Homofobia ainda é tabu nas escolas
Pesquisa revela que falta preparo na rede pública de ensino para lidar com a questão Patrícia Drummond A homofobia está presente nas escolas públicas goianas e as instituições de ensino não estão...
Pesquisa revela que falta preparo na rede pública de ensino para lidar com a questão Temas Tratados Nesta PáginaPatrícia Drummond A homofobia está presente nas escolas públicas goianas e as instituições de ensino não estão preparadas para lidar com a questão. A conclusão é de uma pesquisa do Projeto Escola sem Homofobia, que ouviu gestores estaduais e municipais, professores e estudantes do 6º ao 9º ano – com faixa etária entre 11 e 17 anos – em 11 capitais brasileiras, incluindo Goiânia. Quatro escolas da capital participaram do estudo: Escola Estadual Marechal Rondon, na Vila Irani; Colégio Estadual Colemar Natal e Silva, no Setor Aeroporto; Escola Municipal Engenheiro Antônio Félix da Silva, no Jardim Europa; e Escola Municipal Maria Araújo de Freitas, no Parque Atheneu. “Em nossas visitas, pudemos observar a ocorrência de bullying e de discriminação e violência homofóbica e não homofóbica, em situações graves”, destaca Leo Mendes, diretor da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, TRAVESTIS e TRANSEXUAIS (ABGLT), que participou diretamente do levantamento como assistente local dos pesquisadores. Segundo relata, em uma das escolas, um dos estudantes apresentou um dos colegas aos pesquisadores como sendo “o viadinho da escola”. O menino não respondeu à agressão verbal e, depois, foi agredido fisicamente por outros alunos. “Nessa mesma escola, momentos depois, a diretora deu um empurrão num menino surdo para fazê-lo entrar na sala porque ele não tinha escutado o sinal”, acrescenta Leo. Em outra situação, conta ele, durante a entrevista a um estudante na hora do recreio, um colega chutou o entrevistado. Posteriormente, vieram um segundo e um terceiro meninos que também o chutaram, atingindo uma ferida que ele tinha na perna. “O aluno agredido (apontado como HOMOSSEXUAL) chegou a manifestar dor, mas disse que já estava acostumado a ser agredido”, afirma o diretor da ABLGT, lembrando que os pesquisadores chamaram a atenção dos agressores e que eles deixaram o grupo “sem prestar muita atenção”. Falta de preparo De acordo com Leo Mendes, a pesquisa constatou que, entre os professores, não existe capacitação para lidar com o tema da diversidade sexual na sala de aula- embora a Secretaria Estadual de Educação ateste que cursos venham sendo realizados por meio de parcerias (leia reportagem nesta página). “A maioria considera o tema um tabu e se sente constrangida ao abordá-lo. Essa abordagem, quando ocorre, é de forma equivocada e pontual, porque um ou outro caso surgiram no ambiente escolar”, diz o assistente local da pesquisa. “De modo geral, a escola joga para cima da família a responsabilidade por não trabalhar o tema na escola; ou seja, não o faz por medo dos pais”, completa. Além da falta de preparo de professores, coordenadores e diretores e da ausência de material didático adequado para tratar a questão sexual nas escolas goianas, outro obstáculo citado por Leo é a religião: “Foi consenso que a religião exerce um papel importante na formação e manutenção do preconceito acerca das questões de sexualidade e orientação sexual”. A pesquisa Homofobia nas Escolas foi reivindicada pela sociedade civil organizada na 1ª Conferência Nacional GLBT – realizada em junho de 2008, em Brasília (DF) e desenvolvida pelo Ministério da Educação (MEC). A instituição Reprolatina – Soluções Inovadoras em Saúde Sexual e Reprodutiva – organização não governamental (ONG) de Campinas (SP), que busca melhorar a saúde sexual e a saúde reprodutiva das populações menos favorecidas da América Latina – foi responsável pela execução do projeto, que contou com o patrocínio da Pathfinder do Brasil, ECOS e Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, TRAVESTIS e TRANSEXUAIS (ABGLT). Em Goiás, o estudo foi realizado com o apoio do governo estadual e da Prefeitura de Goiânia, por meio das Secretarias de Educação. Em Goiânia – assim como nas outras dez capitais do Brasil onde o estudo foi desenvolvido – a escolha das escolas foi feita pelo sistema de amostragem, por sorteio, e teve como base o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) do MEC. Tanto no nível estadual quanto municipal, foram visitadas uma escola com Ideb considerado alto (igual ou maior que 75) e, outra, com Ideb considerado baixo (igual ou menor que 25), considerando os dados de 2007. O trabalho de campo foi realizado entre os dias 1º e 4 de dezembro de 2009, por cinco pesquisadores, quatro assistentes locais e dois consultores.
