos africanos tem acesso à internet banda larga. Entre os países africanos, há pouca conexão feita por cabos e apenas alguns Estados possuem internet.
- A internet incentivará as tradições culturais africanas e pode mudar a impressão que o mundo tem de valores e lugares do continente – prevê Mallami Kayode, analista nigeriano e colunista do jornal African News Switzerland. – Em breve, se alguém quiser conhecer nosso continente, poderá ter acesso a informações sobre negócios locais, estilo de vida e cultura.
Uma saída para o continente carente em infra-estrutura, portanto, seria abraçar a idéia de uma conexão sem fio – mais barata e eficiente que outros tipos de Rede – como solução para o abismo digital que enfrenta. Num segundo momento, setores como saúde, educação, comunicação, transporte e economia também seriam impulsionados.
Para Kayode, a internet é uma boa maneira, ainda, de promover a união entre os países africanos, assim como entre a África e o mundo:
- Há muitas coisas que ocorrem no continente que o resto do mundo não faz idéia – explica. – Com a internet, saberemos melhor como desenvolver o turismo, além de inovar padrões educativos e econômicos. A tecnologia ajudaria o centro de dados para pesquisas e o sistema social na África, que são muito pobres.
No ano que vem, a Motorola começa a instalar em Uganda uma rede wimax – sistema de conexão de alta velocidade, sem fios e com grande cobertura – para o acesso de computadores à internet.
O sistema é vantajoso para regiões onde a estrutura por cabo defasada ou inexistente. O custo é mais barato e consome menos energia que internet com fios. Em regiões afastadas, onde há problemas de infra-estrutura, o wireless se mostra como alternativa única.
- Há no país uma demanda de banda larga, fundamental para a inclusão social – explica José Geraldo de Almeida, gerente de desenvolvimento de novos negócios da Motorola. – A internet traz informações importantes e a wimax pode abrir espaço no mercado, com serviços e conteúdos. O acesso à informação é fundamental para a cidadania, o desenvolvimento econômico e a oportunidade de transformar vidas.
O desafio de superar problemas e aprender a lidar com novas tecnologias pode ser mérito, também, da telefonia celular. O envio de torpedos e as ligações entre telefones móveis fazem as fronteiras entre os Estados africanos menores.
A rede de celulares na África ainda não pode ser comparada com a européia, americana ou asiática. A tendência, no entanto, é que telefonia móvel e internet wireless trabalhem a favor de ricos e pobres e, também, na transposição das barreiras entre eles.
- Distância e transporte são os maiores problemas da África e podem ser solucionados pela comunicação por internet e telefonia que dispensam fios – garante o cientista social Cornel du Toit, da Universidade da África do Sul.
Parte de um programa de desenvolvimento da ONU, o Millennium Project prevê que cerca de meio milhão de pessoas de 10 países africanos terão celulares dentro de poucos anos. Incentivo deve ser adequado Um trabalho de formiguinha contra pobreza, semelhante ao Millennium Project da ONU e ao New Partner for Africa"s Development (Nepad), que procura desenvolver a inclusão digital, é feito em pontos do Brasil igualmente carentes, desde 2003. O Programa Gesac (Governo Eletrônico – Serviço de Atendimento ao Cidadão) proporciona acesso à Rede para 100 municípios de baixa renda no Nordeste. – O objetivo é trazer computadores e conexão via satélite para comunidades muito pobres, onde o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é baixo – explica Heliomar Medeiros, diretor de inclusão digital do Gesac. – O objetivo é que o acesso à internet proporcione mudanças e desenvolvimento na vida de moradores de áreas de extrema pobreza, como pontos do Nordeste, que enfrentam problemas semelhantes aos da África. Medeiros explica que comunidades que vivem de artesanato, por exemplo, têm chance de colocar à venda na internet seus produtos. – O mais importante é que a tecnologia seja adequada ao dia-a-dia da comunidade para ela se sentir estimulada a utilizar aquele recurso para melhorar sua realidade – explica Medeiros. – Além de entretenimento, a Rede deve ser incentivada como ferramenta par melhorar produtividade e economia locais. Agricultores locais, por exemplo, passaram a usar a internet para saber os preços dos produtos que cultivam. A criatividade, portanto, é indispensável. Em Pernambuco, até os idosos costumam acessar a web pelo programa. Na chamada sala do reencontro de alguns telecentros, conversam com parentes que moram em lugares distantes, como São Paulo. É o interesse sentimental, portanto, que leva esses moradores a terem contato com tecnologias. Projetos semelhantes são desenvolvidos em regiões isoladas e extensas como a Amazônia. A tecnologia de conexão por satélites permite reduzir distâncias, tempo e custo dos investimentos para a conexão à Rede. Assim como nessas regiões, na África a febre é tamanha que muitos agricultores estão abrindo mão de outros luxos para ter um celular e se comunicar mais facilmente. – Está no início, mas os celulares também oferecerão acesso à internet – avalia o cientista social Cornel du Toit. – A tecnologia, no entanto, ainda precisa ser melhorada e barateada para surtir algum impacto na África. O especialista ressalta, ainda, os efeitos negativos que o avanço tecnológico poderia trazer ao continente. Poluição e destruição de fontes naturais poderiam, segundo Du Toit, levar a problemas sociais como "corrupção, alcoolismo, criminalidade e materialismo".







