Início Ação Anti AIDS Tuberculose: Um mal esquecido

Tuberculose: Um mal esquecido

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Doença milenar, a tuberculose continua matando milhares de pessoas, principalmente por causa da falta de informação. Nem todos os médicos sabem distingui-la da pneumonia, o que atrasa o tratamento adequado

Márcia Neri

 

Apesar de acompanhar a humanidade há pelo menos 5 mil anos, e a despeito de ser curável há meio século, a tuberculose (TB) ainda faz milhares de vítimas em todo o mundo. Um terço da população mundial está infectada pelo agente causador da doença, a bactéria Mycobacterium tuberculosis, ou bacilo de Koch. Em 10% desse contingente, a enfermidade se manifesta. Os países em desenvolvimento são os mais atingidos, e a patologia é destaque no rol das doenças negligenciadas. Três milhões de pessoas não resistem à mazela a cada ano. Dados do Ministério da Saúde revelam que, no Brasil, são registrados anualmente 80 mil novos casos do mal, com 5 mil óbitos. Mas cerca de 50 milhões de brasileiros podem estar infectados.

 

O país integra o bloco dos 22 países em desenvolvimento que abrigam 80% dos portadores da doença. Ao contrário das nações desenvolvidas, onde o mal é mais frequente em pessoas idosas, por aqui a tuberculose acomete todos os grupos etários. Os homens adoecem duas vezes mais que as mulheres, e a prevalência é maior em áreas de alta concentração populacional, com precárias condições socioeconômica e sanitária.

 

O infectologista Alexandre Cunha explica que a TB é famosa pelo acometimento pulmonar, mas poucos sabem que outros órgãos do corpo, como a pele, os rins, os ossos, o fígado e até os olhos podem ser atacados pelo bacilo. “A tuberculose é uma patologia infecciosa pouco lembrada por alguns médicos. Não raro, é confundida com a pneumonia, o que acaba postergando o tratamento adequado”, lamenta.

 

Oportunista

 

A TB é transmitida de pessoa para pessoa pelo ar. A fala, o espirro e principalmente a tosse da vítima da tuberculose pulmonar lançam gotículas com o bacilo no ambiente. No entanto, nem todas as pessoas expostas à bactéria são infectadas. A doença é oportunista. “A manifestação da tuberculose depende das condições do sistema imunológico. O bacilo pode ficar alojado por muitos anos. Quando a imunidade sofre uma queda, os sintomas se manifestam. Algumas pessoas chegam a não desenvolver o problema nunca”, explica Alexandre. Com o surgimento da AIDS na década de 1980, a tuberculose voltou a ser uma grande preocupação. “Pacientes imunossuprimidos são muito susceptíveis ao bacilo”, conta.

 

No caso da TB pulmonar, o diagnóstico é feito por meio das coletas de secreções respiratórias (catarro) ou do material recolhido no pulmão. Nos outros órgãos, geralmente, é feita a biópsia para comprovar a presença do bacilo. “Febre persistente com suores e calafrios noturnos, perda de apetite, emagrecimento, fraqueza e prostração são os sintomas mais comuns. A tosse ocorre quando a bactéria causa infecção nos pulmões”, acrescenta o médico. Ele enfatiza que a tuberculose é uma doença de evolução relativamente lenta, mas que leva à morte se não for remediada a tempo.

 

A psicóloga Vania Moraes Oliveira, 31 anos, se surpreendeu com o diagnóstico, que veio somente quando os pulmões já estavam bem comprometidos. Ela contraiu a doença no Rio de Janeiro em um período que trabalhou na cidade. “Passei a sentir algumas fisgadas nas costas. Imaginei que fosse decorrência das aulas de natação. Fui ao médico e ele supôs que poderiam ser gases”, relata.

 

Como as dores não passaram, Vania procurou outro especialista dois meses mais tarde, época em que passou a ter febre constante também. “Novamente, nenhum pedido de teste ou exame foi feito. Fui medicada para sinusite. Ao visitar minha família em Brasília, comecei a sentir falta de ar constantemente. Procurei novamente um médico e dessa vez uma radiografia detectou um derrame na pleura, membrana que reveste o pulmão. Fui internada, e à essa altura começaram as tosses, mas para confirmar o diagnóstico precisei passar por um procedimento cirúrgico”, conta.

 

Vania seguiu corretamente as orientações médicas em relação ao tratamento e está completamente curada. A doença é remediada com um esquema de antibióticos que devem ser tomados rigorosamente por um semestre. Os remédios são distribuídos pelo governo. “O grande problema do controle da tuberculose é o abandono antes do fim dos seis meses. Como os sintomas melhoram em pouco tempo e os efeitos colaterais são comuns, muitos pacientes não completam o tratamento, fato que favorece o surgimento de cepas multirresistentes do bacilo de Koch”, pondera o infectologista Alexandre Cunha. Os pacientes deixam de transmitir o mal após 15 dias de tratamento. Porém, podem voltar a ser transmissores se não completarem o curso de antibióticos.

 

No Brasil, estuda-se um novo tratamento para a doença. Uma substância extraída do óleo de copaíba, planta nativa da região amazônica, poderá servir de base a um fitomedicamento capaz de tratar a tuberculose. O produto está sendo pesquisado pelo Laboratório de Farmacologia Aplicada do Instituto de Tecnologia em Fármacos da Fundação Oswaldo Cruz. O princípio ativo, identificado e isolado pela equipe da bióloga Maria das Graças Henriques, apresentou atividade antibacteriana eficaz em testes com camundongos de laboratório. “Administramos doses orais da substância isolada e comprovamos que ela mata a bactéria causadora da TB por meio do material que foi coletado do pulmão dos animais usados nos testes”, explica a pesquisadora. Até o fim de 2010, o grupo pretende finalizar um dossiê clínico e pedir autorização para testar o fitomedicamento em humanos.

Como os sintomas melhoram em pouco tempo e os efeitos colaterais são comuns, muitos pacientes não completam o tratamento”

 

Alexandre Cunha, infectologista

 

CORREIO BRAZILIENSE

Editoria: Pág. Dia / Mês/Ano:

SAÚDE

 

19/JANEIRO/10

 

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