Estudo da USP desmonta hipótese Colombo da SÍFILIS
Ossos antigos e genética inocentam marinheiros de levar doença para a Europa Pesquisa confirma que “mal de Vênus” tem pelo menos 4.000 anos, mas não revela se origem geográfica está...
Ossos antigos e genética inocentam marinheiros de levar doença para a Europa
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Pesquisa confirma que “mal de Vênus” tem pelo menos 4.000 anos, mas não revela se origem geográfica está no Velho ou no Novo Mundo
MARCELO LEITE
COLUNISTA DA FOLHA
Quem for ao portal do Ministério da Saúde pesquisar sobre a SÍFILIS encontrará que a doença sexualmente transmissível, de péssima fama, foi levada por marinheiros de Cristóvão Colombo da América para a Europa, no final do século 15. Uma informação errada, segundo estudo que surgiu de um curso de pós-graduação da USP.
A disciplina foi ministrada um ano atrás por Sabine Eggers no Instituto de Biociências. Sob o título “Variabilidade em Homo sapiens: aspectos genéticos e ambientais”, não tinha a princípio nada a ver com SÍFILIS.
A geneticista deixou os alunos escolherem o que queriam fazer. Eles optaram por estudar o efeito da evolução darwiniana na medicina, aprender paleopatologia (estudo de doenças em vestígios fósseis) e escrever um artigo científico.
O resultado saiu em formato eletrônico no periódico “PLoS Neglected Tropical Diseases”, dedicado a doenças tropicais negligenciadas, em janeiro: uma refutação da hipótese de que a doença só tenha chegado à Europa depois de 1492. Os marinheiros de Colombo e as índias com quem tenham mantido relações sexuais foram inocentados da acusação de ter iniciado a epidemia que devastou Nápoles em 1495.
Mal moderno
A SÍFILIS pode ser uma doença devastadora. Inicia-se com uma pequena ferida nos órgãos genitais, 2 a 3 semanas depois da relação desprotegida, e em seguida parece sumir. Volta a manifestar-se depois, com manchas pelo corpo, queda de cabelos, cegueira, paralisias -e pode levar à morte.
Com a descoberta da penicilina, em 1928, pôde enfim ser tratada. A dificuldade de diagnóstico, no entanto, ainda a mantém em circulação e favorece a transmissão na gravidez. No Brasil, o número de casos de SÍFILIS congênita mais que dobrou entre 1998 e 2006, passando de 2.840 para 5.749.
Importante para a pesquisa foi a SÍFILIS causar deformações nos ossos -como a “tíbia em forma de sabre”- identificáveis em esqueletos antigos. E biólogos moleculares já haviam “soletrado” o DNA da bactéria Treponema pallidum pallidum, agente causador da doença.
O grupo multidisciplinar de alunos planejava desde o princípio combinar as ferramentas históricas e genéticas no estudo, portanto a SÍFILIS se tornou uma candidata forte. “Era uma escolha interessante, pois havia saído um livro recentemente [“The Myth of Syphilis”, O Mito da SÍFILIS, de Mary Lucas Powell e Della Collins Cook] que colocava bem a sua intrincada história”, conta Eggers.
O primeiro passo foi reunir na literatura científica exemplos de esqueletos com vestígios característicos de SÍFILIS. Após depurar casos duvidosos, restaram sete registros no Velho Mundo (Europa e Ásia) anteriores ao Descobrimento.
Esqueletos e genes
O diagnóstico por paleopatologia, no entanto, sempre deixa margem a dúvidas. Existem outras treponematoses (doenças causadas por bactérias do mesmo gênero) com efeitos comparáveis. O levantamento na literatura apontava evidências fortes para inocentar marinheiros europeus e índias americanas, mas não conclusivas.
É aí que o estudo da USP inova, ao complementar o registro histórico com ferramentas de biologia molecular. A ideia -usar o chamado “relógio molecular”- partiu do aluno Fernando Lucas de Melo, primeiro autor do artigo na “PLoS”.
Relógio molecular é uma técnica que parte da taxa de mutação constatada em cada organismo. A sequência do genoma muda naturalmente, com o tempo, mas cada espécie o faz em velocidade mais ou menos característica. Simplificadamente se pode dizer que, com duas amostras obtidas em locais diferentes, é possível estimar se uma se originou da outra e quanto tempo atrás.
Para a SÍFILIS venérea ter aparecido cinco séculos atrás de cepas menos virulentas, como pressupõe a hipótese Colombo, a bactéria precisaria ter taxa de mutação cem vezes mais rápida que o previsto. Pelo relógio da USP, a SÍFILIS deve ter emergido há mais de 4.000 anos.
A combinação dos dois métodos não foi capaz, porém, de solucionar o mistério sobre a origem geográfica da SÍFILIS. Só se sabe que ela estava presente no Novo e no Velho Mundo antes do Descobrimento, mas não qual continente exportou para o outro o “mal de Vênus” (a deusa do amor, origem da expressão “doença venérea”).
FOLHA DE S. PAULO |
Editoria: | Pág. | Dia / Mês/Ano: |
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CIÊNCIA |
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05/FEVEREIRO/2010 |
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