Ativista diz que sofreu discriminação Aos 19 anos, o assistente comercial Thiago Henrique de Paula demonstra uma maturidade acima da média ao falar sobre as diversas formas de preconceito contra homossexuais que presenciou na escola estadual onde estudou, durante três anos, até 2009. Segundo conta, à época, por ser considerado “popular” entre os colegas, foi poupado da homofobia de forma direta, mas sentiu-se incomodado com a discriminação em relação a outros colegas gays. “O preconceito, na escola, não me afetava diretamente, mas eu não gostava de ver o que sofriam os meus colegas gays, como eu”, relata Thiago. Ele lembra que, em uma das vezes, um colega do 3º ano foi “completamente humilhado” e, chorando, procurou-o para dizer que estava pensando em desistir dos estudos. “Foi quando eu decidi descruzar os braços e fazer alguma coisa: fui à sala dele, chamei a atenção da turma, e, como ativista, escrevi uma carta à diretora do colégio, com cópia para a coordenadora, propondo a construção de uma escola realmente inclusiva, sem preconceito e discriminação”, diz. Na carta, o estudante cita a Constituição Federal, o Estatuto da Criança e do Adolescente, o Pacto Internacional pelos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, e faz uma série de solicitações à direção da escola. Entre elas, a inclusão de temas relativos à sexualidade e homossexualidade na rotina dos alunos, a ampliação do Programa Saúde e Prevenção, além do apoio à divulgação de informações científicas e de direitos humanos sobre a orientação sexual/identidade de gênero e o combate à homofobia. “Que possamos fazer acordos e trabalhos educativos para que possamos conscientizar os professores e alunos sobre a diversidade e que não é preciso ser HOMOSSEXUAL para respeitar um HOMOSSEXUAL“, diz um trecho da carta assinada por Thiago Henrique. “A promoção de uma cultura de paz passa (…) por excelência pela escola e a partir da escola”. Pela atitude, o jovem – então no 1º ano do ensino médio – acredita ter conquistado o respeito da direção, de professores e de colegas, “inclusive entre os não-gays e até mesmo entre os que praticavam atos homofóbicos”.
Secretaria combatem o preconceito Representantes dos governos estadual e municipal reconhecem que falta muito para que as políticas públicas definidas sejam de fato, efetivadas. “A homofobia está no rol dos preconceitos arraigados, que não se combate de forma tranquila e rápida; é processual”, diz o coordenador de Ensino Médio da Secretaria Estadual de Educação (Seduc), Marcos Elias Moreira, que acompanhou a apresentação a pesquisa em Goiânia. Segundo ele, foi oferecido curso, em parceria com o Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás (UFG), para cerca de 400 docentes da rede. Na Secretaria Municipal de Educação (SME), em Goiânia, há um curso anual que trabalha EDUCAÇÃO SEXUAL, homossexualidade e homofobia, feito em parceria com a Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO). Dos mais de 6 mil professores, cerca de 600 já foram capacitados. “Essa discussão é contemplada por nosso projeto político-pedagógico, com a abordagem de que a escola é um direito do cidadão que deve ser respeitado”, destaca Gisella de Souza Almeida, chefe da Divisão de Educação Fundamental, da Infância e Adolescência da (SME). “Infelizmente, a homofobia é algo que ultrapassa os muros da escola”, diz. O POPULAR – GO | CIDADES |
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